Falhou antecipação dos fogos de outubro

Relatório da da Comissão Técnica Independente foi entregue no Parlamento. São 250 páginas que pode ler aqui

Miguel Marujo
© ORLANDO ALMEIDA/GLOBAL IMAGENS

Depois de ter entregado o relatório de conclusões na Assembleia da República, o presidente da Comissão Técnica Independente (CTI) aos incêndios de outubro, João Guerreiro, sublinhou aos jornalistas que "era possível encontrar soluções prévias" para evitar os incêndios de outubro. "Havia capacidade para antecipar os incêndios de outubro, mas isso não foi feito", apontou João Guerreiro. E concretizou: "Era possível encontrar soluções prévias de programação e de previsão que pudessem ter amenizado o que foi a expansão do incêndio."

O documento, que pode ser consultado aqui, foi entregue, pouco depois das 17:30, pelo presidente da comissão e ex-reitor da Universidade do Algarve, João Guerreiro, numa audiência com o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, em que estiveram presentes representantes de todos os grupos parlamentares.

Numa nota informativa distribuída à comunicação social sobre o relatório de avaliação dos incêndios ocorridos entre 14 e 16 de outubro de 2017 em Portugal Continental, nota-se que "o ataque inicial aos primeiros incêndios do dia 15 de outubro foi executado de acordo com o instituído, mas rapidamente se verificou não haver possibilidade de manter a estratégia teoricamente fixada".

O próprio presidente da CTI notou aos jornalistas que "toda a configuração da Proteção Civil era muito semelhante a que estava em Pedrógão Grande", num momento em que já se estava "a descontinuar os meios de combate".

A avaliação não é meiga: "Muitas forças estavam já descontinuadas, designadamente os meios aéreos e o número de solicitações impediu que a alocação de meios se fizesse de acordo com as normas operacionais estabelecidas"; e os postos de comando operacional "estavam desfasados na sua dimensão e complexidade, não conseguindo corresponder às necessidades exigidas pelo ataque ao fogo".

A CTI refere, no entanto, "que em muitas situações a velocidade e a intensidade do fogo implicou que não houvesse possibilidade alguma de combater o incêndio".

As "causas que estiveram na origem das muitas ocorrências" - que atingiram 27 concelhos do Norte e Centro do país, fizeram 45 mortos e cerca de 70 feridos - não fogem ao padrão da "série histórica de 2001 a 2017": queimadas (31-33%), incendiarismo (33-36%) e reacendimentos (18-24%).

Sobre as queimadas, a CTI admite que "a proximidade anunciada de precipitação possa ter conduzido a um aumento de ocorrências ocasionadas pela limpeza do solo agrícola". A CTI avisa que "os reacendimentos continuam a ser uma componente excessiva que importa corrigir rapidamente".

Mortes semelhantes a Pedrógão Grande

Noutro ponto destacado pelo relatório, "a força do vento e a baixa humidade" permitiram o "rápido crescimento" dos incêndios. "No entanto, quando a energia libertada pelos incêndios superou a energia do vento geraram-se fenómenos piro-convectivos, com transições de nuvem piro-cúmulo para piro-cúmulo-nimbo, gerando downdrafts que aceleraram e expandiram erraticamente o incêndio, como aconteceu na tarde de 15 e noite de 15 para 16 de outubro."

Tratam-se, segundo a CTI, de "movimentos erráticos e acelerados dos incêndios, por momentos pulsantes", que "coincidem com a ocorrência de vítimas mortais". E aqui, refere o relatório, "as condições foram semelhantes às de junho em Pedrógão Grande".

Esta CTI tem a mesma composição da anterior, que analisou os fogos de junho, em Pedrógão Grande, distrito de Leiria, e que se alastrou a concelhos limítrofes, e a sua criação foi sugerida pelo presidente do Parlamento, Ferro Rodrigues, e aceite pelos partidos. O incêndio de junho, em Pedrógão Grande e que alastrou a concelhos vizinhos, fez 66 mortos e 253 feridos, sete dos quais graves, destruiu meio milhar de casas e quase 50 empresas.

[em atualização]