Assunção Cristas pegou num plano de Sócrates e tirou-lhe seis estações

Especialistas em mobilidade ouvidos pelo DN criticam iniciativa da líder do CDS e candidata à Câmara de Lisboa

O plano que Assunção Cristas anunciou para a expansão da rede do metropolitano de Lisboa "pega" basicamente num plano do tempo de José Sócrates, apresentado na véspera das legislativas de 2009 e ao qual a líder do CDS e candidata à câmara da capital retirou seis estações.

Basicamente, o plano de Sócrates tinha 28 novas estações, enquanto o de Cristas tem 22. A líder do CDS, que na quarta-feira surpreendeu o Parlamento fazendo o anúncio do seu novo plano, retirou ao mapa feito no tempo do ex-primeiro-ministro do PS estações no prolongamento da Reboleira (Atalaia, Amadora Centro e Hospital), outras três saindo de Odivelas para oeste (Odivelas Centro, Ramada e Bons Dias), outras duas também no prolongamento para norte da Linha Amarela, Codivel e Infantado e ainda duas a sul, já perto do Tejo, a da Infante Santo e a de São Bento. Em contrapartida, acrescenta quatro (Santo Amaro, Ajuda, Belém e Algés), numa linha paralela à da Linha de Cascais (CP). Saldo final: seis estações a menos.

Contas por alto apontam neste momento para uma média de cem milhões de euros por cada estação (e respetivo prolongamento da linha), pelo que o plano da líder do CDS custaria 2,2 mil milhões de euros. O modo de financiamento ainda não foi explicado pela candidata ao CDS à Câmara de Lisboa. Cristas dará explicações numa conferência de imprensa que convocará para a próxima sexta-feira.

Também para esse dia, a presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, Helena Roseta, do PS, convocou um debate específico sobre a expansão da rede do metropolitano de Lisboa, debate requerido pelo Bloco de Esquerda. Para o debate foram convidados representantes da administração da empresa, um membro da comissão de trabalhadores e ainda três especialistas em mobilidade urbana: Álvaro Costa, Santos Silva e Pompeu Santos.

Os dois últimos, ouvidos pelo DN, revelaram-se críticos do plano de Cristas, embora com argumentos diferentes. Pompeu Santos, mais duro, diz que no atual panorama orçamental português, ainda sujeito a fortes limitações, "é quase obsceno" estar-se a falar num plano de expansão da rede desta dimensão. "Não é apropriado, diria mesmo, é insultuoso", diz o especialista, salientando, por um lado, que há soluções alternativas bem mais em conta (como elétricos rápidos de superfície ou mais autocarros) e, por outro, que Portugal está muito mais bem colocado nos rankings internacionais da mobilidade do que nos do desenvolvimento - pelo que "não há de facto um problema grave" nesse aspeto.

Já Santos Silva elogia o plano a longo prazo por considerar "positiva" a ideia de uma planificação "que se sobreponha aos ciclos eleitorais". Além do mais, 70% da mobilidade faz-se ainda de automóvel e "é preciso fazer qualquer coisa". Contudo, vê um "erro grave" no mapa por prever a ligação das linhas Amarela e Verde (ver infografia), criando aí uma lógica "circular". Isso, afirma, tem o condão de provocar atrasos em cadeia, bastando para isso um problema num comboio: "Se um para, todos param." Além disso, tende a "carregar uma zona já muito carregada", a da linha que faz a Avenida da República, quando o necessário seriam soluções que "unificassem a procura" em vez de sobrecarregar num sítio aliviando outros.

Outro especialista em mobilidade, Nunes da Silva, que foi vereador de António Costa, expressou de forma igualmente negativa. No seu entender, a rede não deve estender-se para fora do concelho de Lisboa "enquanto não estiver densificada cá dentro".

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.