Associações contra parque de estacionamento

Cidadãos defenderam esta quinta-feira que projeto, ainda por aprovar, de construção de quatro pisos subterrâneos sob a praça lisboeta vai ameaçar jardim e reservatório do Aqueduto das Águas Livres e aumentar o volume de tráfego numa área atualmente já congestionada.

"É como um pôr um elefante numa loja de porcelanas. O impacte é desastroso." Foi assim que José Calisto, membro da Plataforma Contra o Parque Automóvel (PCPA), sintetizou a posição dos cinco grupos cívicos que, em conjunto, apelaram esta tarde à Direção-Geral do Património Cultural (DGPC) para que dê parecer negativo, vinculativo, à edificação de um parqueamento com 300 lugares e 12 metros de profundidade sob uma parcela da estrada da Praça do Príncipe Real e da orla do jardim homónimo.

A intenção não é nova e chegou a ser chumbada em 2001 pelo então Instituto Português do Património Arquitetónico (IPPAR), mas volta agora a causar polémica, depois de há cerca de seis semanas membros da PCPA terem testemunhado a realização de sondagens técnicas em três pontos diferentes em redor do espaço verde. O projeto passa pela construção de quatro pisos e de rampas de acesso e pela instalação de um elevador à superfície. Tudo, garantem as associações, a um metro das galerias do Aqueduto das Águas Livres, classificado como Monumento Nacional.

"Há muitos anos que queremos que seja candidato a Património Mundial da Humanidade da UNESCO e a construção do parque será um obstáculo", lembrou, em conferência de imprensa a antiga diretora do Museu da Água Margarida Ruas, após a realização de uma visita guiada ao Reservatório da Patriarcal, inaugurado em 1864. "É um monumento pago inteiramente pelo povo de Lisboa", frisou, antevendo "largas consequências" para a estrutura caso a obra se concretize.

A empreitada, defendeu Ana Luísa Soares, da Associação Portuguesa dos Jardins Históricos, vai também afetar as árvores do jardim, sete das quais classificadas. Em causa, está o facto de as suas raízes se prolongarem por uma área bem mais vasta que o seu tronco e ramos. "Vão pôr uma cofragem de betão à volta de um conjunto que tem um sistema de drenagem próprio", acrescentou a arquiteta paisagista Margarida Cancela d'Abreu. "Em qualquer cidade da Europa, [este jardim] era considerado um museu", sustentou.

A possibilidade de fruição do espaço foi, de resto, uma das ideias transversais a todas as intervenções, com Margarida Ruas a sugerir como alternativa à construção do parque automóvel a reposição do elétrico 24 - que funcionou entre o Carmo e Campolide, via Príncipe Real, Rato e Amoreiras - e a criação, pelos comerciantes da zona, de um serviço de autocarros local.

"A cidade é para se percorrer a pé", argumentou o especialista em mobilidade Carlos Gaivoto, para quem a proposta em cima da mesa "é um exemplo muito concreto do que não se deve fazer". "Este tipo de solução não resolve, (...) ajuda o trânsito", considerou José Calisto, sem esconder, aos jornalistas, que a oposição ao projeto expressa pelo presidente da câmara municipal, na reunião da assembleia municipal de 17 de junho, não o tranquilizou.

Na ocasião, António Costa defendeu que "é negativo que exista um parque rotativo naquela zona da cidade" e afirmou que as perfurações que ali decorriam eram apenas de avaliação. "É demasiado vago", sublinhou o porta-voz da PCPA, reconhecendo, porém, que "é verdade que também não há nada concreto para apreciar".

Neste momento, o processo está a ser avaliado pela DGPC, depois de o promotor ter entregue o estudo hidrogeológico solicitado pela entidade pública. Será ainda necessário um parecer do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas. Ambos são vinculativos e, se vierem a ser favoráveis, será a autarquia a tomar uma decisão final.

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