Marisa fecha com ambição: "Na segunda-feira continuamos"

Candidata recusa atirar a toalha ao chão e aponta à segunda volta. "É apenas a primeira parte do caminho, cá estaremos para mais três semanas"

Octávio Lousada Oliveira
Marisa Marias recebe um ramo de cravos vermelhos de um apoiante, no Porto© JOSÉ COELHO/LUSA

"Na segunda-feira continuamos." Foi desta forma, perentória, assertiva e ambiciosa, que Marisa Matias fechou a sua campanha para as eleições presidenciais. A candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda (BE) recusa votar ao esquecimento a ideia de que não haverá segunda volta na corrida a Belém.

Ao som de "People have the power", tema de Patti Smith, a eurodeputada abriu dizendo ao que ia no último discurso destas duas semanas de estrada. Agradecendo o esforço dos 500 presentes no Pavilhão dos Olivais, em Coimbra, e dos demais apoiantes atirou que a votação de domingo "é apenas a primeira parte do caminho". "Cá estaremos para mais três semanas", afirmou, projetando novamente a sua presença na segunda volta das presidenciais.

Numa noite em que foi antecedida pelo deputado e vice-presidente da Assembleia da República José Manuel Pureza, pelo mandatário nacional, António Capelo, e pela porta-voz nacional do BE, Catarina Martins, Marisa ensaiou um novo apelo à mobilização e vincou que espera que os portugueses "saiam da solidão da cabine de voto com o orgulho de quem fez uma escolha livre e independente".

Estava feito o piscar de olho aos potenciais abstencionistas e aos indecisos, tendo a candidata notado ainda que prefere deixar rolar o jogo democrático. "A democracia decidirá, cá estarei por ela"; acrescentou Marisa, que jogava "em casa" - é natural de Alcouce, pertencente ao distrito de Coimbra.

Num discurso de 15 minutos que visou mais galvanizar as tropas do que propriamente causar mossa nos adversários na corrida à sucessão de Cavaco Silva, Marisa referiu que não se engana quanto ao "inimigo". Ou, melhor, os inimigos: a precariedade, a pobreza, "quem abusou, explorou e enganou". E disse bater-se por uma "democracia que abrange em vez de excluir."

Aliás, as despesas dos ataques a Marcelo ficaram a cargo da líder do BE. Catarina Martins enfatizou que as presidenciais não podem redundar apenas na escolha de um "comentador de TV", que defende "uma coisa e o seu contrário" - e ainda usou as posições sobre o BES e o Banif do candidato apoiado por PSD e CDS como armas de arremesso -, que "ainda hoje enquanto penteava uma cabeleireira dizer que o Orçamento do Estado será bom se a direita também o puder pentear" - encostando Marcelo a um lugar onde o próprio recusa estar. Marisa, sublinhou em sentido contrário a porta-voz bloquista, "obrigou a pôr política, escolhas e clareza" nas presidenciais.

No entanto, a própria candidata não fugiu ao remoque que foi constante durante a campanha, embora com um embrulho diferente. Considerando que "Carlos Costa e os ministros do PSD e CDS custaram a Portugal dez mil milhões de euros aos portugueses só em aventuras bancárias", não deixou de lamentar - e puxar dos galões - que todos os outros candidatos à Presidência tivessem dito que promulgaria o Orçamento Retificativo de 2015 - com os 2255 milhões de euros canalizados para o Banif.

Porém, nem o Executivo de António Costa saiu incólume. Ancorada na notícia do semanário Expresso de que o BCE impôs ao Governo a venda do banco ao Santander, apontou o dedo às autoridades portuguesas por "aceitarem tudo". "O Banco de Portugal negociou, o Governo cedeu. Eu digo que não, eu não tenho medo, eu não desisto", contrapôs.

Com o sistema bancário na mira, aproveitou a embalagem para alfinetar Marcelo Rebelo de Sousa. "Se há coisa que me distingue dos outros são as companhias." E o resto do discurso é história. No domingo há mais. E segunda?