O homem que "teve várias vidas"

A Fundação Champalimaud celebra hoje os 100 anos do nascimento de António Champalimaud e anuncia uma nova investigação para o cancro do pâncreas.

Ana Mafalda Inácio

"A vida é uma luta e eu gosto da luta", dizia. Para a história do país ficou como um dos empresários mais ricos, chegou a integrar a lista dos mais ricos do mundo da Forbes, em 2004. E será sempre uma figura polémica. Quem com ele conviveu não esquece "o homem carinhoso, generoso, disciplinado, exigente, trabalhador e simples". Que sempre surpreendeu, até na morte.

Três dias depois da morte do pai, Maria Luísa, a mais velha dos cinco filhos vivos de António Champalimaud, reúne os herdeiros da família para abrir o testamento que lhe tinha sido entregue pelo próprio tempos antes. Foi na sala em que o pai costumava estar, da casa da Rua do Sacramento à Lapa, em Lisboa, onde viveu uma parte da sua vida e para onde voltou já doente meses antes de morrer, a 8 de maio de 2004, que os filhos, Maria Cristina, Manuel Carlos, José e Luís, e os cinco netos descendentes de António e João - o primeiro que perdera em 1978, num acidente de carro, e o segundo, em 1992, assassinado por um trabalhador -, Marta, António, Francisco, Filipa, Joana e Sofia, ouviram o que o empresário tinha para deixar à família e ao país, pela voz de Maria Luísa. A todos surpreendeu ao testamentar a criação de uma fundação direcionada para a investigação científica na área da medicina, à qual deu o nome dos seus pais "D. Anna de Sommer Champalimaud e Dr. Carlos Montez Champalimaud". Os estatutos estavam feitos, a presidente escolhida, Leonor Beleza, e o valor a aplicar definido, um terço da sua herança, que estaria avaliada entre os dois mil e os três mil milhões de euros. Luís Champalimaud, o filho mais novo, hoje com 66 anos, contou ao DN que a surpresa não poderia ter sido maior, só naquela altura voltou a recordar uma conversa com o pai, ainda nos anos de 1996-97, quando António Champalimaud se voltava a preocupar com o futuro do grupo e da família. Nessa altura, confessou ao filho estar a pensar numa fundação para reunir o grupo empresarial, mas, mais tarde, "acabou por me dizer que, se calhar, não era a melhor solução. E para mim o assunto ficou ali." Mas afinal não.

O empresário foi construindo aos poucos a ideia de fundação que pretendia, afinal, uma que olhasse para "a humanidade e para o sofrimento dos outros", e sempre com a maior discrição e reserva, como "fazia parte do seu perfil", dizem-nos. E "talvez este seja o seu maior sucesso", admite o próprio filho, Luís Champalimaud, ao DN. Para a neta Inês, de 36 anos, que nasceu e com ele viveu até aos 9 anos no Brasil, não "há gesto maior de generosidade do que este", o que me faz ter muito "orgulho no meu avô".

Naquela tarde de 11 maio de 2004, na sala da casa da Lapa, estava também o advogado e amigo de longa data do empresário, Daniel Proença de Carvalho. Era o executor testamentário que de imediato informou a família que aquele gesto teria de ser comunicado ao Presidente da República e ao primeiro-ministro, na altura Jorge Sampaio e Durão Barroso. O que foi feito. Ambos vieram a público congratular-se com a decisão. A família decidiu enviar nessa mesma tarde um comunicado à agência Lusa a dar conta da vontade do pai e avô e de que iria cumprir o seu desejo. "Depois da leitura do testamento foi tudo muito rápido", recorda o filho Luís. No dia seguinte a notícia enchia páginas de jornais e era destaque em vários órgãos de comunicação social, tendo o seu gesto sido referido como "algo verdadeiramente incomum". Leonor Beleza confessava publicamente "ser uma grande honra ter sido escolhida por António Champalimaud e que tudo faria para corresponder às suas expectativas".

Na altura, diz ter sido apanhada de surpresa, mas depois percebeu que aquela ideia tinha algum tempo e até já lhe tinha sido transmitida pelo próprio durante um telefonema-relâmpago anos antes. "Apenas tinha estado pessoalmente uma vez com António Champalimaud, e num contexto de trabalho. Quando ele comprou o Banco Totta & Açores, eu era presidente do conselho fiscal, e ele convidou-me a ficar na mesma posição, e um dia fui almoçar a sua casa com as outras pessoas que estavam à frente do banco. Foi a única vez que o vi." Mas em 2000, recorda, recebeu um telefonema seu a perguntar-lhe se aceitaria ser presidente de uma fundação na área da saúde. "Disse-lhe que sim. Não pensei duas vezes. Há decisões que fazem sentido em segundos e de certa maneira ele estava a pedir-me que lhe respondesse naquela altura." E apesar de ter formulado "para mim própria a ideia de que não me ocuparia de novo do ponto de vista profissional com questões da saúde, vindo dele, um convite destes só poderia significar algo de muito especial e, por isso, foi absolutamente natural o dizer imediatamente que sim". Leonor Beleza, ex-ministra da Saúde no último governo de Cavaco Silva, ex-deputada do PSD, jurista de formação, relembra que na altura lhe pediu que lhe desse todas "as instruções adequadas sobre como quereria que eu viesse a fazer o que me estava a sugerir, coisa a que ele não acedeu". O passo seguinte só ficou a conhecer quatro anos depois no testamento que o empresário delineou com o seu advogado, Daniel Proença de Carvalho, que conhecia desde 1968, três anos depois de este se ter licenciado em Direito na Universidade de Coimbra, e que escolheu também, tal como outros nomes da sua confiança, para integrar o conselho de curadores da fundação.

Daniel Proença de Carvalho, hoje com 76 anos, começou a acompanhar o empresário quando se ocupou do processo que os próprios irmãos Sommer lhe moveram na justiça e que tinha por base um litígio de partilhas da herança do tio Henrique Sommer, que deixou quase tudo a António Champalimaud. O que parecia ser apenas uma querela entre irmãos acabou por se tornar num caso de justiça que durou 16 anos até ser resolvido. Ficou conhecido como o Caso Sommer e levou António Champalimaud a exilar-se no México, em 1969, quando soube que a polícia tinha emitido um mandado contra si. "Um processo que depois veio a provar-se ser injusto", comentou Proença de Carvalho. Mas foi quando este processo corria que teve a oportunidade de conhecer melhor o empresário. "Estive com ele durante três meses na Cidade do México. Estávamos lá praticamente sozinhos, almoçávamos e jantávamos juntos, e guardo desse tempo a recordação de um homem extremamente afável, inteligente, interessante e com uma disciplina férrea. Ele terminava o seu trabalho pelas seis ou sete da tarde e a partir daí não se falava mais de trabalho. Uma das coisas que ele criticava, às vezes até nos filhos, era o trabalharem de mais. Ele achava que era preciso ter também outra vida. Dizia que se a pessoa fosse disciplinada poderia conciliar trabalho, eficácia, divertimento e convivência." O advogado e amigo recorda que Champalimaud era um homem que defendia que "era preciso ter mundo". "Ele foi um homem do mundo, sempre viajou, da América Latina ao Japão, a África e a outros locais, e sempre a pensar no futuro. Se olharmos para o seu percurso, desde a II Guerra Mundial até 1975, do setor da indústria até ao mundo financeiro, é uma coisa impressionante. Ele construiu um grupo empresarial, perdeu tudo com as nacionalizações, retomou a sua vida no Brasil, veio a Portugal para recuperar algumas das suas empresas e ficou de novo com um grupo que melhorou e voltou a ter impacto. Foi sem dúvida uma pessoa que teve várias vidas."

Os mais de 30 anos de convivência levam-no a afirmar que só quem não o conhecia poderia pensar que a sua vida era baseada no dinheiro. "Ele era fundamentalmente um criador, um construtor de projetos. A sua vida não era uma vida por dinheiro. Nunca ninguém lhe viu fazer um negócio especulativo, poderia aparecer alguém a oferecer-lhe um negócio dizendo-lhe que em 24 horas ou num mês ganharia não sei quantas vezes mais o que investira que ele punha-o na rua. Isso era algo que estava fora de causa para ele." Uma frase que lhe é conhecida quando o questionaram porque pretendia vender o grupo financeiro, constituído por seguradoras e bancos, depois de o ter recuperado, é precisamente "tudo se compra e vende, menos a honra". E foi depois deste grande negócio, em 1999, que ficou com um património líquido que lhe permitiu pensar a sério na fundação que queria criar. Proença de Carvalho conta que foi nesta altura que lhe começou a falar do assunto, embora anos antes tivesse assistido a uma conversa entre ele e Ferrer Correia, presidente da Gulbenkian, entre 1993 e 1999, sobre fundações e o funcionamento destas, em que sentiu que "estaria ali com uma ideia, mas não tocou mais no assunto, até ao momento em que me disse que teríamos de preparar os estatutos". Quando o fez, já sabia o que queria. "Foi tudo delineado por ele", afirma, e "há dois aspetos que dizem muito da pessoa que era". Em primeiro lugar, o ter construído esta ideia e só a anunciar após a sua morte. "Podia tê-lo feito em vida, mas quem o conhecia sabia que isso não era dele, não o fez exatamente porque não quereria que um dia em vida se pudesse vangloriar desse gesto. Fê-lo de uma forma modesta, sem exibicionismos, coisa que detestava." Depois, o facto de ter dado à fundação o nome dos seus pais. "Foi um assunto que nem sequer permitiu que se discutisse quando começámos a tratar do projeto dos estatutos. Coloquei a questão por achar, com toda a franqueza, que o seu nome deveria estar nesta obra, pois tinha sido ele a pessoa que para ela tinha contribuído, com o seu trabalho, o seu esforço, com a sua enorme capacidade de generosidade, mas foi tema em que não permitiu qualquer discussão." Ele que, segundo nos contaram, tinha como estratégia diária provocar "a discussão", no bom sentido, para ver até onde os seus funcionários iam, no que lhe diziam, se tinham as suas opiniões bem fundamentadas. "Era assim que os conhecia, que sabia quem eram, não era o tipo de pessoa que achasse que os seus colaboradores tinham de lhe dizer aquilo que queria." Aliás. "se havia pessoas que detestava eram os yes men", assegura o advogado, que o define ainda como "uma pessoa que se questionava permanentemente, para melhorar sempre mais e mais o que fazia, era um perfecionista". Lembra momentos passados no México, quando estava de regresso a Portugal, e António Champalimaud lhe pedia para trazer algumas cartas. "Ele estava sempre quase até à hora de eu embarcar a corrigir as cartas que escrevera à mão, sempre para as melhorar. Era capaz de tomar uma decisão e passada meia hora dizer-me que ia fazer, mas que era desta maneira, no dia seguinte ligava a dizer que afinal era antes de outro modo, sempre com o intuito de atingir o que a sua mente lhe dizia estar perfeito. Por isso, penso que quando falou comigo sobre esta decisão já a ideia tinha sido bem amadurecida." Era um aspeto seu e muito marcante. "Nunca vi o António Champalimaud tomar decisões que não fossem muito amadurecidas, pensadas e repensadas. Era uma pessoa profundamente empenhada em tudo o que fazia." E o resultado está à vista, tanto acertou em vida no caminho que para si traçou como depois da morte. "Ele sabia escolher as pessoas, rodeou-se sempre de gente muito bem preparada, competente, por vezes, gente muito jovem, mas a quem atribuía responsabilidades elevadas, pois sabia terem capacidade para as assumir", diz o advogado. Foi isso, acredita, que aconteceu ao escolher o nome de Leonor Beleza para presidente da fundação. "Era uma pessoa com quem ele praticamente não tinha tido contacto, mas acompanhou o seu trajeto como ministra da Saúde, as vicissitudes por que passou com um processo na justiça, e considerava-a uma pessoa muito determinada, inteligente e corajosa, um pouco com as qualidades dele próprio. E achou que seria a pessoa indicada para levar a cabo esta sua decisão. Mais uma vez acertou. O projeto tem tido resultados notáveis."

António Champalimaud deixou em testamento quem queria na presidência, alguns nomes de pessoas que lhe eram muito próximas, como João Raposo Magalhães, Carlos Eugénio Correia da Silva, Pedro Abreu Loureiro, que era seu médico, António Travassos, para o conselho de curadores, e que o foco da fundação seria a investigação no campo da medicina, mas as áreas que hoje ali são investigadas, estudadas e tratadas já fazem parte dos desafios que a equipa em quem confiou traçou para si própria. Um trabalho que Leonor Beleza confessou ao DN ser resultado de muitas diligências e contactos com pessoas para tentar perceber quem era este homem e o que podia fazer para tentar "responder ao que pretendia de mim. O critério fundamental foi, em primeiro lugar, tentar perceber como é que ele olhava para as coisas e tomaria as decisões". "Não sou profissional de saúde nem tão-pouco investigadora científica, precisava de muita informação, de dados, para poder tomar decisões de forma segura e que pudesse explicar às pessoas porque eram aquelas e não outras." Mas o que mais a ajudou, confessa, foram os contactos que teve com grandes cientistas que a aconselharam a "não se conter na ambição", que a desafiaram a criar uma instituição que "pudesse ombrear com as melhores do mundo", o que foi muito marcante para o percurso que têm vindo a fazer.

Foi assim que chegaram às duas áreas científicas que consideraram em que valeria a pena investir ou "porque estavam perto de progressos que poderiam estimular ainda mais" ou porque "eram áreas que ainda estavam muito ligadas ao sofrimento dos doentes, das famílias, da comunidade". "A combinação destes dois aspetos permitiu pensar onde investir para chegar a descobertas essenciais que diminuíssem o sofrimento, o que nos levou até às neurociências e ao cancro", explica Leonor Beleza.

"A prova de que acertámos", refere Leonor Beleza, "é que posteriormente a nós outras instituições dos EUA, do Japão, da Coreia e a própria União Europeia viriam a escolher o cérebro como objeto de estudo e de grande investimento para se fazer avançar o conhecimento. As doenças neurodegenerativas estão a aumentar no mundo inteiro, como estão as depressões e outras doenças nesta área. E vão aumentar ainda mais, o que tem muito que ver com o mundo em que vivemos, em que nos estamos a transformar e em que temos de pensar. O mesmo acontece com o cancro, cuja incidência aumentou, entre muitos fatores, pelo puro efeito do envelhecimento. A ciência e o conhecimento avançaram muito nesta área, mas ainda há muito a fazer, o que do ponto de vista científico é muito aliciante."

Depois do testamento aberto, bastaram dois anos para se constituir equipas, definir linhas, estratégias, o local onde iria nascer e recrutar pessoas, para anunciar que estava tudo a postos para começar a funcionar. Foi a 6 de junho de 2006, numa cerimónia que reuniu a presidente da fundação, Daniel Proença de Carvalho, a família e o Presidente da República Jorge Sampaio. Um ano depois, em 2007, a fundação atribuía pela primeira vez o Prémio Visão Champalimaud a projetos de investigação que se destacassem. A equipa de investigadores começava a trabalhar numa instituição de acolhimento, no Instituto Gulbenkian da Ciência, para, em 2010, se instalar no Centro Champalimaud, à beira-rio, em Belém. "Conseguimos o melhor local do mundo", diz Proença de Carvalho, apesar de este não ter sido o primeiro lugar pensado para a construção do espaço. "Pensámos que poderia ser na Quinta da Marinha", cujos terrenos fazem parte da herança da família. Em dez anos, a instituição conseguiu o reconhecimento internacional, mas o desafio permanente, para Leonor Beleza, "é o querermos estar sempre na linha daqueles que procuram incessantemente que o cancro deixe de ser uma grande ameaça e que as grandes áreas do desconhecimento sobre o que é o nosso cérebro e como ele funciona vão sendo desvendadas".

António Champalimaud faria hoje 100 anos. Foi um empresário empreendedor, uma figura polémica, mas quem o conheceu diz que foi sobretudo um criador, sem sentimentos saudosistas ou amarguras pelas vicissitudes da vida. Teve várias vidas, dizem-nos, mas sempre as viveu "com entusiasmo", sabedoria e uma "engenhosidade" que lhe eram próprias. O filho mais novo, Luís, diz tê-lo visto fazer operações comerciais com grande subtileza e inteligência rara, precisamente porque gostava do desafio. Era assim também na sua vida, gostava de fazer tudo aquilo que poderia não ser politicamente correto e que o desafiavam. "Adorava andar de moto, pilotar, andar de barco. Era um homem informado, "lia todos os jornais, às vezes, desde o Financial Times ao Herald Tribune, que muitas vezes lhe chegavam à fazenda, no Brasil, com uma semana de atraso". Por isso, tem dificuldade em defini-lo numa só palavra, "era tanta coisa... mas acima de tudo uma pessoa extremamente carinhosa, o que muitos não sabem, e sempre preocupado com a família".