Antigo autarca regressa para o tira-teimas no Alandroal

Uma presidente da câmara e dois ex-presidentes vão bater-se pela vitória no dia 1 de outubro. A candidata da CDU, Mariana Chilra, alega que pôs as contas em ordem na autarquia, que o PS tinha deixado em maus lençóis. O candidato socialista acusa-a de ter pouco trabalho para mostrar.

Há quatro anos, Mariana Chilra conquistava a Câmara do Alandroal para a CDU sem dificuldade. A própria assumia ter a certeza de que a maioria absoluta estava no "bolso", sobretudo depois do então presidente da autarquia, João Maria Grilo - eleito em 2009 por um movimento independente - ter ficado fora da corrida por decisão do Tribunal Constitucional. O ex-autarca viria a manifestar apoio à candidata comunista.

Mas no dia 1 de outubro a luta adivinha-se renhida neste concelho do interior alentejano. Grilo está de regresso e desta vez surge como cabeça-de-lista do PS. À espreita está outro antigo presidente do município, eleito em tempos pelos socialistas, mas que concorre como independente. Contudo, deverá sobrar pouco espaço para que João Nabais, a braços com um processo judicial, se intrometa na luta entre comunistas e socialistas.

A candidata da CDU, que em 2013 alcançou três mandatos contra um do movimento Defesa da Integridade Territorial e Desenvolvimento de Alandroal (DITA) e outro do PS, "puxa" pela postura transmitida ao eleitorado durante o mandato, para retirar qualquer ameaça do horizonte. Por muito reconhecimento e mediatismo que o professor João Maria Grilo tenha capitalizado entre a população do concelho. Antes e depois de ter sido presidente lá da terra. "Agora as pessoas já perceberam a diferença de estar na vida política", diz Chilra, comparando a "proximidade e rigor na gestão dos dinheiros públicos" que alegadamente pautaram o seu mandato, com o estado de "ruína em que o PS deixou o concelho", assevera.

Grilo defende-se, relembrando que conquistou a autarquia há oito anos encabeçando o Movimento Unidade e Desenvolvimento de Alandroal (MUDA), deixando para trás os partidos tradicionais e contando com o apoio do vereador da CDU para governar o município, perante a maioria relativa obtida nas urnas. E passa a dívida para os dois mandatos anteriores ao seu, quando João Nabais - este sim, eleito pelo PS - comandou os destinos do Alandroal.

"Gastou muito mais do que devia. As contas desse período acabaram por ser integradas no meu mandato e tivemos de declarar a situação de rutura financeira em 2012 para tentar aceder a um plano de reequilíbrio", justifica o candidato, que desta vez junta o PS ao "seu" MUDA, convicto da vitória perante o que chama de "estagnação" a que o concelho terá estado votado nestes últimos anos.

Mas Chilra contra-ataca: "Neste momento há mais dificuldade para que a população acredite numa candidatura do PS", insiste, dando o exemplo do "negócio ruinoso" da gestão da água para abastecimento púbico, que há anos foi entregue à empresa Águas do Centro Alentejo. "Quando tomámos posse, a dívida era de quase quatro milhões de euros. Hoje devemos apenas um milhão, mas passámos a comprar água caríssima e que é captada no nosso concelho, com estruturas que a câmara já tinha", denuncia. Justifica assim o elevado preço da fatura das taxas e licenças que chegam às casas dos munícipes, que se queixam das verbas que passaram a pagar pelo imposto municipal sobre imóveis (IMI). "Estes valores tão elevados obrigaram a câmara a entrar no Fundo de Apoio Municipal", insiste a candidata da CDU, para quem o principal trabalho do seu mandato (saneamento financeiro) é bem capaz de nem ter alcançado visibilidade junto dos munícipes, mas a tesouraria estará hoje mais folgada. E quantifica. "Quando chegámos à câmara a dívida era de 21 milhões de euros. A câmara tinha contas penhoradas, estava descredibilizada perante fornecedores e instituições. Reduzimos um milhão por ano e devemos terminar o mandato com uma dívida de 17 milhões", revela, tencionando passar esta mensagem à população quando regressar ao porta-a-porta que utilizou na campanha de há quatro anos, percorrendo uma terra onde todos se conhecem.

Aliás, a proximidade entre autarcas e munícipes é uma particularidade que deixa João Maria Grilo apreensivo, receando vir a traduzir-se num adversário de peso. Avisa que numa comunidade tão reduzida, com pouco mais de cinco mil habitantes e uma economia onde escasseiam as saídas profissionais - após a crise que atingiu os setores do mármore e da agricultura -, o apoio da autarquia é essencial para centenas de famílias.

"É claro que quem está no poder tem vantagem", diz, na esperança de que a população tenha vindo a estar atenta às frequentes críticas ao executivo que foi fazendo nas redes sociais, durante os últimos quatro anos em que esteve afastado da autarquia. "Acho até que tenho sido a única voz construtiva, porque os dois vereadores da oposição têm estado em silêncio este tempo", acrescenta.

Grilo viu a sua candidatura em 2013 inviabilizada pelo Tribunal Constitucional devido a irregularidades, mas nunca escondeu que iria querer a desforra em 2017. Pela vila, há várias semanas que são visíveis cartazes com a sua imagem, quase como se fosse o único candidato à autarquia, ilustrando o empenho no tira-teimas. Os outros concorrentes preferiram "vir para a rua" mais tarde.

Mas como é que o candidato justifica hoje as críticas à CDU depois de lhe ter manifestado apoio há quatro anos, entregando a vitória de mão beijada a Chilra? "Tínhamos um trabalho de quatro anos com a CDU e gerámos alguma expectativa de continuidade, até porque as outras candidaturas (DITA e PS) não eram alternativa", refere, para resumir que "a expectativa foi gorada, não houve seguimento nem respeito pelo trabalho que estava a ser feito", fazendo uma apreciação "muito negativa" do mandato. Mariana Chilra volta a discordar e exibe a obra que foi erguendo mesmo com os parcos recursos. Da casa mortuária à creche, do posto da GNR ao depósito da água em Santiago Maior. "Concluímos um caminho municipal e a eletrificação em montes rurais que estavam pendentes há anos por falta do visto do Tribunal de Contas", regozija-se a advogada de 52 anos.

E que o sobra para os restantes candidatos perante esta aparente bipolarização alandroalense? João Nabais torna a ir a jogo como independente pelo DITA, depois de ter sido eleito vereador em 2013. É outro ex-presidente da câmara, eleito pelo PS em 2001 e 2005, e já admitiu que é possível fazer melhor desta vez, confessando as suas convicções socialistas. Apesar do partido lhe ter retirado a confiança política há uns anos.

Quando Nabais liderava o município, João Maria Grilo chegou a integrar o executivo, como vereador, mas viriam a incompatibilizar-se ainda durante o mandato que terminou em 2009, na sequência de notícias sobre uma investigação por atos ligados à gestão do então presidente. Na altura, Grilo chegou a ser apontado como possível escolha natural do PS para encabeçar a lista no Alandroal, mas as "esferas" socialistas tomaram outra decisão e Grilo avançou como independente, garantindo a tal maioria relativa e alguns inimigos dentro do PS.

Já a direita divide-se em duas candidaturas. O PSD lança o ex-inspetor da Polícia Judiciária José Cebola, que volta a ser o candidato à câmara do concelho onde nasceu há 60 anos, depois de ter concorrido em 1989 - quando seria eleito -, 2001 e 2013, enquanto o CDS tenta a sua sorte com Alberto Ramalho, um conhecido empresário local.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Opinião

'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?

Premium

Adriano Moreira

A crise política da União Europeia

A Guerra de 1914 surgiu numa data em que a Europa era considerada como a "Europa dominadora", e os povos europeus enfrentaram-se animados por um fervor patriótico que a informação orientava para uma intervenção de curto prazo. Quando o armistício foi assinado, em 11 de novembro de 1918, a guerra tinha provocado mais de dez milhões de mortos, um número pesado de mutilados e doentes, a destruição de meios de combate ruinosos em terra, mar e ar, avaliando-se as despesas militares em 961 mil milhões de francos-ouro, sendo impossível avaliar as destruições causadas nos territórios envolvidos.