BE pede ao Governo ação pública e política para mostrar que Altice está a quebrar lei na PT

"É essencial que o Governo tenha uma ação determinada", disse Catarina Martins

A coordenadora do BE apelou esta sexta-feira ao Governo para que tenha uma "ação determinada, pública e política" para clarificar que a Altice está a incumprir a lei com os trabalhadores da PT e defendeu a punição exemplar da empresa.

"Para que a Altice não possa dizer que não sabe o que está a fazer e para que haja uma punição exemplar neste caso, que possa dissuadir este procedimento, é essencial que o Governo tenha uma ação determinada, pública, política de clarificar que a lei está a ser quebrada", disse a coordenadora nacional do BE, Catarina Martins, numa conferência de imprensa hoje de manhã na sede do partido, em Lisboa.

De acordo com a líder bloquista, o único argumento que a Altice conhece é o dinheiro e, por isso, é necessário que compreenda que esta ação "deve ter uma punição exemplar no nosso país", referindo-se ao "maior processo de assédio moral aos trabalhadores e de despedimento ilegal" na PT.

Defendendo que "o Governo poderia fazer mais", uma vez que a transferência ilegal de centenas de trabalhadores de uma empresa para outra "não é um problema administrativo, mas político", Catarina Martins começou por deixar um apelo ao parlamento.

"O primeiro apelo que fazemos é que haja um consenso no parlamento que permita que nos três primeiros plenários em setembro a questão da alteração do código de trabalho para acabar com este abuso em qualquer empresa seja agendada e possa ser votada e, assim, possamos ter uma ação em tempo", referiu.

Questionada sobre se conta ter o apoio do PS na aprovação deste diploma, Catarina Martins foi perentória: "julgo que ninguém compreenderia se não o tivéssemos"

"Todos os que compreendem que Portugal não é uma República das bananas e que a Altice ou qualquer outro fundo abutre não pode entrar aqui a fazer o que bem entende, percebem a necessidade deste processo ser célere, ser exemplar e das práticas abusivas e ilegais serem travadas", reiterou.

Na opinião da coordenadora do BE, "a Altice não pode fazer de conta que não sabe o que está a fazer, da mesma forma que o Governo não pode fazer de conta que não sabe o que a Altice está a fazer".

"A Altice está a ir contra a lei e uma ação determinada do Governo dizendo publicamente que esta é uma ação ilegal será muito importante para se aferir do dolo da ação da Altice", explicou.

Assim, acrescentou, deixará de ser permitido à empresa que "venha dizer em algum momento deste processo que não sabia que era ilegal o que está a fazer" e será possível "ter a certeza que as penalizações na lei portuguesa são suficientemente duras para a Altice recuar".

"O dolo da ação da Altice é, tendo consciência de que está a fazer algo que é ilegal, continuar a fazê-lo", concretizou.

Cento e dezoito trabalhadores da PT Portugal passaram a partir de 22 de julho a laborar em empresas detidas pelo grupo Altice e Visabeira, no âmbito de um processo que levou a uma greve na operadora de telecomunicações.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.