O colégio de Fátima onde "cada aluno é especial"

O Colégio de São Miguel ocupa o primeiro lugar no ranking das escolas que mais fazem pela progressão dos alunos. Pertence à Diocese de Leiria-Fátima há 55 anos e pela primeira vez o diretor não é um padre.

Paula Sofia Luz
Colégio de São Miguel© Rui Miguel Pedrosa / Global Imagens

Quando a notícia chegou aos ouvidos do diretor, na semana passada, no Colégio São Miguel, em Fátima, ninguém deu por nada. Manuel Lourenço, sociólogo, pós-graduado em Estatística e Gestão da Informação, fez uso dela com toda a descrição. Sabia que entretanto os media iam bater-lhe à porta, por isso foi avisando pais, alunos e funcionários de que "o colégio estava bem classificado". Mas guardou para si o segredo que só hoje é publicado: aos olhos desse instrumento que avalia o que a escola faz pela progressão dos alunos, o Colégio São Miguel é o primeiro.

"Isto tem que ver com tudo o que o Colégio é, com a identificação do nosso projeto educativo. É um resultado que nos mostra como o nosso projeto está adequado às necessidades de cada uma das pessoas aqui", diz ao DN o diretor, o primeiro na história do São Miguel que não é padre. Chegou ali em junho, numa altura em que já se mudara do Porto para Fátima, pois que lhe coube a direção artística e protocolar do programa das comemorações do centenário das aparições.

Natural de uma aldeia do concelho de Baião, Manuel Lourenço deixou no Norte uma carreira já ligada ao ensino, no Colégio Alemão. Uma realidade bem diferente daquela que veio encontrar no São Miguel, onde o ensino é gratuito. "Aqui ninguém paga nada", sublinha. Porque desde a década de 1980 que o conceituado colégio de Fátima beneficia de contrato de associação.

Atualmente são 1125 alunos que frequentam aquele conjunto de edifícios, equipados com campos, pavilhões e até uma piscina. O diretor lembra que, desses, "10% são alunos com necessidades educativas especiais ou institucionalizados".

As instalações são cuidadas, os jardins também. Não há luxos, mas estão todos os materiais e equipamentos necessários para um bom desempenho dos alunos e dos 70 professores. O selo de qualidade do ensino é conhecido na região, e por isso não raras vezes batem à porta do colégio famílias de todo o concelho, ou até de Leiria.

Acontece que as regras do Estado são claras, e por isso o São Miguel está vedado a todos os que não sejam naturais da freguesia de Fátima ou filhos de pais que ali trabalhem. Manuel Lourenço está convicto de que o corte de 50% que o Colégio sofreu, na atribuição de turmas, resulta num prejuízo sobretudo para a população. "Esse número é insuficiente para as necessidades. Por isso acredito que a situação será revista e adaptada", sublinha o diretor, que, embora não questione a revisão da rede que conduziu à decisão, lembra que em Fátima não existe oferta pública. E foi esse vazio que abriu espaço aos privados e/ou com contrato de associação. Além do São Miguel existe também o Centro de Estudos de Fátima (CEF), com oferta até ao 12.º ano.

Fundado em 1962, o Colégio São Miguel é propriedade da Diocese de Leiria-Fátima, e por isso o diretor lembra que aquela é, antes de mais, uma escola católica. Ainda assim, Manuel Lourenço frisa o respeito e a convivência com outras religiões: "Temos alunos de oito nacionalidades, alguns muçulmanos, filhos de refugiados, por exemplo. Aqui vemos cada aluno como um indivíduo especial, com múltiplas dimensões, que procuramos alcançar de forma equilibrada - a formação intelectual, física, moral, espiritual, artística, criativa, afetiva também. Cada aluno interessa-nos em todas essas dimensões e é por isso que os resultados aparecem", acrescenta o responsável. Há uma filosofia que a direção tenta aplicar, dentro e fora das salas de aula. "Chama-se rigor, trabalho, disciplina e exigência."

A oferta formativa vai desde o 2.º ciclo ao ensino secundário, das Ciências e Tecnologias às Línguas e Humanidades, a que se juntam cursos tecnológicos com planos próprios: Ação Social, Contabilidade e Gestão, Atividade Física e Desporto Adaptados, Informática, Design, Cerâmica e Escultura. Não admira que os diversos edifícios que compõem o Colégio estejam decorados com todo o tipo de instalações artísticas feitas pelos alunos. Afinal, é também esse entusiasmo que contribui para a liderança no ranking.