Sair da atual solução "é a última coisa que o PCP pode fazer"

O pior que o PCP podia agora fazer era recuar no apoio ao PS. "O PCP seria responsabilizado pela rutura de uma solução que torna o país um pouco mais feliz", argumenta renovador Carlos Brito

Miguel Marujo
Carlos Brito, numa foto de arquivo, quando da constituição da Renovação Comunista© José António Domingues/Arquivo DN/Global Imagens

A partir de Alcoutim, onde vive a sua reforma, o comunista renovador Carlos Brito - foi suspenso do PCP em 2002 por um ano e depois manteve ele próprio essa situação - explica os resultados dos seus antigos camaradas mais por fatores locais e avisa que o pior que o PCP podia agora fazer era recuar no apoio ao PS. "O PCP seria responsabilizado pela rutura de uma solução que torna o país um pouco mais feliz", argumenta.

Como olha para estes resultados, para as perdas significativas que o PCP teve nestas eleições?

Creio que falando-se de perdas e derrotas, há que sublinhar que a grande derrota nestas eleições é a do PSD, e que pode modificar todo o quadro político português, derrota tão grande que põe em questão a própria liderança do partido, se não no imediato, pelo menos no próximo congresso. Não fugindo à sua pergunta, creio que as derrotas do PCP se devem em larga medida - não estou a dizer em exclusivo - a fatores locais. E saliento entre esses fatores as listas de independentes de cidadãos eleitores, que ditam a derrota em Peniche e em vários concelhos do Alentejo. Sendo que estas candidaturas independentes em muitos casos são animadas e promovidas por dissidentes do PCP ou por ex-simpatizantes do PCP com os quais o partido, por quaisquer razões do sectarismo que continua a haver nas suas fileiras, não foi capaz de dialogar suficientemente.

Segundo aspeto: creio que particularmente nas grandes cidades, nos grandes centros urbanos, há erros de gestão por parte do PCP nas condições dos anos da austeridade. Naturalmente foram anos muito duros na gestão autárquica e creio que, nalguns concelhos, não foram bem definidas as prioridades e as pessoas sentiram-se um bocado tocadas em questões importantes, designadamente nos transportes. Foram transferidas para aí algumas das dificuldades orçamentais que as autarquias estavam a experimentar.

Isto não são derrotas definitivas: ao longo destes anos têm havido autarquias de grandes cidades que o PCP perde e mais adiante vem recuperar. O caso de Évora é exemplar, no coração do Alentejo. Isso também vai acontecer. No caso de Almada as diferenças são mínimas: tanto o PCP, a CDU, como o PS elegem quatro vereadores. Vai ser complicado de gerir. Não é uma humilhação. Pelo contrário, o PCP tem uma grande vitória na cidade de Setúbal, que é uma das grandes capitais de distrito do nosso país, e tem uma grande, grande vitória. Há estes fatores que temos de considerar.

A culpa não é do apoio ao PS...

Quanto a mim, não é a abertura que o PCP fez depois das legislativas de 2015 e que proporcionou a existência do atual governo com as características que tem, a chamada geringonça, não é essa a causa das derrotas do PCP. O que considero é que a abertura foi insuficiente. Ao fazê-la, o PCP tinha que abrir muito mais para a sociedade.

E não poderá ter implicações na relação do PCP com o PS?

Já lá iremos. O que acho é que o PCP devia ter feito muito mais para dialogar com a sociedade, inclusive com os numerosos comunistas que deixaram o partido ou que o partido deixou neste percurso. Em muitos casos, são pessoas altamente influentes e se o PCP mantivesse o diálogo com eles, não só teria impedido e inviabilizado algumas listas de cidadãos que andam por aí a afetar o eleitorado do PCP, como teria adquirido o apoio de pessoas que têm influência. O pior que o PCP poderia agora fazer era arrepender-se da abertura e dos acordos que fez nos finais de 2015, que deram sustentação ao atual Governo. Era o pior que podia fazer. É a última coisa que o PCP pode fazer. O PCP tem que se colocar dentro desta solução em que participa com as forças todas, sem vergonha de lá estar, afirmando a sua identidade, tomando posições reivindicativas já no Orçamento do Estado, naturalmente fazendo-o com ponderação e muito cuidado, mas também com muita audácia. O PCP não deve recuar. A recuar, o PCP seria responsabilizado pela rutura de uma solução que torna o país um pouco mais feliz, um pouco mais esperançoso.