Ex-secretário de Estado da Saúde podia ter-se demitido mais cedo

Manuel Delgado pediu a demissão na terça-feira após ter dado entrevista à TVI sobre a sua ligação à Raríssimas

O líder socialista, Carlos César, afirmou que o ex-secretário de Estado da Saúde Manuel Delgado podia ter-se demitido "24 horas antes", no âmbito do caso Raríssimas, numa entrevista hoje publicada.

"Se encontrou razões para se demitir 24 horas depois, certamente teriam sido as mesmas razões que teria encontrado 24 antes", considerou na entrevista ao jornal Público e à Rádio Renascença, quando questionado sobre se considerava que Manuel Delgado devia ter apresentado a demissão logo quando o caso surgiu, no sábado, em vez de aguardar pela divulgação de novas informações.

Na sequência de uma reportagem emitida pela TVI no fim de semana, na qual se denunciavam práticas de gestão danosa da instituição particular de solidariedade social (IPSS) Raríssimas, e que envolviam o seu nome, Manuel Delgado deu na terça-feira uma entrevista ao canal em que disse ter posto o lugar à disposição do ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, que, segundo o ex-secretário de Estado, lhe respondeu que não via "razões objetivas" para o retirar de funções.

Entretanto, esta quarta-feira, o ex-governante esclareceu em comunicado que apresentou a demissão do cargo devido a uma "grave violação da privacidade" da sua vida pessoal.

Na entrevista ao Público e à Renascença, o presidente do Partido Socialista e líder da bancada parlamentar do PS na Assembleia da República minimizou as várias remodelações provocadas por secretários de Estado e disse que casos como estes "são periféricos" à governação.

"Creio que estamos a tomar uma atenção excessiva a problemas que, pela sua natureza, são periféricos da atividade governativa", defendeu Carlos César, quando indagado se há um problema de escolhas dos membros do executivo.

Sobre o desvio da atenção do essencial que este tipo de casos provocam, o dirigente socialista afirmou que "as pessoas cometem erros, têm omissões, ou tomam decisões que são incorretas ou não têm os resultados esperados" e que "isso acontece com os governantes, como acontece com qualquer outra pessoa".

"Há uma atenção mediática para aspetos que são laterais à atividade governativa. Se excetuarmos as questões infelizes envolvendo os incêndios e as suas vítimas, todos os outros casos são de gestão corrente que tiveram menor sucesso, ou que tiveram explicações indevidas, a questão do Infarmed ou mesmo esta. Não tipificam nada de essencial", argumentou.

Carlos César apontou, no entanto, que "uma das deficiências do Estado português é na área inspetiva e fiscalizadora - e não só no que toca à rede de solidariedade social".

"Esta situação que aconteceu com a Raríssimas não será caso único, terá outros contornos noutras instituições, mas é importante que esta atividade inspetiva seja mais abrangente de modo a que estejamos mais descansados", disse.

"As IPSS devem ser predominantemente dirigidas por pessoas que nelas se envolvam numa perspetiva de voluntariado, mas há instituições que implicam afetação permanente dos seus dirigentes e uma remuneração", acrescentou.

Questionado sobre se seria conveniente uma profissionalização, César respondeu que "o fundamental é que haja uma disciplina quanto às remunerações que são aplicáveis nesses casos, que haja bom-senso e proporcionalidade", observando que "isso manifestamente não foi considerado neste caso".

Carlos César defendeu os titulares das pastas da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, e da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, como "ministros com grande peso no Governo e com grande obra feita", embora reconhecendo que "no discurso político ou de comunicação, numa ou noutra circunstância, o façam com menor qualidade".

Para o líder parlamentar do PS, "a coesão dentro do Governo é muito grande" e "as remodelações não têm uma época do ano", nem "se fazem por pacote, nem com contratos a prazo".

"Evidentemente que gostaríamos que o secretário de Estado x ou y não tivessem incidentes que manchassem este percurso, mas no essencial este Governo tem um balanço muito positivo. Aliás, os estudos de opinião dão conta deste acréscimo de confiança dos portugueses", sublinhou.

Carlos César comentou ainda as declarações da coordenadora do Bloco de Esquerda (BE), Catarina Martins, que numa entrevista ao jornal Expresso disse que que "o PS é permeável aos grandes interesses económicos".

"Muito estranharia que o BE fosse aliado ou apoiante de um Governo de lóbis", atirou César.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Rosália Amorim

"Sem emoção não há uma boa relação"

A frase calorosa é do primeiro-ministro António Costa, na visita oficial a Angola. Foi recebido com pompa e circunstância, por oito ministros e pelo governador do banco central e com honras de parada militar. Em África a simbologia desta grande receção foi marcante e é verdadeiramente importante. Angola demonstrou, para dentro e para fora, que Portugal continua a ser um parceiro importante. Ontem, o encontro previsto com João Lourenço foi igualmente simbólico e relevante para o futuro desta aliança estratégica.

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.