Investigação inovadora para cancro do pâncreas

Novo programa é anunciado hoje e recorrerá a novas técnicas e abordagens

Ana Mafalda Inácio
Em 2010, foi inaugurado o Centro Champalimaud em Belém. Em 2017, foram recebidos mais de 58 mil doentes em consulta

No dia em que se assinalam os 100 anos do nascimento de António de Sommer Champalimaud e 14 anos depois do anúncio da sua vontade, a fundação à qual deu o nome dos seus pais reúne o conselho de curadores pela manhã e depois divulgará um novo programa de investigação e de tratamento para o cancro do pâncreas. Segundo soube o DN, este programa recorrerá a novas técnicas e abordagens quer na investigação quer no tratamento, bem como equipas multidisciplinares. Ao mesmo tempo, trabalhará a área da educação e informação às famílias e associações de doentes.

"A medicina tem evoluído muito depressa e alcançado enormes progressos. E em alguns tumores já foi atingida uma taxa de sucesso elevada, mas apesar de tudo há sempre a sensação de que poderia ser melhor, pois há outros em que não se tem conseguido nada ou muito pouco", explica António Parreira, diretor clínico do Centro Champalimaud. "É o caso do cancro do pâncreas, que tem uma taxa de sucesso muito menor do que a das doenças cardiovasculares, em que se avançou muito nos últimos 30 anos. No cancro do pâncreas a expectativa de vida de um doente é hoje igual à de 1970. Isto revela a necessidade de se obter sucesso num diagnóstico mais precoce e em tratamentos mais eficazes. Só a investigação o poderá fazer", diz.

É mais um desafio para a fundação, reconhecida como um centro de excelência em várias áreas, nomeadamente como centro de referência de radioterapia, num tempo recorde. "O nosso objetivo é estar sempre um passo mais à frente, o que cria uma cinética de atividade que é um permanente frenesim. Talvez seja isso que nos distingue de outras instituições médicas mais convencionais", argumenta.

O médico António Parreira diz ser um privilegiado. "Tive uma carreira na área da oncologia, desde a formatura nos anos 1970, primeiro em Santa Maria, depois no IPO de Lisboa, com passagens por França e Inglaterra. E quando me preparava para a reforma fui convidado a integrar a equipa da fundação e a colaborar na criação do centro clínico. Pensei, cá está a oportunidade de ouro para fazer um projeto em que vou utilizar a minha experiência de raiz e evitar os erros que fui aprendendo ao longo do tempo", confessa.

O centro clínico, que começou a funcionar em 2010, recebeu no ano passado mais de 58 mil doentes em consulta. Tem uma lógica de performance diferente da de um hospital convencional. "As nossas equipas trabalham em full time e, muitas vezes, com dedicação exclusiva à instituição. Não somos um centro de oncologia que presta só cuidados, temos a missão de fazer investigação e, por isso, temos de praticar uma medicina vocacionada para a pesquisa, a inovação e o estudo. O trabalho tem de ser feito numa colaboração muito íntima com os investigadores e em todas as áreas do domínio dos saberes."

Em 2007, foi lançado o primeiro programa doutoral na área das neurociências, desde aí nunca mais deixou de haver formação nesta área. No próximo ano, deverá ser lançado um novo programa doutoral para médicos em outras áreas. Mas em destaque tem estado sempre a formação na radioterapia, em que são considerados referência, que já recebe formandos de todo o mundo.

Mas o objetivo é obter da Ordem dos Médicos o reconhecimento de capacidade formativa e avançar com cursos ou estágios nas várias áreas oncológicas ali estudadas e tratadas, desde a mama às vias urinárias, cólon, pulmão, etc. "É preciso fazer uma proposta, mas vamos avançando à medida que temos capacidade para enfrentar os problemas de forma sempre profissional e cuidadosa."

António Parreira integrou a equipa da Fundação Champalimaud em 2011. E o balanço feito até hoje é o melhor. "Tem sido um projeto que se tem desenvolvido de forma notável." O que é conseguido por haver "uma imagem de liderança muito forte e vincada no que se quer fazer".