Neta do Soldado Milhões: "Muitos franceses não sabem que fomos seus aliados" 

Dezenas de emigrantes juntaram-se na Avenida dos Portugueses para assistir à cerimónia do centenário da Batalha de La Lys

João Francisco Guerreiro
 | foto Mário Cruz/Lusa
A neta e a bisneta do Soldado Milhões na cerimónia, em Paris | foto João Francisco Guerreiro
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Discreta, entre tantos, Lurdes quase passaria despercebida, não houvesse ali quem a conhecesse e gritasse, quando a comitiva passou: "Ela é a neta do Milhões." Só assim se percebeu quem era aquela mulher que estava ali para "ver a cerimónia e pela memória do avô".

Lurdes Milhões é neta de Aníbal Augusto Milhais, o português que ficou na história da Primeira Guerra Mundial, pela bravura enquanto soldado, que lhe valeu uma alcunha que se tornou um nome de família para todos os seus descendentes.

Emigrada "há 30 anos", Lurdes Milhões gostaria que o centenário da Batalha de La Lys, que se assinala hoje, e a presença do Presidente e do primeiro-ministro servissem "para que os franceses soubessem que combatemos ao lado deles e fomos aliados. Muitos não sabem isso, por isso é bom que o presidente francês receba o Presidente português, para avivar essa memória". Na Avenida dos Portugueses, assim batizada em 1918 como uma homenagem francesa à bravura lusitana na Grande Guerra, Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa descerraram uma placa a marcar a passagem do centenário da batalha. Na cerimónia em que se assinala a data de uma notável derrota das tropas portuguesas, o Presidente evocou "a força" capaz de conduzir a vitórias em "momentos difíceis".

"Todos juntos, como sempre, ultrapassando aquilo que é menor e é secundário. Juntos no essencial. E o essencial, hoje, é evocar os melhores de todos nós que se bateram, há cem anos, por Portugal e pela França", disse o Presidente, sublinhando que a cerimónia serviu também para "evocar a nossa amizade, mas também a nossa força, porque somos fortes - no nosso território e fora do nosso território".

"[Somos] fortes mesmo nos momentos mais difíceis [e] acabamos por vencer sempre. Todos os que aqui estão - e muitos mais -, sois todos vencedores", frisou Marcelo Rebelo de Sousa, que falava ao lado de António Costa. Marcelo agradeceu a presença de várias dezenas de portugueses, representantes de "muitos milhares ou até mesmo mais de um milhão - um milhão e meio - de portugueses e seus descendentes, que são também franceses, mas sem nunca esquecerem as próprias raízes".

Celorico em Paris

Celorico de Basto "é uma terra tão pequena e saíram de lá cinco combatentes" para o pântano de Pas-de-Calais, no Norte de França. Regressaram os cinco, em 1918. "Nenhum morreu na guerra. Um deles era o Zé Lopes, o meu avô", conta o neto, que herdou o nome do antigo combatente. José Lopes, o neto, emigrou para França "a salto", em 1974, ainda sem saber o rumo que o país havia de tomar em abril. "Não queria fugir ao ultramar, mas sim juntar dinheiro, para ter algum quando fosse para a guerra." Marcelo talvez não tenha reparado na placa que o emigrante exibia ontem com o brasão da terra do Presidente e uma frase em "honra aos nossos soldados, mortos pela França".