Cavaco realça "a discrição e reserva" na relação que manteve com o Governo

Ex-presidente da República esteve a apresentar o seu novo livro na Alfândega do Porto. E fez questão de dizer que se recusou sempre "a fazer espetáculo"

O antigo Presidente da República Cavaco Silva sublinhou hoje que durante os seus mandatos em Belém impôs a si próprio "discrição e reserva" na relação com os membros do Governo, recusando-se sempre "a fazer espetáculo".

Na apresentação do livro "Quinta-feira e outros dias", obra que reúne as memórias sobre mandatos enquanto chefe de Estado, Cavaco Silva considerou que se dispensasse "a discrição e a reserva na interação com os membros do Governo", bem como "o estudo cuidado dos problemas com que era confrontado", a sua magistratura de influência "seria seriamente prejudicada".

"O conhecimento público das posições do Presidente da República discordantes das do Governo tornar-se-ia arma de arremesso da luta entre os partidos políticos. Daí que recusasse fazer espetáculo do relacionamento do Presidente com o Governo", disse Aníbal Cavaco Silva.

O antigo Presidente da República referiu que "só quando o diálogo reservado se revelava infrutífero e o assunto era suficientemente relevante" é que "trazia as suas discordâncias com o Governo ao discurso público".

Cavaco Silva revelou que à discrição e reserva teve de juntar uma terceira condição: "um bom conhecimento dos temas em debate".

E nesse sentido, disse que se discordasse de uma medida ou de uma política do executivo, tinha de preparar "uma argumentação sólida", o que lhe exigia "em muitos casos" um "esforço de estudo aturado".

"Em matéria de informação e de análise, o Governo tem normalmente vantagem em relação ao Presidente da República porque tem ministérios e serviços bem equipados para o apoiarem. O Presidente da República, para sua análise, dependia, em muitos casos, da informação que o Governo aceitasse disponibilizar", descreveu.

Num discurso marcado por considerações sobre como levou a cabo os seus mandatos, Cavaco Silva reafirmou que o livro "Quinta-feira e outros dias" é "uma prestação de contas aos portugueses", como tinha referido na primeira apresentação da obra em Lisboa, acrescentando como objetivo deste lançamento a "expressão pública de agradecimento" à sua família e colaboradores.

Já no que se refere a temas e dossiers que, do seu ponto de vista, foram influenciados pelas suas orientações, enumerou o escrutínio da legislação produzida pelo Governo, a escolha do Procurador-Geral da República, as Forças Armadas, a localização do novo aeroporto de Lisboa, bem como a reforma das Universidades.

Com apresentação a cargo do seu ex-ministro do Planeamento Luís Valente de Oliveira, a sessão decorreu na Alfândega do Porto, cerca de duas semanas depois da primeira apresentação que decorreu no Centro Cultural de Belém em Lisboa, local onde anunciou as suas duas candidaturas presidenciais e onde festejou as vitórias.

Quanto à escolha da Alfândega do Porto para esta nova apresentação, Cavaco Silva revelou que este é um edifício "simbólico" na sua vida política por ali ter apresentado ao país as linhas de orientação do que seriam as suas magistraturas se vencesse, como veio a acontecer, nas presidenciais de 2006.

Na sessão desta tarde foi adiantado pela editora responsável pelo lançamento de "Quinta-feira e outros dias" que este livro é atualmente a obra mais vendida em Portugal e que será feita uma segunda edição.

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