Ana Escoval: "Até final de março vão sair mais de 30 enfermeiros"

Há dois anos na presidência do conselho de administração do Centro Hospitalar de Lisboa Central , cargo que assumiu a 1 de fevereiro de 2016, Ana Escoval enumera as principais obras para o futuro próximo e afirma que "dorme com tranquilidade em 99% das noites".

Que balanço faz, em relação à produção e também à gestão financeira, destes dois anos à frente do Centro Hospitalar Lisboa Central?

Eu nunca me preparei para este lugar, nem nunca fez parte, digamos assim, dos meus objetivos de vida. Eu assumo este lugar como uma missão, é assim que eu vejo o que tenho feito ao longo da minha vida, exatamente dessa maneira. Agora, poderei dizer-lhe que assumi como missão, com responsabilidade, e o que tenho feito é um percurso de que me orgulho, com pontos com certeza melhores e outros piores, ou se quiser menos bons, que têm muito que ver com a responsabilidade que nós temos no dia-a-dia, as dificuldades que temos para gerir um centro hospitalar desta dimensão, com esta dispersão, com esta quantidade de interações diárias, quer internas com os profissionais quer com todos os stakeholders que nos envolvem. As coisas não são naturalmente fáceis, são gratificantes. E, sobretudo, gostava de dizer que eu sou uma pessoa que dorme poucas horas, e as poucas horas que durmo, procuro dormi-las com tranquilidade; eu diria que em 98,99% dos dias tenho-me deitado com essa tranquilidade.

E que razões a levam a dormir mal em 1% ou 2% das noites?

Eventualmente o não ter a certeza absoluta se consigo encontrar a resposta adequada para o objetivo em causa, porque nós, tendo autonomia administrativa e financeira, os hospitais têm-na, estamos naturalmente a gerir sempre num contexto de grande interação com outros decisores, o Ministério da Saúde, o Ministério das Finanças, etc... Portanto, as autorizações, as necessidades de articulação, os recursos financeiros disponíveis, os recursos humanos que conseguimos ou não encontrar disponíveis para a realização dessas atividades, obrigam-nos a ter de ponderar seriamente quais são os equilíbrios que conseguimos dentro das disponibilidades que temos, e é essa dificuldade que, por vezes, nos assola.

Pouco tempo depois de tomar posse, em 2016, confrontou-se com um caso que abalou o país, o de David Duarte, que morreu no São José por falta de assistência a um aneurisma. Como está a urgência metropolitana nessa especialidade, quantos doentes são atendidos?

Como sabe, eu tomei posse no Hospital de São José no dia 1 de fevereiro de 2016, esse é um assunto que data de dezembro e os poderes políticos já tinham encetado diligências no sentido de organizar, de uma forma diferente, a resposta para algo que é fundamental: a resposta é em neuroradiologia, mas obviamente que se centra sobre necessidades que têm vindo a crescer. Importa sabermos de uma forma muito clara, em primeiro lugar, qual é o percurso que o doente tem de fazer e qual é o melhor fluxo desses doentes no quadro de uma urgência metropolitana de Lisboa. Por isso, o que estava estabelecido eram as instituições que participavam nesta referenciação e que são quatro, como sabe: Lisboa Ocidental, Lisboa Norte, Lisboa Central e o Garcia de Horta. E está igualmente estabelecida qual é a forma de participação destas quatro instituições e temos vindo a manter sistematicamente um acompanhamento muito apertado, rigoroso, coordenado pela Administração Regional de Saúde, sobre todo este processo. Dizer-lhe qual o número de doentes que atendemos... enfim, ele vai aumentando. Eu até posso dar-lhe a estatística, mas mais do que a estatística, aquilo que está em causa não é se é um ou se são dez doentes, é qual resposta que nós temos para aquele doente, isso é o que importa.

Sentiu impacto com a liberdade de escolha, que permite ao doente escolher onde tem uma primeira consulta de especialidade ?

Sim, sim. Ao nível de oftalmologia, esse foi um caso, ao nível de ortopedia...

Teve impacto na resposta?

Sim, naturalmente. Embora nós tenhamos essa tal grande preocupação de fazer a triagem clínica, de triar todas as situações que são emergentes, começámos a ver os nossos tempos de espera a piorar e as nossas listas de espera a aumentar, e isso é o fruto da liberdade de escolha. Portanto, as pessoas escolhem-nos. Mas eu estou confiante de que sendo feita esta triagem, primeiro administrativa e depois clínica, nós, em princípio, não deixaremos de fora aquilo que são os casos com verdadeiras necessidades emergentes. Deixamos de fora, de certeza absoluta, pessoas que têm uma expectativa de uma resposta mais atempada e em que o nosso tempo de espera é efetivamente maior.

Em relação aos enfermeiros especialistas, com a saída de profissionais para centros de saúde, já se surgiram problemas em grandes hospitais. Em Santa Maria, por exemplo, sentiu-se ao nível das consultas de interrupção voluntária da gravidez. O CHLC sente o mesmo problema? Podemos vir a ter limitações na oferta, por exemplo, nessa área da IVG por saídas de especialistas

Bem, eu neste momento não gostaria de antecipar onde é que vamos ter problemas, por duas razões, e a primeira é: efetivamente vão sair profissionais, eu não sei exatamente ainda quantos, porque eles vão sendo chamados e uns aceitam e outros rejeitam, logo não sei. Neste momento, nós já sabemos que mais do que 30 enfermeiros vão aceitar esses lugares. Sabemos porque nos comunicaram que iriam abandonar. No entanto, negociámos com a ARS e com esses mesmos enfermeiros a progressiva saída deles de acordo com os interesses e as expectativas deles e também com o facto de estarmos perante um período de contingência. E até final de março, em princípio, irão sair estes profissionais que aceitarem, de facto, tomar posse dos lugares a que concorreram. Portanto, até 31 de março teremos esse número. Temos indicação de que poderemos ter autorização para ir contratar as pessoas que saírem definitivamente da instituição para fazer a sua reposição. Daquilo que é a nossa primeira análise, pensamos que há áreas mais críticas, que eu diria que poderá ser a das pessoas da urgência, dos cuidados intensivos, de blocos operatórios e da pediatria também, do Hospital da Estefânia. De qualquer maneira, eu gostava de lhe dizer que fiz aqui uma análise dos nossos recursos humanos, e só gostava de responder por 2015, 2016 e 2017, porque é aquilo que de alguma maneira tenho vindo a acompanhar, e nós temos um crescimento de 4,1% dos médicos, de 2,3% de médicos internos e de 8% de enfermeiros.

Neste momento deve ter um dilema entre investir nestes hospitais que são a prazo, até à abertura do novo Hospital de Lisboa Oriental, mas também não deixar a qualidade cair.

É como lá em casa, se você for para uma casa nova você não deixa que o cano da água rebente, mas ao mesmo tempo não vai de certeza absoluta deitar os quartos abaixo para fazer uma remodelação profunda, porque já está à espera da sua nova casa. É um pouco isso. O que nós dizemos e defendemos é que nós devemos garantir um conjunto de obras, pequenas obras, que permitam a operacionalização, a qualidade e a segurança, quer para os doentes quer para os profissionais, e disso não poderemos sair enquanto gestores destas casas. Mas temos desde o ano passado, na nossa carteira, quatro grandes obras: uma delas a urgência. A urgência geral do Hospital de São José é um lugar onde entram entre 400 e 500 pessoas diariamente por ali dentro mais, enfim, familiares e amigos, não é? É um lugar que está sistematicamente com uma intensidade tal de utilização que precisa permanentemente de obras e, além disso, é um local muito acanhado. Portanto, decidimos uma coisa que foi encerrar a esterilização, ao pé da urgência, e alargar a urgência para esse espaço. E deixar de ter, no piso de cima, o SO de psiquiatria, de forma que no piso de cima fique um espaço para podermos instalar a neurologia, que anualmente está no Curry Cabral, e portanto para alocar junto das neurociências. Temos uma obra, um concurso também aberto, para hematologia no Curry Cabral, para melhorar também as condições de acesso dos doentes, que exigem condições muito específicas e especiais por causa da transplantação de medula e, portanto, são condições que temos de manter com grande qualidade e segurança. Temos um outro concurso que tem o estudo prévio pronto, aguardamos só as decisões superiores, para a melhoria do bloco operatório aqui, no São José. E uma outra que também está a ser perseguida, que é a concentração da gastrenterologia, que atualmente está nos Capuchos e que é para passar para o Curry Cabral, para a área da cirurgia onde está incluída a gastrenterologia, até porque esta questão está muito ligada com as doenças hepáticas. Além destas obras que estão todas elas encadeadas, nós temos mais dois pontos de investimento, um que iniciámos neste ano, de equipamentos, no qual investimos cerca de 14 milhões de euros com fundos comunitários; e temos um outro conjunto de projetos que têm que ver com eficiência energética, que tem a ver com melhorias ao nível das condições de muitos edifícios, quer em São José, quer no Curry Cabral, quer no Santa Marta, quer na Estefânia principalmente, e que têm que ver com redes de águas, com os aquecimentos, com melhoria, por exemplo, das janelas e dos espaços, porque o objetivo é exatamente gastarmos menos energia, ou seja, é um investimento em eficiência energética.

Exclusivos

Premium

Betinho

Betinho: "NBA? Havia campos que tinham baldes para os jogadores vomitarem"

Nasceu em Cabo Verde (a 2 de maio de 1985), país que deixou aos 16 anos para jogar basquetebol no Barreirense. O talento levou-o até bem perto da NBA, mas foi em Espanha, Andorra e Itália que fez carreira antes de regressar ao Benfica para "festejar no fim". Internacional português desde os Sub-20, disse adeus à seleção há apenas uns meses, para se concentrar na carreira. Tem 34 anos e quer jogar mais três ou quatro ao mais alto nível.