Eurodeputados do PS fizeram lóbi para Marcelo ser bem recebido

Sem hostilidade à espera, ao contrário do que aconteceu com Cavaco, Presidente discursa no Parlamento Europeu

Rui Pedro Antunes, em Estrasburgo
O Presidente com o eurodeputado Carlos Moedas© José Sena Goulão/Lusa

Cavaco teve cartazes de protesto, Marcelo vai ter afetos. Os eurodeputados portugueses abriram caminho a que o hemiciclo abrace hoje o Presidente português, quando discursar em Estrasburgo, sobre os 30 anos de Portugal da União Europeia, a crise dos refugiados e o terrorismo. Há mesmo um tempo novo e, agora - ao contrário do que acontecia com Cavaco Silva -, até os socialistas fazem lóbi por Marcelo.

Sobre o discurso, Marcelo antecipou que será uma "intervenção simbólica" onde irá reafirmar "a constante fundamental da política externa de Portugal, que é naturalmente a pertença europeia e o empenhamento na construção europeia". O PR revelou que irá mencionar "alguns dos desafios que se colocam hoje à Europa, que são desafios que se colocam a Portugal. Não há uma realidade Europa de um lado, Portugal do outro. Nós e eles somos todos nós".

Carlos Zorrinho, o coordenador dos eurodeputados do PS, contou ao DN que tem dito aos seus colegas de outros países que Marcelo, embora da mesma cor política de Cavaco, tem "uma atitude diferente". Antevendo que o discurso presidencial será hoje "muito aplaudido", Zorrinho sublinha que ele próprio ouvirá o PR "com muito orgulho de Portugal e de ser português". Para isso contribui, claro, o "namoro" que o PR e o primeiro-ministro têm tido: "Foi um mês extremamente positivo em que se notou uma forte convergência estratégica."

Não há uma realidade Europa de um lado, Portugal do outro. Nós e eles somos todos nós

Também o coordenador dos eurodeputados do PSD disse ao DN que espera um "discurso marcante e claramente pró-europeu" mas que também "chame a Europa às suas responsabilidades". Paulo Rangel recorda que à exceção da chanceler alemã ou do Presidente francês, estas intervenções são vistas como institucionais, mas a de Marcelo está a "despertar algum interesse".

Para o eurodeputado, o PR materializou "um maior protagonismo" e "chamou a si de uma forma vincada as competências na área da política externa, com uma agenda senão paralela [ao governo], pelo menos própria, que teve efeitos na própria política europeia, com o convite a Draghi seguido desta visita a Estrasburgo".

Já Marisa Matias, deputada do BE disse ao DN acreditar que Marcelo "pode ser um aliado fundamental na política europeia se decidir aliar-se ao governo e às forças que o apoiam no Parlamento". Até na ida do presidente do BCE, Mario Draghi, a Portugal, a bloquista vê um "precedente interessante": "Durante anos os políticos foram a Bruxelas e a Berlim receber ordens. É interessante que tenha ido a Portugal."

Em 2013, Cavaco Silva viu vários deputados de esquerda levantarem cartazes enquanto discursava, que pediam a saída da troika de Portugal. Agora não há esse risco. O eurodeputado do PCP João Ferreira, que na altura levantou o cartaz, lembra que as circunstâncias são diferentes e quer que o discurso de Marcelo "defenda o interesse nacional e afirme a soberania nacional". E isso faz-se "exigindo um novo rumo para a Europa, rejeitando políticas de austeridade".

Mas também há quem queira que Marcelo lembre os esforços do governo anterior. O eurodeputado do CDS Nuno Melo espera que "se em Portugal o Presidente tem optado por reforçar a estabilidade, suponho que em Estrasburgo dará também conta da solidariedade e do esforço português". O eurodeputado lembra que Marcelo está "atento às prioridades europeias" e considera o convite a Draghi "relevante porque demonstra que o BCE passou da condição de credor a parceiro".