"Apesar de a câmara estar rica, Medina não sabe o que fazer ao dinheiro"

Coordenador do programa eleitoral do PSD à Câmara de Lisboa, José Eduardo Martins, em entrevista ao DN, reafirma que a sua nomeação não foi uma provocação a Passos Coelho. Muito crítico da gestão de Medina na CML, diz também não recear a candidatura da centrista Assunção Cristas

É exagerado dizer que a sua nomeação para coordenar o programa eleitoral do PSD em Lisboa causou incómodo ao líder do partido?

Manifestamente acho exagerado. O convite que a concelhia me faz está absolutamente dentro das suas competências. Entretanto constato que não tem nenhuma objeção do presidente do partido.

Mas é um facto que teve seis anos afastado da vida política ativa, depois de ter estado ao lado de Manuela Ferreira Leite...

É um facto.

Foi ostracizado pela atual direção?

O presidente do PSD deu esta semana uma entrevista em que disse que quase todas as pessoas que foram opositores dele foram integradas no governo ou em grupos de trabalho. E de facto hoje o José Pedro Aguiar-Branco e o Paulo Rangel, só para dar os dois exemplos dos que se candidataram contra ele, são uns indefetíveis da liderança. Registo que houve esse esforço de inclusão. Da minha parte não havia grande espaço, nem há grande espaço para isso. Eu não mudei de opinião em relação a coisa nenhuma, nem vou mudar de opinião. Eu quando quero dizer as coisas, faço como no último congresso, faço-me eleger, apareço, digo as coisas.

Não é contrassenso ter um programa eleitoral para Lisboa sem ter candidato?

Acho pena que tenhamos chegado ao ponto em que achamos isso estranho. Diria que não. Não é indiferente a um partido político com a tradição e a história do PSD ter um programa estável para Lisboa a que muitos dos seus militantes, para não dizer quase todos, possam aderir. O que me está a ser pedido é que ouça muitas pessoas e que coordene um conjunto de outras disponíveis para projetar o que deve ser a atividade do PSD na câmara nos próximos 4 anos e que possa servir a qualquer candidato do PSD. Claro que há sempre nas candidaturas e nos programas uma marca pessoal, mas isso há todo o tempo para o fazer no tempo definido pelo PSD. O que se trata agora é de construir para a cidade um horizonte duradouro.

E qual é o horizonte duradouro?

É tudo o que a cidade não tem hoje. Como todas as taxas aumentaram brutalmente no ano passado, como se resolveu o problema do aeroporto, Lisboa parece que ganhou o Euromilhões e não sabe o que há de fazer ao dinheiro. Há dinheiro mas não há cabeça. O que queremos no futuro é uma cidade com mais pessoas, um tecido social rejuvenescido, com menos ilhas dentro da cidade. Para ser mais moderna, mais dinâmica, mais empreendedora tem antes de mais de inverter este problema demográfico de ter expulsado um conjunto de lisboetas da cidade.

E o que é necessário a médio prazo?

Andamos todos a discutir se temos turistas a mais. Claro que não temos turistas a mais, temos é uma péssima gestão do turismo em Lisboa. Gerir turismo não é só definir capacidade de carga, é fixar objetivos para a cidade e atuar em função deles. Se a cidade decidir que não quer ter terminal de contentores, que quer ser uma cidade cujo principal ativo são os 16 quilómetros de costa, e quer ter uma atividade virada para a náutica de recreio a Administração do Porto de Lisboa ou governo vão mesmo decidir contra a cidade e fazer aqui um terminal de contentores? O que falta essencialmente a Lisboa é dizer o que é que esta cidade quer ser daqui a 10 ou 20 anos. Que tipo de pessoas quer atrair, que tipo de atividade económica quer ter, como é que vai trazer mais gente para o centro da cidade. Eu tenho dificuldade em perceber o que o Dr. Medina diz, mas nos últimos tempos ainda mais. Nas cerimónias do 5 de Outubro dizia que Lisboa é uma cidade que está a agarrar o presente. Quando muito é uma cidade que está agrafada no presente, sem capacidade de olhar para o futuro. A cidade tem sido gerida de forma muito pouco transparente e não me refiro às trapalhadas dos concursos que mudam a meio do verão e de júri e que descobrem coisas como foi o caso da 2ª Circular. Aliás, acho que foi muito assisado a câmara parar essas obras porque os lisboetas já não aguentam mais obras feitas em catadupa. É o próprio vereador que já esteve na câmara com António Costa, que é supostamente uma autoridade no trânsito, o vereador Nunes da Silva, o primeiro a vir dizer que isto é apenas calendário eleitoral.

Como explica a pouca oposição do PSD na câmara?

O PSD tem várias vezes intervindo nesta matéria e a concelhia tem procurado suprir esse défice.

Não sente pressão para vir a ser o candidato do PSD?

Expliquei a quem me convidou que a minha disponibilidade era mesmo para ajudar no plano das ideias e da construção do programa. E com clareza disse que não seria candidato à câmara de Lisboa. O partido terá uma candidatura a seu tempo.

Quais as grandes prioridades para Lisboa?

Temos um evidente problema de mobilidade e de habitação. Veja-se o processo ridículo das decisões sobre ciclovias: parece que a ideia da câmara é mesmo só fazer obras nos eixos pedonais principais onde se vêm as coisas, portanto vamos ter ciclovias em planos inclinados onde não faziam sentido nenhum e que se podiam fazer pela faixa de bus, como é o caso da Fontes Pereira de Melo e outros sítios onde as ciclovias faziam falta e não aparecem. Mas sobretudo não estamos a fazer estas obras pensando no futuro. Em Londres hoje o problema não é o carro privado, porque é das cidades mais avançadas na política de controlo dos carros privados, não obstou de outras soluções que também dependem do veículo. Temos finalmente a Uber a chegar a Portugal e a ser regulamenta e um conjunto de novas soluções de mobilidade urbana. Se não fizermos um planeamento diferente da cidade vamos continuar a ter o mesmo problema, o tempo de deslocação em Lisboa por km quadrado vai continuar a reduzir-se. Para uma cidade que quer ter como grande ativo a atração do turismo, Lisboa tem um problema sério de habitação e de relacionamento entre hotelaria e alojamento local, especialmente nos bairros históricos. O centro de Lisboa hoje está reservado ou à venda a imigrantes ricos ou a alojamento local. Também temos problemas de transportes públicos. Temos um metropolitano de Lisboa e uma carris, que neste modelo de passagem para a municipalização, a câmara tem mostrado estar tão apta a gerir essas novas realidades como a tratar o problema do estacionamento em segunda fila, que chega a ter dimensões ridículas. Há um terço da cidade que não é servida pelo metropolitano. Pode um programa de futuro ignorar isto?

Disse que Santana Lopes seria o candidato natural do PSD à Câmara. Mas ele continua a dar sinais de não querer avançar. Maria Luís Albuquerque poderá ser a alternativa?

Ao aceitar este convite perdi a liberdade para me pronunciar sobre candidatos. A opinião sobre o Dr.. Santana Lopes é fácil de expressar, porque estamos todos de acordo. Se ele quiser será o candidato, com muitas e boas possibilidades para derrotar o Dr.. Fernando Medina que recebeu a câmara sem eleições e tão mal a tem tratado. Apesar da câmara estar rica, o Dr.. Medina tem provado ser tudo menos um bom presidente e não sabe o que há de fazer ao dinheiro.

A candidatura da líder do CDS, Assunção Cristas, não deve ser temida pelo PSD?

A candidatura de um líder do CDS não é a primeira vez que acontece e, nessa altura, só elegeu um vereador... Com todo o respeito pelo CDS, cada um no seu lugar. A candidatura de Assunção Cristas é de uma pessoa jovem e mobilizadora, mas não se percebe qual o seu programa.

As autárquicas não serão um imbróglio para Passos Coelho, com a falta de candidatos fortes sobretudo nos grandes centros, como Lisboa, Porto, Coimbra?

Estas autárquicas são muito importantes para o PSD. E são porque ocorrem no meio de um ciclo político originalíssimo. Há sempre nos grandes centros urbanos uma leitura nacional. Sou daquelas pessoas que começam a achar que estavam enganados, porque sempre pensei que chegávamos a legislativas antes das autárquicas. Nunca vi ninguém fazer de conta com a mestria de António Costa! Há um português, que de repente, parece só ter qualidades e que não era assim tão consensual há uns anos e que se demitiu por causa do resultado numas eleições autárquicas. Sabemos que isso implica um grau de desprendimento que António Costa não tem. Ainda assim é um momento importante e o PSD devia preparar muito bem as eleições.

Se Passos perder essas eleições terá desprendimento para sair da liderança do PSD?

Pedro Passos Coelho, que conheço há muitos anos, tem esta característica de ser uma pessoa muito resistente, muito determinada, que quando sente que tem uma obrigação pela frente raramente desiste dela. Mas também quem é a alternativa a Passos Coelho no PSD? Quem está a oferecer um projeto alternativo? Não vejo ninguém. Os antigos opositores são hoje indefetíveis apoiantes.

E Rui Rio?

Não ouço o Dr.. Rui Rio há tantos meses. Acho muito fantasioso andarmos por aí a especular sobre a alternativa do PSD quando na verdade não vejo nenhuma. De pois o PSD é um partido democrático, se alguém se quiser candidatar vai ter um congresso por essa altura.

Continua a não excluir a possibilidade de se vir a candidatar à liderança do partido?

Nem eu, nem nenhum outro militante do PSD. Se está no meu horizonte e se acho que é necessário? Nem uma coisa nem outra.