Pais, diretores e professores dão nota positiva ao primeiro período escolar

Menos problemas nos concursos e perspetivas de valorização da escola pública são os aspetos mais positivos destacados pela comunidade educativa quando compara 2015 com o que sucedeu no início do ano letivo de 2014

Pedro Sousa Tavares
© NUNO VEIGA/LUSA

Depois dos problemas sérios nos concursos de professores de 2014 - que deixaram milhares de alunos sem aulas durante boa parte do primeiro período, o regresso às aulas deste ano só poderia ser melhor. Este é um dos pontos de consenso na análise de diretores, pais e professores aos primeiros três meses do atual ano letivo. O outro é o otimismo gerado pelo discurso do novo governo em relação ao tema da Educação, apesar de também sublinharem que a maioria das medidas anunciadas estão ainda no plano das intenções.

No que toca ao regresso às aulas propriamente dito, os diagnósticos não são propriamente coincidentes. Para Manuel António Pereira, presidente da Associação Nacional de Diretores Escolares, os problemas que ainda aconteceram em relação às contratações nada tiveram a ver com os do ano passado. Já César Israel Paulo, porta-voz da Associação Nacional de Professores Contratados (ANPVC) considera que ainda se registam "problemas gravíssimos" a este nível, defendendo mesmo que deverá avaliar-se a extinção do sistema das bolsas de contratação de escolas (BCE).

Jorge Ascensão, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais, também adverte que nem tudo correu bem este ano. Mas admite que não há comparação com o ano letivo passado, considerando que a grande diferença esteve no planeamento.

As propostas e o discurso do governo socialista para a Educação - depois de anos em que o setor assumiu uma fatia significativa da austeridade nas contas públicas - agradam a todos.

Entre o que já está concretizado - nomeadamente o fim das provas finais do 4.º ano e da prova de avaliação de conhecimentos e capacidades (PACC) dos professores, a reação é unanimemente positiva.

Jorge Ascensão defende no entanto que há que acompanhar essa medida com a introdução de provas de aferição, de forma a que se continue a fazer o diagnóstico das dificuldades sentidas pelos estudantes.

Análise

Manuel António Pereira

Associação Nacional de Diretores escolares (ANDE)

O primeiro período correu melhor este ano do que em 2015?

A resposta é declaradamente "sim". Não nos podemos esquecer que, no ano letivo anterior, tivemos um início de ano letivo muito turbulento. Este ano, apesar de nem tudo ter sido perfeito, as coisas correram bastante melhor.

Quais foram as principais diferenças face ao ano passado?

A principal diferença teve a ver com o facto de que no ano letivo anterior, como toda a gente se recordará, houve problemas gravíssimos na contratação de professores, nomeadamente para a escolas TEIP [Territórios Educativos de Intervenção Prioritária] e [com contratos] de autonomia. Houve professores que só foram colocados no final de novembro. Este ano, essas coisas não aconteceram, pelo menos com a dimensão do ano anterior.

As medidas do novo governo para a Educação são positivas ou não?

Apenas conhecemos intenções. Em termos práticos, não há medidas que estejam a influenciar as escolas, a não ser o fim anunciado das provas do 4.º ano. Em todo o caso parece que há uma nova visão da educação e o sentimento as escolas é de um grande otimismo. Há muitos que assistimos a um desinvestimento da educação e sentimos que que a escola pública é mais valorizada por este governo.

Jorge Ascensão

Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP)

O primeiro período correu melhor este ano do que em 2015?

A análise tem de ser feita sobre outro ponto de vista: em termos de organização, foi idêntico ao ano anterior, com a exceção de que não houve tanta perturbação como no ano anterior, sendo que convém lembrar que também começou mais tarde. E, para nós, não deve ser necessário que o ano letivo comece mais tarde para correr bem. E ainda nos chegam, de vez em quando, notícias de algumas falhas de colocação de professores.

Quais foram as principais diferenças face ao ano passado?

Parece-nos que houve algum cuidado na preparação. Tal como tínhamos dito em anos anteriores, havia a necessidade de um planeamento atempado do regresso às aulas. Este ano houve o cuidado de nos convidarem atempadamente para uma reunião, salvo erro em fevereiro, para preparar o arranque do ano letivo. Creio que terá sido isso o essencial, e não necessariamente o facto de [o primeiro período] ter começado mais tarde.

As medidas do novo governo para a Educação são positivas ou não?

O que conhecemos neste momento é o fim da avaliação do 4.º ano. Parece-nos positivo mas esperamos que seja possível implementar, no tempo adequado, uma avaliação para aferir o que é necessário, e trabalhar sobre as dificuldades. [Sobre o fim do vocacional até ao 9.º ano], somos favoráveis a um modelo de educação de base mas tenha em conta as diferentes necessidades e capacidades.

César Israel Paulo

Associação Nacional de professores Contratados (ANPVC ), porta-voz

O primeiro período correu melhor este ano do que em 2015?

Eu diria que o arranque deste ano foi menos noticiado do que o do ano passado. Mas continuámos a ter problemas graves no concurso de professores, nomeadamente nos concursos relativos à Bolsa de Contratação de Escola. Continuámos a ter problemas gravíssimos no arranque das aulas e na falta de professores nas escolas. De resto, o concurso da BCE vai ter de ser totalmente revisto. Provavelmente até ser terminado ou acabado.

Quais foram as principais diferenças face ao ano passado?

Não me parece que tenha havido alterações de políticas educativas que permitissem falar em melhorias. Houve uma aparente normalidade, por comparação ao descalabro que foi o ano passado. Mas até resolvermos o problema de não termos todos os professores no dia 1 de setembro nas escolas, incluindo todos os contratados, nenhum ano letivo arrancará com normalidade.

As medidas do novo governo para a Educação são positivas ou não?

No global, o que até agora aconteceu no âmbito da Educação pareceu-nos positivo. Vamos requerer uma audiência com o senhor ministro e com os seus secretários de Estado e sentimos que este governo abre-nos novas perspetivas. Acima de tudo o que esperamos com este governo é poder debater questões de ensino e de educação. O anterior governo tinha uma obsessão administrativa.