Cibersegurança na "falência": esquerda impõe lei da rolha a ex-diretor

O PS, PCP e BE chumbaram a audição do almirante Torres Sobral, ex-diretor do Centro Nacional de Cibersegurança que tinha acusado o governo de ter deixado o centro "quase na falência"

A esquerda "unida" do parlamento não quer ouvir o ex-diretor do Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS), que se demitiu em 2016, sobre o estado de "quase falência" que o governo terá deixado esta estrutura que deve proteger o país de ataques informáticos. O CDS tinha pedido para ouvir o almirante Torres Sobral, tal como o último coordenador do CNCS, professor Pedro Veiga, que se demitiu na semana passada. A audição de Pedro Veiga, que bateu com a porta no dia em que o CNCS iniciava um simulacro a nível nacional para testar as capacidades, foi aprovada.

Em declarações exclusivas ao DN, no dia da demissão do seu sucessor, Torres Sobral tinha revelado que o governo "nunca deu" a esta estrutura "a importância que as circunstâncias recomendavam como necessárias". Torres Sobral, um almirante na reserva que dirige atualmente a Entidade Fiscalizadora do Segredo de Estado, na Assembleia da República, não estranhou a demissão do último diretor do CNCS, Pedro Veiga, considerando até "expectável, face aos constantes constrangimentos orçamentais".

O CNCS é a autoridade nacional com a missão de detetar e responder a ciberataques que ponham em causa o funcionamento das infraestruturas críticas (como hospitais, aeroportos, centrais elétricas) e os interesses nacionais.

"No último ano do meu mandato (2016) fomos atingidos em pleno pelas cativações. O governo chegou a cativar 60% das verbas próprias do CNCS, das quais estavam dependentes vários projetos e fundamentais para a compra de equipamentos. Não havia dinheiro para nada e entrámos quase em falência", conta este oficial superior de Marinha, que quebra pela primeira vez o silêncio, desde a sua saída do CNCS, também em conflito com o governo. Torres Sobral acrescenta que foram "divergências com o rumo" que o governo estava a a ter em relação ao Centro, que levaram à sua exoneração.

Contactados pelo DN para explicarem o "chumbo" o PS, o PCP e o BE, apenas responderam comunistas e socialistas. "Chamar o presidente da fiscalização do segredo de estado para se pronunciar sobre uma realidade que abandonou há dois anos, não fazia sentido", justificou Filipe Neto Brandão". Na mesma linha segue António Filipe, do PCP, para quem "não faz sentido ouvir alguém que se demitiu há dois anos".

Os centristas invocavam que Torres Sobral é "uma voz autorizada, conhecedora do projeto CNCS e do que o mesmo precisa para levar por diante as respetivas missões, pelo que certamente poderá ajudar a Comissão a perceber a natureza dos problemas que levaram o coordenador Pedro Veiga a pedir a demissão".

A deputada Vânia Dias da Silva lamentou ao DN que Torres Sobral tivesse sido impedido de falar. "Tem sido uma prática não deixar vir ninguém que possa por em causa o governo. Provavelmente o Sr. Almirante não conseguiam controlar", sublinhou.

Contactado pelo DN, Torres Sobral limitou-se a responder: "Se não querem a minha opinião, paciência".

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