Celebrar Dia de Portugal e os açorianos nos EUA

Marcelo Rebelo de Sousa, depois da Europa e o Brasil, alarga outra vez em 2018 o espaço geográfico da evocação do Dia de Camões.

A celebração oficial do Dia de Portugal em 2018 começa a meio do Atlântico, numa ilha dos Açores. Depois, os fusos horários permitem que o Chefe do Estado continue as comemorações na costa leste dos EUA e termine na Califórnia, tendo os açorianos como elemento unificador dessa maratona. Esta ideia foi expressa pelo próprio Marcelo Rebelo de Sousa na recente visita oficial à região autónoma dos Açores (ver caixa), ao anunciar que "para o ano vamos ter uma grande festa porque o 10 de Junho vai ser nos Estados Unidos da América". Mais, precisou que iria "passar por vários sítios onde há comunidades açorianas que nunca mais acabam".

O programa não está definido e o Palácio de Belém indica que só em janeiro haverá uma primeira reunião para planificar aquela maratona. Esta será a 42.ª edição oficial do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, iniciadas em 1977 - e em que Ponta Delgada (São Miguel, em 1989) e Angra do Heroísmo (ilha Terceira, em 2003) foram as cidades açorianas já escolhidas para acolher as celebrações oficiais do 10 de Junho.

Note-se que essas cerimónias oficiais tiveram o mesmo formato até ao último ano do mandato presidencial de Cavaco Silva. Só com Marcelo Rebelo de Sousa, em 2016, é que as comemorações se viram para as comunidades, sendo escolhidas as cidades de Lisboa e Paris como sedes do evento. Nessa altura, a intenção presidencial apontava para um modelo que alternaria a realização do 10 de Junho entre Portugal e uma cidade da diáspora.

Mas com a edição seguinte, numa variante do figurino anterior e repartida entre as cidades do Porto, Rio de Janeiro e São Paulo (no Brasil), veio a confirmação: o 10 de Junho seria celebrado todos os anos junto de uma comunidade portuguesa no estrangeiro. Escolhidos os EUA, onde cerca de 70% dos quase 1,4 milhões de portugueses e lusodescendentes que ali residem (dados de 2015) são de origem açoriana, que locais acolherão o Presidente da República e o primeiro-ministro? Na costa leste sobressaem comunidades como as de Boston e Fall River (Massachusetts), East Providence (Rhode Island), Nova Iorque e Newark (Nova Jérsia). Mas é na Califórnia que reside o maior número de portugueses e lusodescendentes (cerca de 349 mil). Elmano Costa, professor na Universidade Estadual daquele Estado (em Turlock, no condado de Stanislaus), diz ao DN ser "difícil que uma visita de um dia permita ao Presidente da República visitar todas as zonas de concentração lusa" num território que corresponde à distância entre Lisboa e Paris. Mas deixa uma sugestão, relacionada com a integração dos portugueses na política americana e transmitida à cônsul-geral de Portugal em São Francisco: "Visitar o centro político", em Sacramento.

"As causas que temos como comunidade [e] são as mais importantes" dizem respeito à política, realça Elmano Costa. A Califórnia é, aliás, o único estado onde há luso-americanos eleitos para o Congresso. "Somos uma comunidade que veio para ficar e que está bem aculturada", pelo que a ida de Marcelo à capital estadual - onde teria lugar "o banquete comunitário" - permitiria ter a presença de políticos do estado e do governo federal. "Neste tipo de encontro podíamos propor assuntos que são importantes para a nossa comunidade", pelo que o ativista cívico formula um desejo: "Esperamos que a visita preencha a expectativa [do Presidente], mas esperamos também que ele se deixe ser guiado um pouco para preencher as nossas."

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João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.