Grande Guerra: Portugal usou a França para manipular os ingleses

Investigação no centenário da Grande Guerra recolhe "largos milhares" de documentos que explicam a intervenção portuguesa

Manuel Carlos Freire
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A Inglaterra pediu a apreensão dos navios alemães fundeados em portos nacionais, em fevereiro de 1916, para evitar que a França o fizesse.

Este é um dos factos inéditos relacionados com a participação de Portugal na Grande Guerra que resultam do acesso a "largos milhares" de documentos existentes em arquivos estrangeiros. "A Inglaterra só pede a apreensão dos navios alemães porque a França diz que o vai fazer. Quando [Paris] põe a questão aos ingleses, estes acham que Portugal sai da esfera inglesa e passa para a da França" - algo a evitar, diz o historiador António Telo.

"A França foi instrumental para os guerristas forçarem a beligerância contra a Inglaterra e contra o sentimento dominante em Portugal, que era de neutralidade" face aos países em guerra, onde Portugal entrou após a declaração de guerra da Alemanha motivada pela referida apreensão dos seus navios, adianta António Telo ao DN.

Esses "largos milhares" de documentos inéditos sobre o papel de Portugal "mostram factos completamente desconhecidos e dão uma nova visão de conjunto" sobre essa intervenção, afirma António Telo. "Nunca foram publicados nem citados" e estavam em arquivos dos EUA, do Reino Unido, da França e da Alemanha, diz o diretor e investigador principal do projeto Tipologia da Conflitualidade e Beligerância Portuguesa na Grande Guerra.

Este projeto de investigação foi aprovado pela Comissão Coordenadora para a Evocação do Centenário da I Guerra Mundial - em que Portugal entrou em março de 1916, com o Corpo Expedicionário Português (CEP) a partir para a França no início de 1917 - e envolve dezena e meia de investigadores civis e militares, estes dos três ramos das Forças Armadas e da GNR - um dos quais vai em junho à África do Sul para aceder a novos documentos.

Certo é que o acervo já trabalhado "lança uma nova e diferente visão sobre a beligerância" portuguesa e "as implicações" decorrentes do envio das Forças Armadas para a Flandres, sublinha António Telo.

O professor da Academia Militar aponta "a principal motivação" dos decisores políticos de então: "Foi o setor radical [liderado por Afonso Costa, do Partido Democrático] que quis forçar a beligerância para vencer a guerra civil interna" que se verificava "de forma intermitente" - e que "passava por transformar, mudar, alterar a estrutura, a orgânica, a mentalidade das Forças Armadas."

As fortes divisões políticas e dentro da instituição militar que marcavam os primeiros anos da República traduziram-se em três revoluções, ataques e atentados falhados, mudanças de governo, muitos mortos e feridos, lembra António Telo.

Perante esse "constante recurso à violência", a opção do governo pela "beligerância é a forma de um setor vencer a guerra civil". Na defesa das colónias africanas "havia concordância" entre os chamados guerristas e antiguerristas. A posição de Londres era um obstáculo às pretensões dos guerristas, enfatiza o académico: "Se há alguém que não quer" a entrada de Portugal na I Guerra Mundial, "é a Inglaterra!"

Por isso é que "os guerristas lançam a França contra a Inglaterra para conseguirem o propósito de entrar na guerra" que assolava e se arrastava na Europa. "A Inglaterra foi contra e, mesmo quando Portugal entrou na guerra, era contra o envio de tropas portuguesas", frisa.

Memória

Estatuto ambíguo

- A oposição da Inglaterra à participação de Portugal na Grande Guerra fez que Lisboa começasse por ter uma posição ambígua: não era neutral nem parte ativa no conflito.

Entrada na guerra

- A declaração de guerra da Alemanha a Portugal ocorreu a 9 de março de 1916, quase dois anos após o início de um conflito que mobilizou mais de 70 milhões de militares.

Balanço Final

- Portugal perdeu cerca de 7600 militares na Grande Guerra, dos quais dois mil na Europa. Na frente africana, morreram 800 em Angola e mais 4800 em Moçambique.