Assis: É "uma deturpação da realidade" dizer que Passos é neoliberal

O antigo líder parlamentar afirma que a "ameaça neoliberal" atribuída pela esquerda (PS incluído) ao PSD foi um "completo absurdo"

Seis meses depois, em tudo o que esta "geringonça" fez até agora há alguma coisa que para si seja absolutamente violentador da identidade doutrinária do PS?

Não. No que fez não creio que haja nada violentador da identidade doutrinária do PS - nem eu estava à espera que isso acontecesse. Nem tenho a expectativa que isso venha a acontecer nos próximos tempos. Nunca tive esse receio. O meu receio era outro: que esta solução governativa fosse cerceadora da capacidade de ação reformadora a que um partido como o PS se deve sentir obrigado. Nesse sentido, não acho que tenham sido promovidas reformas significativas nestes primeiros seis meses nem tenho expectativa que elas venham a ser concretizadas. Esta solução governativa, pela sua própria natureza, é atrofiadora da capacidade transformadora e reformista que o PS naturalmente tenderia a ter, se não estivesse dependente desta fórmula.

Hoje é o PS que está na mão dos partidos à sua esquerda ou será antes o BE e o PCP que estão impedidos de romper com o PS para evitar o regresso às políticas de direita?

No essencial, estão nas mãos uns dos outros. É verdade que o PCP e o BE estão condicionados pelo risco de serem submetidos a uma avaliação crítica de uma parte do eleitorado se porventura romperem, sem aparente motivo, com o PS. Mas também é verdade que o PS está exatamente na mesma situação. Isto significa que isto é uma situação que conduz a uma certa inércia política. Dir-me-á que isso é próprio das coligações. Digo que é sobretudo próprio das coligações contranatura, como me parece ser declaradamente esta coligação. As divergências são muito grandes em questões são muitos importantes. Em tudo o que é essencial há diferenças profundas a separar o PS da extrema-esquerda: nas questões do modelo económico, de organização política e social, em tudo o que tem a ver com a Europa, profundíssimas diferenças que aliás se manifestam claramente por exemplo nas votações no Parlamento Europeu. Não estamos a falar de questões menores ou laterais. Estamos a falar do centro do debate político e do centro da decisão política.

Há uma frase chave na moção de António Costa ao congresso do PS: "O adversário principal da esquerda socialista, social-democrática e progressista não são as forças à sua esquerda, é o forte desvio neoliberal do centro-direita conservador e a emergência da direita populista, nacionalista, autoritária e xenófoba." Para si, há alguma coisa de errado nesta frase?

Há tudo. É de facto uma frase chave da moção e reflete uma reorientação política, estratégica e não sei até que ponto programática do PS e instala uma situação de relativa esquizofrenia, na medida em que no espaço europeu nos entendemos preferencialmente com o centro-direita e depois aqui em Portugal queremos fazer do centro-direita o adversário absoluto e fazer da extrema-esquerda o nosso parceiro permanente.

O centro-direita com que acha que o PS poderia e deveria entender e privilegiar uma relação, esse centro-direita existe em Portugal, existe no PPE?

Existe, claro, e mal estaríamos se não existisse porque se não estaríamos num quadro de guerra civil ou pré guerra civil na Europa ou em Portugal. Um dos erros desse frase da moção - e tem vários - é reduzir a direita ao neoliberalismo e à direita populista, nacionalista, xenófoba e racista. Essa extrema-direita existe e hoje é um perigo. Não existe felizmente ainda em Portugal, espero que não venha a existir mas tenho algum receio que isso possa vir a acontecer porque é um fenómeno que tem acontecido por essa Europa fora. Essa parte da direita não tem relações com a outra direita, não se pode fazer essa amálgama. Há uma parte do centro-direita europeu, que corresponde felizmente a uma maioria dentro da direita, que se tem batido energicamente contra a extrema-direita. Em segundo lugar, a outra direita democrática, que é democrática, não está toda ela dominada pelo neoliberalismo. Penso até que o neoliberalismo é claramente minoritário nesse espaço da direita. Tenho tanto confiança na identidade da esquerda democrática europeia que não tenho necessidade de estar a demonizar a própria direita democrática e liberal, para estabelecer uma diferenciação em relação a ela. Dizer que essa direita é toda neoliberal é um completo absurdo. Essa ameaça neoliberal foi muito muito exagerada.

Em Portugal, essa direita como é?

Em Portugal há uma direita complexa. Não acho que o PSD seja todo ele um partido constituído por pessoas com essa orientação neoliberal.

E Pedro Passos Coelho?

Não diria que Pedro Passos Coelho seja a expressão pura, e dura, de uma figura que desenvolva a sua atividade política segundo uma orientação estritamente neoliberal. Parece-me completamente errado, uma deturpação da realidade. Houve uma fase - e teve que ver com disputas internas no PSD - em que Passos Coelho apareceu com um projeto muito neoliberal, um projeto até de revisão da Constituição, ainda antes de ser líder do PSD. Mas as próprias circunstâncias de ter liderado o Governo levaram-no a perceber que o neoliberalismo puro e duro suscita uma grande resistência em múltiplos setores da sociedade portuguesa e é insuscetível de ser aplicado. Respondendo muito claramente à sua pergunta: é Passos Coelho um exemplo típico de um neoliberal na vida política portuguesa? Direi: não penso que seja.

Então acredita no título da moção de Passos no último congresso, "social-democracia, sempre"?

Se eu fosse a ele não teria feito. Porque também não acho que seja um social-democrata puro e duro. Tal como não acho que seja um neoliberal, também não acho que seja um social-democrata. O PSD não está em condições de representar esse espaço, esse facto é um espaço que o PS representa e ocupa praticamente desde a nossa fundação do nosso regime. Passos também não é obviamente um social-democrata. Entre ser um social-democrata puro e duro e ser um neoliberal puro e duro há muitas matizes e é nesse campo se situa.

Olhando para as políticas do Governo, de todos os riscos que vê pela frente qual é o que o preocupa mais?

A grande questão é a do investimento. Precisamos de crescer economicamente. Não podemos continuar com um cenário de crescimento medíocre, que tem o efeito de nos afastar as médias europeias e de nos condenar assim a um estatuto de semi subalternidade económica.

O que é que o Governo não está a fazer e deveria fazer?

A natureza do Governo não concorre muito para que esta questão seja corretamente abordada...

Acredita honestamente que haja empresas estrangeiras que não veem para Portugal porque o Governo é apoiado pelos comunistas?

Não é isso que estou a dizer. As coisas não são assim tão simples. Li a moção global que António Costa apresentou aos militantes de uma ponta à outra e não vi nenhuma grande preocupação com essa questão do crescimento económico. Por exemplo, com a necessidade de criar condições para apoiar as empresas. Não há crescimento numa economia de mercado sem empresas que funcionem bem e consigam competir e que se consigam projetar nos mercados internacionais. Há pouca preocupação com isso. E acho que a natureza deste Governo leva mesmo a que mentalmente as prioridades sejam outras e estas estejam colocadas num segundo plano quando deveria ser a prioridade central. Quanto ao resto...também não digo que quando se fazem investimentos se não tenha em consideração as perspetivas de evolução de um país, porque se tem e obviamente que há soluções governativas que dão mais garantias do que outras. Mas seria demagógico dizer que pela circunstância deste Governo ser apoiado pelo PCP e pelo BE - dois partidos que notoriamente não gostam da economia de mercado ou não a valorizam e em relação aos quais há uma legítima suspeita de que têm uma atitude em relação ao investimento privado que não é propriamente a mais entusiástica - que isso signifique que as pessoas vão deixar de investir.

A número dois do PS, Ana Catarina Mendes, secretária-geral adjunta, defendeu recentemente que os órgãos do PS deveriam, a partir deste congresso, ter um terço de "pessoas normais" (a expressão é dela), ou seja, pessoas que não vivam da política (eleitos ou nomeados). Acha saudável ou vê nisto uma atitude populista anti-política?

Isso não vejo, desde logo pela pessoa que pronunciou essa declaração, a Ana Catarina Mendes, que é a antítese de uma populista. Julgo que a formulação das "pessoas normais" é infeliz mas a ideia é interessante e deve ser devidamente tratada. Verifica-se que nos órgãos nacionais dos partidos, as pessoas que os integram são quase exclusivamente pessoas com grande dedicação à política, ou porque eleitos ou porque são nomeados. Isso pode levar a uma menor ligação como muitos setores da vida portuguesa, que não estarão plenamente representados na vida política. Isso pode contribuir para um afastamento dos cidadãos. É uma ideia que deve ser devidamente tratada, não a rejeito de forma nenhuma, tem bastante interesse. Mas porventura a Ana Catarina Mendes estará a chamar a atenção para outro problema: haver um excesso de pessoas nomeadas em função apenas da fidelidade partidária. Há um excesso de nomeações políticas em Portugal. Quando se nomeia uma pessoa para um centro de emprego ou uma administração hospitalar e a razão é a fidelidade dessa pessoa a um determinado - aí está-se a ir longe demais, está-se a concorrer para uma maior desconfiança dos cidadãos em relação aos partidos. Essas pessoas que nunca foram eleitas para coisa nenhuma e fazem uma vida inteira de nomeações também não têm espírito crítico dentro dos partidos e tendem com demasiada rapidez a aproximarem-se de quem lidera, seja A ou B. Esta é uma área em que deveria um esforço para um consenso nacional: diminuir o perímetro dos lugares em que as pessoas são nomeadas porque se considera que a confiança política é fundamental.

Votou António Costa nas eleições diretas em que este, há uma semana, foi reeleito líder do PS?

Não votei no dr. António Costa nas diretas, não votei em ninguém, não participei. Seria uma grande hipocrisia fazer isso. Não participei neste processo eleitoral. Pura e simplesmente não votei.

Se pudesse votar na moção de António Costa, quando ela for a votos no congresso, o que votaria?

Se tivesse o direito a votar, votaria contra esta moção. Tenho uma profunda divergência. Perguntar-me-á então porque é que não apresentou a sua própria moção? Por uma razão muito simples: porque entendo que neste momento não há condições nenhumas para fazer um debate dessa natureza no interior do PS. Esta candidatura de António Costa à liderança do partido está associada a um determinado projeto, a uma determinada visão e a uma determinada forma de atuação, eu não votei nele como não votei em ninguém. Não participei.

Disse que o principal problema da "geringonça" não é o que pode fazer mas o que o PS não pode fazer por estar apoiado pelo PCP e pelo Bloco. O que é que o Governo afinal não pode fazer?

Acho que não fará nenhumas reformas sérias do Estado social - e o Estado Social precisa de reformas. Abordará tudo o que tem que ver com as questões empresariais, nomeadamente acertos que se possa fazer em termos laborais, sempre numa perspetiva muito, muito conservadora - e isso aliás já se notou, porque o programa do PS nessa matéria tinha uma determinada linha de orientação que me parecia correta e que foi decaindo ainda antes das eleições e depois caiu totalmente depois das eleições, acho que não se fará nenhuma reforma do sistema político. Isto é o preço que se paga ao fazer coligações com partidos que em questões essenciais pensam o contrário daquilo que o PS historicamente sempre pensou.

Entrevista DN/TSF

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