"Cheirou a Lisboa" na noite de Alfama

Atual campeã foi uma das sete marchas a concurso que desfilaram este sábado no Meo Arena. Este domingo, exibem-se as restante sete.

Arrepiante. É assim que se pode descrever o momento em que, neste sábado à noite, centenas de pessoas entoaram em uníssono no Meo Arena o hino não oficial de Lisboa - "Cheira Bem, Cheira a Lisboa". Entre as vozes, estava a da fadista Anita Guerreiro que, no ano em que celebra o 60.º aniversário como madrinha nas Marchas Populares, é homenageada pelo conjunto que protege há nove anos - o dos Mercados.

O grupo, que desfila extra concurso, abriu - pouco depois das 21.30 e em tons de branco, vermelho e preto - a segunda de três noites no antigo Pavilhão Atlântico e foi responsável uma das surpresas da noite, ao permitir que a artista entrasse no recinto sentada num trono. Seria, ainda assim, sem adereços inovadores que, já perto das 00.30 deste domingo, se exibiria Alfama, atual campeã e, a avaliar pela primeira apresentação perante o júri, séria candidata à revalidação do título.

Com um figurino azul, verde e amarelo a fazer lembrar girassóis, o conjunto distinguiu-se pela alegria dos seus marchantes e pela sincronização dos movimentos. O desfile terminaria com os padrinhos da marcha - a fadista Raquel Tavares e o apresentador João Paulo Rodrigues - a ser arrastados para fora da arena pelos membros do grupo, numa cena teatral a fechar a noite que deixou a claque de Alfama em delírio, enquanto o desapontamento era cada vez mais evidentes nos rostos dos marchantes de outros bairros.

Entre eles, estavam os de Alcântara, antepenúltimo grupo a desfilar e que, depois de horas a vibrar com os seus apoiantes de cada vez que se abria o pano dos bastidores, surpreendeu com a entrada das mulheres em carroças cujas rodas depressa se transformaram em arcos. Confiante e com um figurino em tons de azul, verde, vermelho, amarelo e laranja, o conjunto denotou, apesar da coreografia bem ensaiada, algumas hesitações.

Mais determinado, logo a seguir, foi o conjunto da Bica, medalha de bronze em 2013 e, que este ano, aposta na celebração da sardinha para tentar lutar pelo título. O peixe típico de arraiais deu forma, em quarteto, aos arcos em roxo, azul e rosa - as mesmas cores dos fatos. Neste caso, as marchantes entraram na área de competição num barco a que algumas retomariam no final, quando os aguadeiros haviam já recolhido várias sardinhas que se tinham soltado das suas roupas.

Nesta reta final, tinham ficado já para trás quatro atuações mornas, apesar do entusiasmo inesgotável das respetivas claques. Celebrando o 40.º aniversário da Revolução dos Cravos, o Lumiar foi o primeiro bairro a marchar este sábado a concurso. A apresentação, protagonizada por "capitães de Abril" e "vendedoras de cravos" vestidos de verde, vermelho e branco, ficou marcada sobretudo pelo final, quando, ao fim de vários disparos de confetes dourados, uma das mascotes colocou a flor que se tornou histórica no topo de uma espingarda.

A ação obrigou a que a arena fosse limpa e atrasou a entrada do conjunto da Mouraria, que, mais uma vez, celebrou o Fado, invocando o nascimento no bairro da Severa. Não obstante, foi apenas na segunda metade da exibição de 20 minutos que os xailes negros integraram pela primeira vez o figurino em tons de branco, vermelho, verde e amarelo. Pouco antes, a imagem daquela que é considerada a fundadora da canção lisboeta tinha surgido nos arcos em forma de coração.

Mais (literalmente) brilhante foi a apresentação de Campolide, que se apresentou de laranja, dourado e branco e com arcos a imitar espelhos. Ausente em 2013, a marcha tem este ano expectativas elevadas, mas, este sábado, foi evidente a dessincronização dos seus marchantes. O grupo pode ainda queixar-se da sorte, já que, numa das marcações cenicamente mais vistosas, viu uma das sombrinhas vermelhas utilizadas pelas marchantes estragar-se. Nada que afetasse, porém, os seus apoiantes. "Campolide é a minha marcha do coração", repetia, agarrando apaixonadamente a camisola, uma mulher com cerca de 50 anos.

Bem mais discreta foi a claque de Benfica, que, aqui e ali, agitou até cachecóis do Sport Lisboa e Benfica e não do Clube Futebol Benfica, entidade que organiza a marcha e cujo emblema deu forma aos arcos. No ano em que celebra o 80.º aniversário da primeira participação nas Marchas Populares de Lisboa, o figurino inicial - de camponeses - depressa deu lugar a roupas mais arrojadas e a passos mais complexos, que nem todos aparentavam ter decorado.

A partir das 21.30 deste domingo, é a vez de Graça, Castelo, Belém, Carnide, Beato, Madragoa e Alto do Pina mostrarem os seus trunfos ao júri. A entrada no Meo Arena custa seis euros.

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