Bastonário acusa Governo de formar médicos "para exportar"

José Manuel Silva contesta os 1517 lugares em Medicina e avisa candidatos para esperarem "dificuldades". Já o bastonário dos Engenheiros considera que ajuste na área já está feito

O bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, acusou o Ministério do Ensino Superior de "não ouvir as razões da Ordem nem informar-se dos estudos que existem sobre demografia médica" na decisão de manter as 1517 vagas iniciais de Medicina na 1.ª fase de acesso ao Ensino Superior, cujas candidaturas arrancam hoje.

Ao DN, José Manuel Silva defendeu que Medicina "vai continuar a ser o único curso que tem um numerus clausus definido politicamente e não tecnicamente", com consequências para os futuros médicos e para os próprios doentes.

"Os jovens que entrarem em Medicina já sabem que parte deles não conseguirá fazer a especialidade em Portugal e que muitos deles, com ou sem especialidade, terão de emigrar", avisou, acrescentando: "Além da despesa de estarmos a formar médicos especialistas para exportar a custo zero -estão a emigrar mais de 400 médicos por ano - são as questões éticas de estarem a treinar com os nossos doentes para depois irem tratar, já treinados, os doentes estrangeiros."

O bastonário deixou mesmo um aviso aos candidatos ao ensino superior que estão a pensar concorrer a este curso apenas porque podem fazê-lo - por terem médias elevadas - ou porque "os pais" lhes aconselham essa opção: "Os jovens que escolherem Medicina devem fazê-lo por vocação. Se estão à espera de um emprego bem remunerado e seguro, esse tempo acabou", disse. "Vão entrar numa profissão extremamente exigente, mal remunerada para as funções e que não tem emprego certo em Portugal", alertou.

José Manuel Silva admitiu que "faltam médicos no Serviço Nacional de Saúde". Mas defendeu que não é a formar muitos profissionais que se resolve: "Faltam porque não são contratados, porque as condições que lhes oferecem, para trabalhar num contexto extremamente difícil, não são minimamente atrativas. E é por isso que os médicos emigram."

Já o bastonário da Ordem dos Engenheiros, Carlos Mineiro Aires, defendeu ao DN que em relação aos cursos desta área, faz sentido "a manutenção das vagas onde estão atualmente", considerando que o essencial do ajustamento do setor já foi concluído.

Este ano , algumas universidades e politécnicos voltaram a reduzir ligeiramente a sua oferta, nomeadamente na Engenharia Civil. Mas a grande área da Engenharia e Técnicas Afins continua a dominar nas ofertas, com 9083 vagas a concurso (17,7% do total).

Para Carlos Mineiro Aires, não vale a pena ir mais além. "Num passado muito recente, chegaram a existir em Portugal 593 cursos de engenharia, com as mais diversas designações", lembrou. "Na verdade, houve um ajustamento natural motivado pela procura. E também pela qualidade da oferta nalgumas áreas, temos de ser francos".

Mas agora é chegada a altura de passar uma outra mensagem: "Não podemos deixar de produzir engenheiros, que nos vão fazer falta em breve", considerou. "Desinvestir ou limitar a formação na área das engenharias é liquidar o futuro do país", avisou, considerando que "qualquer produção transacionável" está "intrinsecamente ligada à engenharia e aos engenheiros".

Não apenas de engenheiros civis: "Há empresas de outras áreas, sem ser a Civil, que procuram engenheiros e não os encontram", avisou. Mas também esta, considerou, já estará a superar a crise na construção civil, que afastou muitos alunos. "É incompreensível que se afastem da Engenharia Civil e vão par ao curso em que é mais difícil arranjarem emprego, que é a arquitetura", avisou.

O DN tentou, sem sucesso, falar com os bastonários das ordens dos arquitetos e dos advogados.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.