Passos Coelho ouve hoje órgãos do PSD sobre piores resultados de sempre

O Conselho Nacional do PSD analisa hoje os resultados das autárquicas, os piores de sempre do partido em número de câmaras, reunião antecedida pelas comissões permanente e política dos sociais-democratas.

A comissão permanente -- núcleo duro da direção -- reúne-se de manhã, a comissão política às 16:00 e o Conselho Nacional, órgão máximo entre Congressos, pelas 21:00, num hotel em Lisboa.

Passos Coelho reiterou no domingo que não se iria demitir na sequência de resultados de eleições locais, mas prometeu uma "reflexão ponderada" sobre se irá ou não recandidatar-se ao cargo nas diretas previstas para o início do próximo ano.

No final de uma reunião com o Presidente da República, na segunda-feira à tarde (na qual disse que o tema das autárquicas não foi abordado), Passos Coelho foi questionado sobre as conclusões dessa reflexão, mas considerou a questão "prematura em termos de resposta", apontando que só hoje será feita "uma avaliação com mais detalhe dos resultados das eleições autárquicas", nos órgãos de direção política do PSD e em Conselho Nacional.

"Só depois disso é que poderemos dizer alguma coisa do ponto de vista de uma mensagem nacional que possa ter relevância. E eu não vou, até lá, fazer especulação sobre qual vai ser a avaliação que faremos nos órgãos próprios", declarou.

Entre os conselheiros nacionais presentes na reunião estará o eurodeputado do PSD Paulo Rangel, que já disputou a liderança do partido com Pedro Passos Coelho. Segundo fonte do gabinete do eurodeputado, Paulo Rangel cancelou compromissos que tinha agendados em Estrasburgo para poder estar em Lisboa esta noite.

De acordo com os resultados finais divulgados pela secretaria-geral do Ministério da Administração Interna, o PSD vai liderar 98 câmaras (79 conquistadas sozinho, 19 em coligação), uma perda de oito autarquias em relação a 2013, que já tinha sido o pior resultado de sempre do partido em autárquicas. Há quatro anos, o PSD tinha conseguido a presidência de 86 câmaras sozinho e mais 20 em coligação, num total de 106.

Segundo a 'newsletter' do PSD divulgada na segunda-feira à tarde, o partido conseguiu pelo menos 727 mandatos, tendo conquistado 11 municípios ao PS e mantido a presidência de câmara em seis capitais de distrito e em Ponta Delgada. Quanto às presidências de junta de freguesia, o PSD obteve sozinho, ou em coligação, pelo menos 1.165.

Em número de votos, o PSD sozinho conseguiu cerca de 831 mil votos, menos três mil do que há quatro anos, apesar de ter havido menos abstenção. Somando as coligações lideradas pelos sociais-democratas, o PSD conquistou cerca de 737 mil votos, número da mesma ordem dos de 2013.

O Conselho Nacional de hoje apenas tem na agenda a análise dos resultados das eleições autárquicas, devendo realizar-se uma nova reunião deste órgão em novembro para marcar o calendário eleitoral, que deverá passar por diretas em final de janeiro/início de fevereiro e congresso um mês depois.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.