Não, senhor primeiro-ministro, a esquerda teria ido mais além

Costa disse que se BE e PCP estivessem no seu lugar fariam o mesmo. Catarina Martins recusou essa ideia. "Ambiente de tensão" à esquerda explica-se pelas autárquicas e OE

Miguel Marujo
BE e PCP "sentem que haverá alguma folga orçamental e estão a criar um ambiente de tensão para poder retirar dividendos no OE"

Às palavras do primeiro-ministro, António Costa, na entrevista de ontem ao DN, Catarina Martins recusou que BE (e PCP) tivessem feito só o mesmo que o governo socialista fez até agora - e vai aos números que têm feito os dias felizes do ministro das Finanças para o defender.

"Os próprios dados da economia e da execução orçamental do ano passado mostram que podíamos ter ido mais longe", disse ontem a coordenadora bloquista, numa ação de pré-campanha para as autárquicas, em Santarém, quando questionada pelos jornalistas. E desenvolveu o seu raciocínio: "Ficou a faltar investimento em tanta coisa e, de facto, gastámos menos do que poderíamos ter gasto nos setores essenciais e as contas da execução orçamental mostram-no."

Na caravana comunista, não houve resposta direta a Costa, mas não faltaram dedos apontados ao que os socialistas não queriam fazer e ao que ainda se pode fazer mais. Que é como quem diz: não, senhor primeiro-ministro, também o PCP teria ido mais além.

Segundo o secretário-geral comunista, Jerónimo de Sousa, PS e BE "admitiam o descongelamento [de pensões e reformas], mas não perspetivavam qualquer aumento". Foi "a CDU" que "agarrou na matéria, persistiu e em agosto cerca de dois milhões de reformados viram a suas reformas aumentadas em dez euros", disse em Castro Verde. E é também a CDU (PCP-PEV) que quer "agora" alargar os manuais gratuitos à "escolaridade obrigatória". E já avisou: "O Orçamento do Estado para 2018 é uma oportunidade para fazer esse caminho."

É este contexto - eleições autárquicas e orçamento - que ajuda a explicar a atual retórica, aparentemente mais dura, dos parceiros que apoiam o governo de António Costa no Parlamento, segundo a politóloga Marina Costa Lobo.

Com "indicadores económicos" que mostram que Portugal está numa situação "completamente diferente" daquela em que estava nas anteriores negociações de Orçamentos pela geringonça, BE e PCP "sentem que haverá alguma folga orçamental e estão a criar um ambiente de tensão para poder retirar dividendos disso na negociação para o Orçamento para 2018", apontou Marina Costa Lobo.

"Aliado a isto estão as autárquicas também", acrescentou a investigadora principal do Instituto de Ciências Sociais (ICS) de Lisboa. Para Marina Costa Lobo, bloquistas e comunistas procuram autonomizar-se e "mostrar que votar no PS ou votar no BE e no PCP não é a mesma coisa". "Estes dois acontecimentos, que estão no horizonte, estão a condicionar o discurso dos parceiros mais pequenos. As autárquicas, embora não sejam eleições nacionais, são muito importantes, mais para o PCP do que para o BE, e é um teste à resiliência do voto do PCP", notou. Trata-se afinal do "primeiro teste eleitoral, depois da composição deste governo e da sua tomada de posse" e do apoio da geringonça.

Para Marina Costa Lobo, é "totalmente" prematuro antecipar o fim da geringonça, para lá de 2019, quando se realizarem as eleições legislativas. "A morte da geringonça já foi muitas vezes anunciada, não parece que seja agora, neste período tão positivo economicamente."

O tempo é antes de forçar "mais concessões do governo", "retirar dividendos desta geringonça", notou a politóloga. "Vamos ver em que medida Mário Centeno e o primeiro-ministro conseguem continuar o caminho de défice controlado. Esse é que é o jogo agora." Ou, como disse ontem o líder do PSD, Passos Coelho, citando Cavaco Silva, "a realidade acaba por derrotar sempre a ideologia". E o governo terá de seguir o caminho do "equilíbrio".