CDS. Primeira junta no Alentejo com tio a vencer o sobrinho

No concelho de Elvas, onde o PS é hegemónico, o CDS conquistou a sua primeira junta de freguesia no Alentejo. Um combate em família, contra um sobrinho socialista

Jorge Madeira sabe no que acabou de se meter e está preparado para ser autarca para todo o serviço. Tanto pega na tesoura para cortar os rebentos das laranjeiras, como se põe ao volante do trator para transportar o lixo. Quando for preciso levar idosos às consultas também podem contar com ele. "Foi para isto que fui eleito. Se não há dinheiro para quase nada, temos que ser nós a fazer de tudo", justifica o novo presidente da União de Freguesias de Barbacena e Vila Fernando, no concelho de Elvas, concelho onde o PS é hegemónico há 24 anos.

Mas este operador de máquinas fez história nas eleições de 1 de outubro ao conquistar a primeira junta no Alentejo para o CDS-PP, desde abril de 1974. Ainda por cima, numa freguesia sempre gerida pela esquerda que partilhou o poder entre CDU e PS.

À segunda tentativa

Independente, de 50 anos, Jorge Madeira derrotou o sobrinho, candidato do PS e ex-presidente da junta, conquistando mesmo a maioria absoluta para os centristas, à boleia de escassos dez votos de diferença. Quatro anos antes, já Jorge tinha concorrido, também pelo CDS, elegendo dois representantes, mas abrindo uma janela de esperança para o que agora acabou por acontecer.

Atribui a vitória à equipa que conseguiu reunir à sua volta, pondo o efeito da líder Assunção Cristas de parte. "Não teve nenhuma influência. Nestas terras os eleitores votam nas pessoas e não nos partidos", diz, acreditando antes que foi a vida inteira ligada à aldeia que lhe valeu o crédito do povo nas urnas.

"Aqui ficámos esquecidos"

"Só saí daqui durante os 15 meses em que estive na tropa, em Estremoz, e nas duas semanas por ano que passo férias no Algarve", refere o autarca, que conhece todos os habitantes da freguesia "pelos nomes e pelas alcunhas". Insiste que na política à moda da província é o que mais conta, mas também não perde de vista a alegada "saturação" do eleitorado face ao marasmo em que mergulharam Barbacena e Vila Fernando. Há 30 anos "enchiam" dois autocarros de alunos em direção às escolas de Elvas, enquanto hoje uma carinha de nove lugares é suficiente para transportar os jovens.

"Houve desenvolvimento nas freguesias de Vila Boim, Terrugem, Santa Eulália e nas freguesias urbanas. Aqui ficámos esquecidos", lamenta, ressalvando que apesar da população ser pequena - já não chega aos mil habitantes depois de ter ultrapassado os 3 mil, só Barbacena - deveria "ter tantos direitos como os outros", insiste, revelando que durante a campanha "nem foi preciso" vincar este dado, "porque as pessoas sabiam disso e quiseram mudar. Depois, o meu sobrinho não andava aí a arranjar árvores como nós fazemos."

Cercado pela esquerda

E como pretende governar um território dominado pela esquerda? Jorge Madeira acredita que "não será dificil", fazendo fé que o presidente da câmara de Elvas, o socialista Nuno Mocinha, irá pôr de lado a cor política e atender às necessidades da população. "E são muitas", diz, alertando que as receitas diretas provêm apenas do cemitério. "Ou quando se vende algum terreno ou do trabalho nos funerais", diz, lamentando o avolumar de população envelhecida que se vai sentando ao sol pelos bancos da aldeia, perante a quase ausência de crianças e jovens.

"Hoje não há aqui lugar para eles e acabam por sair à procura de trabalho", lamenta, acreditando que o património histórico da terra ainda poderá render algum futuro a estas paragens. Orgulha-se por Barbacena ter a primeria Casa do Povo do país, que foi inaugurada por António Oliveria Salazar, mas também o castelos, o pelourinho ou a ponte romana como argumentos para mudar a face olhando ao turismo.

Dois "dumpers" avariados

Mas há trabalho para fazer antes dessa aposta. Jorge Madeira dá prioridade às obras de manutenção do telhado da capela do cemitério, para evitar que chova lá dentro e danifique irremediavelmente a abóboda "que já ninguém faz", acrescenta, ambicionando ainda poder vir a instalar canalizações para abastecer as fontes sem precisar de bombar, evitando o pagamento de água à empresa distribuidora.

Também a ampliação do lar está em carteira para responder a tanta procura. Ainda assim, é preciso garantir viaturas, numa altura em que a junta é dona de apenas um velho trator com reboque, que pertencia ao Centro Educativo de Vila Fernando e que já não pega à primeira. "Tínhamos um outro automóvel que sofreu um acidente, uma carrinha que a câmara levou antes das eleições e os dois dumpers que já não trabalham", enumera, concluindo com um lacónico "estamos a começar mal, não é?"

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