Pesticida perigoso usado por 89 câmaras

OMS classificou glifosato como potencialmente cancerígeno. Em 2014 venderam-se 1600 toneladas no país

Ana Maia
16 de junho do ano passado: a ministra francesa do Ambiente e Energia, Segolene Royal, retira da prateleira de um supermercado um herbicida que usa como principal substância o glifosato. O gesto simbólico fez parte de uma ação maior, em que o governo francês pediu que se parasse com a venda destes produtos © REUTERS/Charles Platiau

Pelo menos 89 câmaras municipais (29% do total) utilizam glifosato, um pesticida potencialmente cancerígeno e que está à venda nos supermercados. Fazem-no para matar ervas em jardins, passeios, estradas e cemitérios. O produto é também muito usado na agricultura para preparar os terrenos para cultivo. Em 2014 venderam-se em Portugal 1600 toneladas, o que o torna um dos mais usados no país. O Ministério da Agricultura vai incluir este ano o glifosato pela primeira vez na lista de substâncias a pesquisar, mas apenas nas análises em sementes de centeio. A Comissão Europeia vota este mês a reautorização da licença de uso deste herbicida.

As perguntas foram feitas às 308 autarquias do país pelo Bloco de Esquerda (BE): usam glifosato e em que quantidades. Responderam 107 e destas, 89 disseram sim e 18 que não. Nem todas deram quantidades usadas. Segundo o BE, "Gondomar (4000 litros), Matosinhos (2800), Évora (2500), Ferreira do Zêzere (2420), Portimão (1800), Elvas e Cuba (1000) são as autarquias que usam mais pesticida à base de glifosato, em quantidades bastante superiores à generalidade das autarquias". Os valores são anuais.

Em março de 2015, a Agência Internacional para a Investigação sobre o Cancro da Organização Mundial de Saúde declarou o glifosato como "carcinogéneo provável para o ser humano". "Se 80% das câmaras que responderam disseram usar, se aplicarmos a proporção às que não responderam, a situação é mais preocupante. É um produto muito barato, e com a crise e restrições na contratação, estão a substituir trabalho por veneno", diz ao DN Jorge Costa, deputado do BE, referindo que há câmaras, como Gaia, que estão a discutir o seu uso. Lá fora, Madrid e Barcelona já anunciaram que vão deixar de usar este pesticida.

A Plataforma Transgénicos Fora detetou, após a análise a 26 voluntários, que os portugueses apresentavam valores elevados deste pesticida na urina, tal como adiantou a RTP na sexta-feira. "O estudo não é representativo, mas o facto de existirem valores tão elevados é preocupante. O maior estudo sobre o glifosato f oi feito na Alemanha em 2015. O pior resultado alemão é três vezes menor que o melhor resultado português. A situação é grave. Em Portugal o glifosato não consta da lista de substâncias obrigatórias a analisar na água e nos alimentos e ao contrário do que há em França, não encontramos qualquer limitação ao seu uso", alerta Margarida Silva, da Plataforma Transgénicos Fora.

Licença de uso em discussão

No dia 18, a Comissão Europeia vota a reautorização da licença de uso, que termina a 30 de junho, do herbicida na Europa. Houve uma proposta em março para a revalidação por 15 anos, mas Itália, França, Holanda e Suécia ter-se-ão oposto à renovação da licença, o que fez com que não se realizasse votação por não estar garantida a maioria qualificada. O Parlamento Europeu fez uma recomendação não vinculativa: revalidação da licença por sete anos e proibição do seu uso em espaços urbanos.

"Questionámos o Ministério da Agricultura sobre a posição que tinha tomado em março. Segundo a resposta que nos deu, era favorável à renovação. Entretanto indicou aos peritos que assumam uma posição de abstenção. Esperamos que o Governo não alinhe na renovação e que mostre avanços concretos em Portugal. Depois da recomendação europeia esperamos que proíba o uso em espaços urbanos", afirma Jorge Costa. O PAN pediu para ouvir o ministro da Agricultura e a realização de análises na água e alimentos.

O Ministério da Agricultura diz que "o glifosato nunca fez parte da lista de substâncias a pesquisar, tendo sido determinada a sua introdução no Plano Nacional de Pesquisa de Resíduos apenas em 2016. Foi determinada a pesquisa de glifosato em sementes de centeio". Adianta que acompanha os estudos e avaliação científica de substâncias que podem afetar a saúde, mas salienta que "foi concluído que o potencial carcinogénico identificado está associado, não ao glifosato, mas sim à presença, em certos produtos fitofarmacêuticos contendo glifosato, de um coformulante (taloamina) que, na sequência da avaliação adicional conduzida, evidenciou um potencial genotóxico".

Perguntas e respostas

O que é o glifosato?

É um herbicida usado para matar ervas daninhas. É misturado com outros químicos que potenciam o seu efeito. É usado na agricultura e também em meios urbanos

É muito vendido em Portugal?

Em 2014 foram vendidas 1600 toneladas. A Plataforma Transgénicos Fora refere que em Portugal são vendidas 13 mil toneladas de pesticidas, sendo que cerca de metade são enxofre e cobre, produtos inorgânicos. O glifosato corresponde a cerca de 24% dos compostos químicos vendidos.

Quais os riscos na saúde?

Não existe um consenso sobre os riscos para a saúde, mas em 2015 a OMS classificou este herbicida como potencialmente cancerígeno. Uma investigação identificou a relação entre a exposição ao herbicida e o Linfoma não-Hodgkin. A ficha de utilização do produto refere que não se deve respirar a nuvem de pulverização e não contaminar a água