Centeno quer ir à Europa defender redução da taxa de juro da dívida

Costa ficou calado e foi ministro das Finanças quem assumiu debate. "Leiam os meus lábios: impostos não aumentam", disse

O diabo que tem andado à solta na política também está nos detalhes e foram "detalhes" o facto de António Costa não ter falado ontem em defesa do Orçamento do Estado do seu governo. Pelo menos foi assim que o líder da bancada do PS defendeu esta opção - rara em muitos anos de orçamentos - de ser o ministro das Finanças a apresentar a proposta de contas para 2017. O detalhe avançado para explicar o silêncio do primeiro-ministro era o facto de António Costa ter chegado de madrugada do Brasil, onde esteve na cimeira da CPLP.

Mário Centeno antecipou as linhas gerais do Orçamento do Estado, insistindo na fórmula de um governo que diz estar a fazer a economia crescer sem pôr em causa a reposição dos rendimentos e o Estado social.

Quando o Bloco de Esquerda, pela voz de Mariana Mortágua, lamentou que o excedente orçamental de 5276 milhões de euros esteja "a ir para o pagamento de juros de dívida pública", sem poder socorrer a escola pública ou o Serviço Nacional de Saúde, o ministro das Finanças abriu a porta a discutir essa dívida.

"É necessário que Portugal tenha uma redução na taxa de juro que paga pelo seu endividamento", defendeu o ministro, com as cautelas de quem mantém a Europa na lapela. Mas Centeno concordou com Mariana Mortágua, dizendo que esta questão é "crucial para o futuro próximo da economia portuguesa". Portugal está num caminho em que cumpre as suas obrigações europeias (e este Orçamento respeita os limites do défice, recordou) e assim resgata uma credibilidade que lhe permite "ter uma voz nesta matéria".

PSD e CDS acusaram António Costa de se "esconder" atrás de Mário Centeno, de "não dar a cara" pelo documento, que Assunção Cristas classificou de "tão poucochinho" que nem Costa o quis "defender".

A presidente do CDS - a única líder partidária a tomar a palavra - carregou nas tintas de um orçamento que disse ser da "oportunidade perdida" ou "oculto".

Já Luís Montenegro, líder parlamentar do PSD, numa intervenção aclamada pela bancada laranja, defendeu que hoje "o país está pior" e "a vida quotidiana dos portugueses não está melhor", numa intervenção em que acusou a maioria de esquerda de praticar "austeridade pura" com estas contas para 2017.

As duas bancadas que já foram governo insistiram de que este é um Orçamento que aumenta impostos. E perante tanta insistência, Mário Centeno respondeu com um clássico que lhe pode trazer amargos de boca: "Se aqui estivesse podia ler nos meus lábios a 101ª vez que não há aumento de impostos. E se conseguisse ler nos lábios seria um dois em um: não há aumento de impostos", atirou em resposta ao deputado do PSD Duarte Pacheco, que se tinha ausentado da sala.

O ministro das Finanças recuperou assim o famoso "read my lips: no new taxes" do antigo presidente americano George H. Bush (pai). Mas este "leia os meus lábios: não haverá novos impostos" acabou por devolvido como ricochete - Bush aumentou mesmo os impostos.

Os impostos, mas também as pensões, acompanhados de exercícios oratórios sobre as heranças de uns e outros, foram o prato forte do dia. PSD e CDS insistiram que o Governo não vai aumentar as pensões dos "mais pobres dos pobres", com o centrista Mota Soares a dizer que o fazia por "revanche".

Centeno recordou a carta que o anterior executivo enviou para Bruxelas, em abril de 2016, para defender que no Orçamento para 2017 "não consta nenhum corte de 600 milhões de euros nas pensões, como constava no Programa de Estabilidade de 2015", nem o "congelamento de mais de dois milhões de pensões".

No primeiro dia de debate, Ferro Rodrigues justificaria já quase no final excessos de linguagem pelo longa discussão que se prolongou por seis horas e meia. A intervenção do presidente do Parlamento deu-se quando o centrista João Almeida disse que o PS, que chegou "oportunisticamente" ao poder, foi "bater à porta dos idiotas úteis", referindo-se ao BE, PCP e PEV. E explicou que não era "uma ofensa, pois deixaram de ser úteis pelas ideias e passaram a ser úteis pelos votos que traziam".

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