"As crianças com pais fumadores têm maior risco de doenças respiratórias"

Ana Figueiredo é médica pneumologista, ex-coordenadora da Comissão de Tabagismo da SPP

O fumo passivo é muito prejudicial para as crianças?

Sem dúvida. O tabagismo passivo tem um impacto maior na saúde das crianças do que nos adultos. Os pulmões de uma criança ainda estão em desenvolvimento. Temos estudos feitos que indicam que as crianças com pais fumadores que fumem ao pé delas têm maior risco de doenças respiratórias.

Mas há crianças portuguesas em tratamento por terem doenças respiratórias causadas por fumo passivo?

Vamos lá ver, é difícil determinar que a causa da doença respiratória de uma criança foi o fumo passivo, isso não sabemos. Mas os estudos disponíveis compararam crianças expostas ao tabaco com as não expostas e concluíram que as primeiras têm, em média, mais doenças relacionadas com o fumo.

Que tipo de comportamento nocivo é que os pais fumadores tendem a ignorar?

Muitas vezes os pais fumam em ambientes fechados, nas suas casas, quando as crianças não estão lá e acreditam que assim estão a proteger os filhos. Não estão. Está demonstrado que o tabagismo em terceira mão é muito prejudicial. As crianças chegam a casa e vão depois respirar nesse ambiente onde já houve fumo. É preciso chamar a atenção dos pais também para não fumarem no interior dos carros. Quando o fazem com as crianças lá é um comportamento criminoso. Mas é um hábito a evitar em todas as circunstâncias.

Concorda então com quem defende que a proibição de fumar devia abranger o interior das casas e dos carros?

Concordo a cem por cento. Continua a fumar-se em ambientes fechados sem qualquer controlo, em Portugal.

Mas como se fiscalizaria isso?

Bem, o problema no nosso país tem sempre que ver com a fiscalização, não é? Mas vamos pensar nisto: uma pessoa que vá a fumar no interior de um carro é facilmente visível pela autoridade.

Mas como se fiscalizaria quem fuma dentro das casas?

Pois controlar o fumo no interior das casas é mais difícil. Mas tem de haver uma consciencialização das pessoas para essa realidade. Em muitos países da Europa já há prédios livres de tabaco, em que os residentes já sabem que ali não podem fumar, em sítio nenhum do edifício. Até aconteceu nesses países que os apartamentos usados por fumadores desvalorizaram.

Considera que a campanha que foi feita com os rótulos chocantes nos maços de tabaco surtiu efeito?

Não temos de ter medo das campanhas, deviam ser ainda mais agressivas, não no conteúdo das mensagens mas por outras vias. Portugal podia, por exemplo, adotar embalagens descaracterizadas onde não há qualquer publicidade às marcas. Quanto aos efeitos que a campanha teve em Portugal creio que ainda não há resultados. Mas sei que nos países onde fizeram o mesmo tipo de campanha houve efeitos positivos. São diretivas europeias e temos de as implementar. E é preciso reforçar a ideia de que nada disto é contra os fumadores, que são pessoas que também foram levadas a fumar pela publicidade e que têm dificuldade em parar. Estamos cá para os ajudar.

A proibição de fumar à frente de escolas e de hospitais, inclusive de quem fuma cigarro eletrónico, não chega, na sua opinião?

Proibir o cigarro nesses sítios e noutros locais é uma forma de proibir o hábito. Não nos podemos esquecer de que o tabagismo é uma doença crónica. A razão por que as consultas de cessação tabágica não pagam taxas moderadoras é porque se trata de uma toxicodependência. Não queremos ir contra quem é fumador. Mas o hábito do tabaco é um problema de saúde pública.

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