"Só me lembro das chamas, mãe, eram tão vivas". Como as crianças lidaram com a tragédia

Para eles, as chamas serão sempre uma memória estrutural. 14% das crianças que vivem nos concelhos afetados pelos incêndios sofrem perturbações psicológicas. História de um problema graúdo, visto pelos miúdos de Castanheira de Pera

Ricardo J. Rodrigues
 | foto Rui Oliveira / Global Imagens
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Catarina Medeiros é a psicóloga clínica que tem rastreado as perturbações psicológicas nas crianças em Castanheira de Pêra | foto Rui Oliveira / Global Imagens

Em novembro do ano passado, houve um rapaz que acionou o alarme de incêndio da escola primária de Castanheira de Pera. Fogo não havia nenhum - era apenas curiosidade e traquinice de um miúdo de 8 anos. A professora Lília Sousa virou-se para a turma do 3.º ano e avisou: "Meninos, vamos sair ordeiramente e com calma para o recreio."

A maioria das crianças levantou-se, abandonou ordeiramente a sala e desceu a escadaria até ao piso térreo. Alguns, no entanto, enregelaram. "Gritavam que havia fogo outra vez e começaram a chorar. Estavam em pânico." A voz embarga-se-lhe. "Ainda bem que não era nada."

De vez em quando há isto. Uma criança que faz um desenho da sua casa a arder, a repetição exaustiva da história que viveram naquele 17 de junho, as conversas uns com os outros sobre os funerais dos pais, dos amigos dos pais, dos pais dos amigos.

A professora Lília vai buscar o manual de um aluno. Há um exercício que pede aos alunos que expliquem o que é poesia e um deles responde que é nunca mais haver fogo como o de Pedrógão Grande. Suspiro, uma pausa, apanhar com um texto destes sem aviso é sempre uma bofetada. "Este é um momento que ficará com eles para sempre, eu diria que para todos será uma das memórias mais vívidas de infância. E não devia ser isto, pois não? Não devia ser esta tristeza toda."

Em janeiro deste ano, a Fundação Calouste Gulbenkian financiou um programa inédito de rastreio de stress pós-traumático nas escolas de seis concelhos afetados pelos fogos: Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos e Pedrógão Grande, claro, mas também Góis, Pampilhosa da Serra e Sertã.

"Não queremos individualizar os resultados de cada município, mas claro que há mais afetação nos lugares onde o incêndio foi mais forte", diz Diogo Simões Pereira, secretário-geral dos Empresários pela Inclusão Social (EPIS) - que promoveu o estudo no terreno com uma equipa de sete psicólogos clínicos da Universidade de Coimbra.

De um universo total de 2557 alunos entre os 6 e os 18 anos, os encarregados de educação autorizaram o rastreio de quase dois mil. "A verdade é que 14% das crianças apresentam algum tipo de perturbação psicológica e 7,9% têm sintomas de perturbações de stress pós-traumático." Com a chegada do verão, da época das trovoadas e dos fogos florestais, diz o líder da EPIS, o número pode aumentar.

Ver o diabo

"Aquilo era o caminho do diabo", diz Francisco, 7 anos, quando se lembra do momento em que atravessou pela primeira vez a Nacional 236-1 - a infame estrada da morte onde se perderam 47 vidas num troço de 500 metros - depois do incêndio. Aconteceu um par de dias depois do incêndio, quando a mãe do rapaz, Maria Pereira, foi ver os terrenos de família que se tinham perdido para o fogo.

"Tentei sempre desdramatizar ao máximo o que aconteceu a 17 de junho, mas quando passámos naquela estrada, quando começámos a ouvir a história de que tinha morrido este, de que tinha morrido aquele, pensei no impacto que tudo isto ia ter no meu filho", diz. Hoje, quando regressa às mesmas terras queimadas, vai perguntando ao rapaz se ele ainda pensa muito no fogo.

"Só me lembro das chamas, mãe, eram tão vivas. E das explosões, também me lembro muito das explosões. Pum, pum, pum." No início do ano letivo, Francisco começou a receber apoio psicológico na escola. Tinha dificuldades de concentração, o rendimento estava a baixar, não conseguia expressar-se com clareza.

"As psicólogas têm sido essenciais para o meu filho. O meu maior receio neste momento é que o Ministério da Educação regresse aos parâmetros normais e miúdos como o Francisco fiquem desacompanhados." No início do ano letivo, o agrupamento escolar de Castanheira de Pera, que tinha apenas uma psicóloga a meio tempo, foi reforçado com duas profissionais a tempo exclusivo. "Não fazemos qualquer ideia se cá estaremos no próximo ano", dizem agora Margarida Almeida e Cláudia Oliveira.

Cada uma delas está a acompanhar uma vintena de alunos e dizem que, abandoná-los agora seria abandonar um processo terapêutico a meio. O diretor do agrupamento, António Alves, tem um ponto de vista bastante claro: "Não me passa pela cabeça que este apoio seja interrompido. Tivemos aqui crianças a perder familiares ou a verem familiares ficar gravemente feridos. Houve até alguns que tiveram eles próprios de lutar para sobreviver ao fogo."

Os casos mais traumáticos são acompanhados pelos psicólogos do centro de saúde. "Mas não só as crianças precisam de ajuda. Os próprios professores precisam de apoio para encontrar ferramentas de apoio às crianças que estão mais vulneráveis", diz o professor Alves. Ao longo do ano, realizaram-se várias ações de formação sobre como lidar com o trauma na infância. Para professores e para encarregados de educação."

Um ano atípico

O agrupamento escolar Bissaya Barreto é constituído por três núcleos e alberga 238 alunos, do pré-escolar ao 9.º ano. Tem duas unidades modernas, a escola primária e o jardim-de-infância, construídos em 2010, e tem a EB 2.3 de Castanheira, um edifício de 1968 onde as salas ficam gélidas no inverno. "Neste ano, pela primeira vez, ninguém se queixou do frio", diz a professora Fernanda Pais, que tem mais de 30 anos de casa.

É ela que lidera o Clube do Ambiente, onde 13 alunos exploram temas ambientais no horário extracurricular. No dia do incêndio, tinha vindo com um grupo de uma visita aos passadiços do Paiva. "Depois veio o fogo e a aflição de saber se os alunos estavam bem." O incêndio aconteceu um dia depois do fim das aulas. Só se respirou de alívio em setembro.

Neste ano, o Clube do Ambiente está com um problema. "A maior parte das nossas atividades era fazer caminhadas na natureza. Mas o que hei de eu fazer com os miúdos se está tudo ardido?" Olga Henriques, educadora do jardim-infantil, concorda: há menos saídas para o campo. "Este é um ano muito fora do comum."

O corpo docente do agrupamento tem reforçado a atenção sobre os alunos. "Batemos palmas quando eles fazem bem as coisas, tentamos reforçá-los positivamente, damos mais abraços. Estamos menos preocupados com os currículos e mais com o apoio afetivo", diz Olga.

Por outro lado relativizam a atenção que chega de fora. "A escola recebeu muitos brinquedos, as crianças têm convites para ir a Lisboa, para assistir a jogos de futebol. E é muito importante saber gerir isso tudo", diz Catarina Medeiros, psicóloga clínica do Centro de Investigação em Neuropsicologia e Intervenção Cognitiva-Comportamental da Universidade de Coimbra.

Catarina é a responsável pelo rastreio das perturbações psicológicas em Castanheira de Pera. Conseguiu que mais de 90% das crianças do concelho fossem despistadas. "Isolamento, insistência em falar dos mesmos episódios, voltar a dormir na cama dos pais depois de esse hábito estar perdido, aumento dos conflitos são normalmente sinais bastante óbvios de um potencial trauma."

Depois do diagnóstico, tem de vir o tratamento. "Agora passamos à segunda fase, a do diagnóstico rigoroso para que se possa avançar para uma terapêutica." A psicóloga sabe que poderão surgir novos problemas neste verão e ficará, como todos os profissionais da EPIS, em campo até setembro. A partir daí, a vida continua. Nenhum destes miúdos poderá esquecer o fogo da sua infância. Uma catástrofe é uma catástrofe e tem efeitos. A única coisa que as crianças podem fazer é saber crescer com ela.