Luís Montenegro assume-se como reserva para o futuro

Antigo líder social-democrata surpreendeu o PSD ao anunciar que renuncia ao mandato de deputado. E atacou Rui Rio. Críticos insistem no erro de fazer acordos com o PS

João Pedro HenriquesPaula Sá
© MIGUEL A. LOPES/LUSA

A surpresa do 37.º congresso do PSD chegou a meio da tarde de ontem. O antigo líder parlamentar Luís Montenegro subiu à tribuna para anunciar a renúncia ao mandato de deputado e avisar que no futuro poderá pensar na liderança do partido. E tudo isto mesclado por um ataque direto a Rui Rio.

A intervenção de Montenegro, pela forma e o conteúdo, ofuscou a dos que ainda levantaram a voz para questionar a estratégia política de Rio. Mais nenhum ousou perfilar-se como potencial candidato à liderança... após 2019, é claro. Miguel Pinto Luz e Hugo Soares limitaram-se a marcar terreno, porque até os argumentos que traziam no bolso para criticar a nova liderança Montenegro condensou-os numa crítica feroz ao governo e à possibilidade de entendimentos com o PS. E de longe foi o mais ovacionado de todos os oradores de ontem.

Num clima que apontava para a união - quase todos os órgãos nacionais subscritos por Rui Rio e Santana Lopes - foi uma verdadeira surpresa o anúncio de Montenegro que abandona o Parlamento no dia 5 de abril, 16 anos depois de ter tomado posse como deputado. "Conhecem a minha convicção e a minha determinação, se for preciso estar cá, eu cá estarei, para o que der e vier, sem receio de nada e sem estar por conta de ninguém, sou totalmente livre", afirmou perante o 37.º Congresso do PSD.

"Desta vez decidi não, se algum dia entender dizer sim, já sabem que não vou pedir licença a ninguém", afirmou. Montenegro passou parte da sua intervenção a explicar como será a sua relação com a nova direção e liderança do partido - ele que apoiou Pedro Santana Lopes. "É tempo de nos deixarmos de guerras artificiais. Não sou, não quero e não vou ser oposição interna a Rui Rio. Eu sou e continuarei a ser oposição a Costa, Catarina e Jerónimo."

Mas para quem não quer ser oposição interna, o ataque a Rio foi duro, embora nunca explícito. Foi dirigido aos que o acusam de "falta de coragem" e de "taticismo" por não ter avançado na corrida à liderança do PSD, quando "não fui eu que estive à espera entre desejos alternantes de ser primeiro-ministro e Presidente da República". E quanto a "selos de calculismo alguém deve ter a caderneta cheia".

Depois quer dar espaço a Rio para que prove o que vale na oposição. "Eu sei que Rui Rio é forte, eu confio em si", garantiu. Dizendo também que irá "sempre ajudar o PSD" na batalha para vencer as próximas legislativas. Até porque considera errado entrar pelo caminho das aproximações ao PS, o que classificou de "logro". "Imaginarmos que podemos ser um apêndice deste partido socialista bloquista é um suicídio politico."

Assim, prometeu que estará "ao lado" de Rio a "combater o neossocialismo bloquista", embora, reconheceu, seja "justo dizer" que este é um combate "particularmente difícil de vencer".

Seguiram esta linha de pensamento Miguel Pinto Luz, ex-presidente da distrital de Lisboa do PSD, que antes do congresso já tinha desafiado Rio a clarificar que consensos defende, e Hugo Soares, o líder parlamentar cessante que não tem a confiança do novo presidente para continuar a comandar os deputados sociais-democratas. Hugo Soares reclamou novamente do novo líder um "não" adiantado ao Orçamento do Estado para 2019.

Os apelos bateram contra a parede. De tal maneira que Nuno Morais Sarmento, que esteve desde a primeira hora com Rio e integra agora o seu núcleo duro político, lançou do Centro de Congressos de Lisboa um apelo ao Presidente da República para que patrocine os acordos de regime alargados para que se deixe de falar do "centrão".

Rui Rio também não desarmou e, à margem dos trabalhos do congresso, em entrevista à Antena 1, admitiu que até às legislativas de 2019 não haverá tempo para implementar as "reformas do regime" que quer promover (do sistema político, do Estado e da justiça, foram os exemplos que deu). Contudo, acrescentou que haverá até lá tempo "para se assinarem declarações de intenções", tendo estas necessariamente de passar por "consensos alargados".

Um dos discursos mais esperados foi o de Pedro Santana Lopes, mas só aconteceu a roçar a meia--noite. O adversário de Rio afirmou que foi "natural" o entendimento com o opositor para a constituição das listas e órgãos nacionais, com "sentido de responsabilidade".

"Somos um partido só, com um só presidente, a Rui Rio cabe a legitimidade plena para liderar", afirmou. "Tive dúvidas sobre a possibilidade de entendimentos com o PS no final da legislatura sobre as reformas, mas ele tem vontade política". Santana quis ainda fazer um apelo ao partido para estar atento às políticas sociais, pois "têm de estar permanentemente na nossa agenda". À hora de fecho desta edição ainda discursava ao congresso.