Bicicletas ganham lugar nos transportes públicos e na cidade

Transtejo recua e bicicletas voltam a cruzar o rio de barco. Mas os ciclistas ainda pedem mais condições nas vias urbanas.

Inês Pascoal ainda não tinha decidido como iria contornar a situação, caso a Transtejo mantivesse a proibição de transportar bicicletas entre Cacilhas e o Cais do Sodré. A solução do comboio ou autocarro não agradava a esta moradora do Feijó (Almada) e pedalar até à Trafaria, onde os velocípedes continuavam a ter lugar a bordo, poderia demorar cerca de uma hora. "A bicicleta é o meu meio de transporte desde março, quando comecei a trabalhar, mas tenho de atravessar o rio", dizia ontem ao DN, antes de saber que a Transtejo tinha recuado na decisão e que na segunda--feira vai poder continuar a entrar com a "bici" no barco.

A empresa Transportes de Lisboa admitia ontem que através do acordo da Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos (DGRM) e de-vido ao "transtorno causado às dezenas de passageiros que, diariamente, transportam consigo, na frota Transtejo, as suas bicicletas", decidiu manter temporariamente o transporte de bicicletas nas condições atuais, pelo menos "até solução formal a definir com a DGRM".

O recuo da Transtejo foi anunciado 24 horas depois de a empresa ter desencadeado uma onda de contestação entre os cada vez mais ciclistas do país, que em 2014 fizeram a venda de bicicletas aumentar 30%, apressando-se a marcar uma manifestação no Terreiro do Paço, em frente ao Ministério da Agricultura e do Mar, para esta sexta-feira. A concentração iria ser desconvocada até final do dia, mas, segundo o presidente da Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicletas (FPCUB), José Manuel Caetano, só depois dos Transportes de Lisboa "assumirem por escrito" que deixavam cair a interdição nas três das cinco ligações fluviais no rio Tejo.

A empresa tinha comunicado na quarta-feira que iria interditar o transporte de bicicletas por passageiros das embarcações que ligam Lisboa-Cacilhas, Lisboa-Montijo e Lisboa-Seixal para cumprir as regras. Seria a partir de segunda-feira e por um prazo indeterminado, perante a falta de certificação de normas de segurança, até obter a homologação para os barcos voltarem a transportar velocípedes.

A Transtejo justificava a restrição com base na recomendação que recebeu há um ano (15 de setembro de 2014) da DGRM, para que fossem delimitados espaços nos navios destinados às bicicletas, cumprindo, assim, regras básicas de segurança. Contactado pelo DN, o Ministério da Agricultura e do Mar ressalvou que não se tratava de nenhuma proibição.

Com esta vitória, a bicicleta mantém "maioria absoluta" nos transportes públicos. Entre as sete empresas de Lisboa e do Porto, apenas uma proíbe os ciclistas de transportarem a bicicleta, embora existam regras ao nível dos horários e da lotação, segundo um estudo da Deco. Em Lisboa, os velocípedes têm lugar na Carris, CP, Fertagus, Metro e Transtejo, todos gratuitos, enquanto no Porto estão autorizados no Metro, mas encontram portas fechadas no Serviço de Transportes Coletivos do Porto.

Com o recuo da Transtejo, Inês Pascoal pode continuar a adotar a solução que até aqui a tem conduzido entre a casa e o emprego, em Alcântara. "Demoro dez minutos entre o Cais do Sodré e o trabalho, o mesmo que se demora de carro. Poupo é muito dinheiro e o ambiente. Até posso guardar a bicicleta no edifício", revela. O transporte mantém nos dias de chuva. "Uso impermeável", conta a ciclista, que aprendeu a pedalar há três anos, já depois de ter carta de condução automóvel. Quanto à segurança? "Sinto-me relativamente bem na estrada. Os automobilistas já nos levam mais a sério", sustenta.

Já Miguel Silva, proprietário da loja Build My Bike (no Cais do Sodré), assume que Lisboa disponibiliza "poucas condições" aos ciclistas. "Faltam infraestruturas para a boa utilização de bicicletas", dando o exemplo das ciclovias. Há um total de 1784 quilómetros entre 297 ciclovias, ecovias, ecopistas e percursos cicloturísticos em Portugal, mas Lisboa precisava de mais, na opinião do empresário. "Temos meia dúzia só para quem quer passear, mas que não servem para quem precisa de fazer percursos maiores, entre a casa e o trabalho", sublinha, garantindo que poucos ciclistas utilizam as ciclovias.

"Tenho clientes que vêm de Algés pela estrada, porque a ciclovia é em S e há sempre gente a pé a caminhar por lá", diz. O DN tentou sem sucesso uma reação da Câmara de Lisboa, tendo a autarquia criado o site Lisboa Ciclável, com informações. Ainda assim, as vendas dispararam, assume o empresário, sobretudo entre as bicicletas mais bem equipadas, que passaram a ter mais saída do que os veículos baratos. "As pessoas estão sem dinheiro para transportes públicos e a bicicleta é a melhor alternativa", refere, avançando que nos últimos tempos tem sido procurado pelos donos de velocípedes antigos de montanha, que pedem a adaptação à bicicleta de utilização urbana.

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