Marcelo fala ao país no dia 1 já fora do hospital. Por agora, este é o seu gabinete

Hoje é divulgado o novo boletim clínico do Presidente da República, depois de uma cirurgia a hérnia umbilical. Chefe do Estado estava ontem bem disposto e a trabalhar no quarto do Curry Cabral

Miguel Marujo
© JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Hoje haverá novo boletim clínico e dia 1 haverá mensagem de Ano Novo do Presidente da República. Para já são estas as duas certezas sobre os próximos dias de Marcelo Rebelo de Sousa.

Mais do que isto, será pouco avisado escrever: mandam os médicos que o Chefe de Estado descanse, mas também manda a irrequietude do Presidente da República que pode haver algum imprevisto - ou não tivesse sido anunciado ontem que Marcelo, na noite de quinta-feira à noite, promulgou quatro diplomas da cama do hospital, horas depois da cirurgia à hérnia umbilical.

Com a agenda cancelada até ao primeiro dia do ano - incluindo as deslocações previstas para 31 de dezembro e 1 de janeiro, para a passagem de ano nas regiões afetadas pelos incêndios de outubro - Marcelo Rebelo de Sousa dirige-se ao país na tradicional mensagem de Ano Novo do Presidente, provavelmente gravada. Não se sabe ainda onde.

Estas incógnitas logísticas devem depender do tempo de recuperação do Chefe do Estado. Quem o visitou ontem - desde as principais figuras do Estado ao cardeal patriarca - encontrou-o bem disposto. O boletim clínico, publicado no site da Presidência da República, também sublinhava a boa disposição. "Passou uma noite tranquila e acordou muito bem disposto com os parâmetros vitais completamente normais", sinalizou o texto assinado pelo cirurgião Eduardo Barroso, que operou Marcelo Rebelo de Sousa no Hospital Curry Cabral, em Lisboa. O "pós-operatório está a decorrer sem problemas, prevendo-se que possa ter alta antes da passagem de ano", ou seja, até domingo.

Na véspera, depois da cirurgia, Eduardo Barroso tinha admitido que essa alta podia ser antecipada, dizendo entre sorrisos que dependeria "da pressão que ele" fizesse. "Se ele quiser ir mais cedo para casa, posso ir vê-lo a casa", afirmava aos jornalistas aquele que também é seu amigo. Mas o boletim clínico de ontem sublinhava que a alta do Presidente da República dependerá "da evolução do pós-operatório".

O presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, encontrou Marcelo Rebelo de Sousa "a trabalhar", com o quarto do hospital a fazer as vezes do gabinete. "Aquilo que é mais urgente ser lido, ele lê. Aquilo que é mais urgente ser assinado, ele assina. Está a trabalhar, só que o gabinete dele agora é ali, naquele quarto."

Apesar de acamado, o Chefe do Estado continua "muito bem informado", "bem disposto" e "com sentido de humor", como explicou Ferro Rodrigues, citado pela agência Lusa. E o presidente do Parlamento deixou a garantia de que o Chefe do Estado está "no pleno gozo das suas obrigações como Presidente da República".

Também por isso não houve lugar à substituição da primeira figura do Estado, como aconteceu em julho de 1996 com Jorge Sampaio. Nessa altura, o então Presidente foi operado a um prolapso da válvula mitral e apesar da cirurgia ao coração ser considerada de rotina e não apresentar praticamente riscos, Sampaio optou por pedir ao Tribunal Constitucional que reconhecesse o seu impedimento para o exercício do cargo, assumindo então o presidente do Parlamento, António de Almeida Santos, o cargo de Presidente da República interino.

Desta vez, não foi esse o entendimento. "Não fazia sentido. Isto é um bocadinho mais grave do que ir ao dentista, mas não é muito mais grave", justificou Ferro Rodrigues.

Já António Costa disse que não foi ao hospital para "incomodar o Presidente com trabalho", nomeadamente sobre a polémica pós-natalícia do financiamento dos partidos. não tendo falado sobre este assunto, pelo menos não "a sério": "Falar a sério, não, ninguém vem incomodar uma pessoa que foi operada há menos de 24 horas com assuntos de trabalho, seria absolutamente inoportuno."

O cardeal patriarca de Lisboa. D. Manuel Clemente, encontrou Marcelo "muito sereno e com muita vontade de recuperar as suas atividades, quando puder ser, mas agora é tempo de recuperar da operação a que foi submetido, e que graças a Deus correu bem".

Manuel Clemente visitou o Presidente por sua iniciativa e pela "amizade e estima" que tem. O bispo de Lisboa disse que compete a Marcelo ver se tem de abrandar o seu ritmo. "Ele tem serenidade por dentro e nestes momentos vem ao de cima", disse.