As gémeas de Lisboa salvas por dois bombeiros da Maceira

Mariana e Beatriz, de 7 anos, assistiram à missa ao lado da avó Leonilde Barbosa um ano após terem escapado ao incêndio

Mariana e Beatriz assistiram à missa ao lado da avó, Leonilde Barbosa. Aos 7 anos, as gémeas já viveram um pesadelo de que não gostam muito de falar: há um ano, brincavam na casa da família, em Troviscais, quando o fogo cercou a aldeia. A mãe, Rita, ficara em Lisboa a trabalhar, enquanto as meninas seguiram para a terra da família, como é hábito nas férias e fins de semana.

"A minha mãe ligou-me a despedir-se. A pedir desculpa por não conseguir salvar as minhas filhas, que iam morrer todos", conta ao DN a mãe das gémeas. Ao telefone, Leonilde não parava. "Liguei para toda a gente. O 112 passou-me a uma senhora da proteção civil, que me ligava de volta e iam lá salvar as minhas netas. Até hoje. Nunca apareceram".

Depois ligou para a irmã, que se pusera a caminha de Pedrógão. "Andou às voltas por serras a arder, contou-me depois que encontrou centenas de ambulâncias pelo caminho, e carros de bombeiros, mas nenhuma conseguia chegar aos sítios mais afastados". Foi então que dois bombeiros da corporação de Maceira, no concelho de Leiria, se arriscaram: seguiram até Troviscais. "E salvaram as meninas. E a nós também", conta a avó, enquanto atravessa o Largo da Igreja matriz de Pedrógão Grande. Até hoje está convencida de que "foi um milagre", que atribui à visita que fez a Fátima, um mês antes, por ocasião da vinda do Papa Francisco, no centenário das Aparições.

A família está hoje reunida na casa de família, e de manhã quis participar na missa em memória das 66 pessoas que não tiveram a mesma sorte. Quando Marcelo passa para fazer selfies com os escuteiros, as mulheres da família Barbosa estão prontas para ir almoçar, retomando a normalidade da vida ao fim de semana. Depois hão de traçar o IC8 e rumar a Odivelas, onde moram.

Costa, a mulher e o convite não chegou

António Costa sai da missa quase sem ser abordado, e procura com o olhar a mulher, que já está no recinto a conversar com moradores. É nessa altura que responde à pergunta dos jornalistas: foi ou não convidado para a cerimónia na Associação das Vítimas? "Não, Não fui". A cerimónia é privada - anuncia a associação no programa oficial - e por agora não é possível confirmar a razão com Nádia Piazza, a presidente, pois que não esteve presente na missa. Ao que o DN apurou, de fora ficou também o presidente da Câmara de Pedrógão Grande, Valdemar Alves.

Marcelo, Costa, Fernando Negrão e os demais autarcas da região do Pinhal Interior norte seguem para a aldeia do Nodeirinho, inaugurar um memorial, junto ao tanque onde há um ano se salvaram 12 pessoas, enquanto Pedrógão ardia.

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