Cavaco emocionado porque "agora acabou mesmo"

Ex-presidente foi condecorado por Marcelo e não disfarçou o turbilhão que estava a viver. Agora é esperar pelas suas memórias

Não se pode dizer que não tenha sido uma saída de cena à Cavaco Silva: curta, contida e discreta. Contrastante, portanto, com o estilo do seu sucessor. Mas foi, por certo, um adeus de um homem desgastado por 36 anos de política e, sobretudo, emocionado, um lado que o até ontem presidente da República evitou ou não conseguiu evidenciar durante dez anos em Belém.

No Palácio Nacional da Ajuda, o anterior chefe do Estado foi condecorado por Marcelo Rebelo de Sousa com o mais elevado grau das ordens honoríficas, o Grande Colar da Ordem da Liberdade, e não disfarçou o tsunami de emoções que o invadiu. E que contagiou, a espaços, parte do seu antigo staff. Um assistente de fotografia, por exemplo, chegou mesmo a chorar no ato público que marcou o "fim de ciclo" - as palavras são do próprio - de Cavaco.

Após o Presidente lhe ter colocado o colar ao pescoço, Cavaco Silva apertou prolongada e intensamente a mão ao novo inquilino do Palácio de Belém. Quase como quem agradece a distinção e as palavras que Marcelo tem vindo a dirigir-lhe.

Lá fora, depois da maratona de cumprimentos a familiares, altas individualidades do Estado (como o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, o primeiro-ministro, António Costa, o presidente do Supremo Tribunal de Justiça, António Henriques Gaspar, o presidente do Tribunal Constitucional, Joaquim Sousa Ribeiro ou o ex-presidente Ramalho Eanes) e demais convidados (em que se incluíam Paulo Portas, Assunção Cristas, Manuela Ferreira Leite, Leonor Beleza ou David Justino), foi breve nas respostas: "Só posso agradecer a generosidade do novo Presidente da República. As condecorações aceitam-se, não se discutem. E até há quem diga que não se agradecem."

No entanto, a comoção era notória. E acentuou-se quando após a foto com a família (mulher, filhos e netos) que selou a cerimónia na Sala dos Embaixadores se dirigiu informalmente aos jornalistas para se despedir. A frase, de quem sinaliza que não vai andar por aí, não poderia ser mais cristalina: "Agora acabou mesmo."

Daqui para a frente, Cavaco vai resguardar-se, estudar, revisitar as suas memórias e preparar a autobiografia que já prometeu. Entre a Travessa do Possolo, onde continuará a residir, e o novo gabinete no Convento do Sacramento, em Alcântara. Sobre o país, já sinalizou que só se pronunciará em sede própria, isto é, no Conselho de Estado - onde, ao abrigo da Constituição, passará a ter assento. No imediato, quer somente "descansar". E mais não adianta.

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É procurador no Tribunal de Cascais há 25 anos. Escolheu sempre a área de família e menores. Hoje ainda se choca com o facto de ser uma das áreas da sociedade em que não se investe muito, quer em meios quer em estratégia. Por isso, defende que ainda há situações em que o Estado deveria intervir, outras que deveriam mudar. Tudo pelo superior interesse da criança.