Deslizou nos carris e bateram-lhe palmas. Deixem passar o 24

Campolide e o Largo Camões voltam a estar ligados pela linha deste elétrico. Regresso acontece 23 anos depois de ter sido extinto

Ana Bela Ferreira
O 24 regressa depois de ter sido interrompido em 1995 | foto Reinaldo Rodrigues/Global Imagens
A linha foi inaugurada em 1905 e durante 90 anos ligou Campolide até a Rua da Alfândega, passando pelo Carmo. Aqui uma imagem de 1943 | foto Reinaldo Rodrigues/Global Imagens
Turistas e lisboetas aplaudem e sorriem à passagem do 24. Esta terça e quarta-feira as viagens são grátis | foto Reinaldo Rodrigues/Global Imagens
Dário Ussamane ainda conduziu o antigo 24, mas apenas por alguns meses. Há 23 anos que esperava o seu regresso | foto Reinaldo Rodrigues/Global Imagens
Carlos Araújo tem um café em Campolide e é um entusiasta de elétricos. No bairro fizeram-se duas petições pelos seu regresso | foto Reinaldo Rodrigues/Global Imagens
Paula Pereira é uma das guarda-freio que vai fazer a viagem. A carreira foi interrompida para construir um parque de estacionamento e não voltou, até hoje | foto Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

O amarelinho vai voltar a colorir as ruas de Campolide até ao Camões. É o regresso do 24, que se despediu dos carris de Lisboa em 1995. Desde o dia 11 que está a ser testada a circulação no novo percurso e, mesmo sem ter recebido a bordo passageiros, já houve quem tivesse manifestado a alegria de o ver voltar às ruas que percorreu durante 90 anos.

"No dia 11 fizemos a primeira volta de ensaio, para vermos como é que seria o percurso, e foi engraçado ver as pessoas, os utentes da via, a bater palmas, por causa do regresso do elétrico. Foi bastante bonito e emotivo", descreve Dário Ussamane, antigo guarda-freio e atual fiscal da Carris que quando chegou à empresa já sabia que a carreira do 24 ia ser suprimida, "infelizmente". "Cada vez que vejo ser suprimida uma carreira de elétrico custa-me imenso", reconhece Dário Ussamane. Já quando abre uma nova linha: "É uma alegria enorme", garante de sorriso largo.

A bordo do elétrico 24, ontem à tarde, estavam mais quatro guarda-freios que estão a fazer as últimas voltas de teste, uma vez que hoje as viagens, apesar de gratuitas (até amanhã não se paga para experimentar o 24), serão a sério. Durante o percurso que o DN percorreu foram-se ouvido algumas dicas de como passar em locais mais apertados ou dar curvas em que "a agulha salta", como à chegada à Praça Luís de Camões.

Também houve tempo para ouvir algumas anedotas temáticas, a cargo de Alfredo Gama, coordenador-geral de tráfego na Carris. "Porque é que os elétricos não têm rodas de borracha?", pergunta, sem que ninguém acuse a resposta, para logo concluir: "Porque senão apagavam a linha."

[HTML:html|mapaeletrico24.html|420|500]

Um carro rebocado, outro multado

Os guarda-freios destacados para esta linha - 32 anos numa primeira fase, todos os restantes 140 à medida que for sendo dada a formação - vão mudando aos comandos do elétrico durante a viagem de testes. Paula Pereira é quem assume o comando no regresso do Camões até Campolide. Também ela está contente com o regresso do 24 - "é maravilhoso". Sobre o percurso aponta como principais dificuldades o facto de as pessoas "não estarem habituadas que passemos em determinados sítios, os estacionamentos e os cruzamentos".

De facto, a viagem é feita sem grandes percalços, ainda que tenha sido necessário ir retirar obstáculos às ruas e o agente da Polícia Municipal tenha saído do elétrico para para falar com o encarregado das obras no Miradouro São Pedro de Alcântara para pedir que as proteções fossem afastadas da estrada.

Um obstáculo menos condicionante do que o que apanharam quando estavam a sair da base da Carris, em Santo Amaro, para Campolide, o ponto de encontro para o início da viagem: um carro estacionado em cima dos carris que teve de ser rebocado. Conclusão: um atraso de 35 minutos para o elétrico. Um problema de estacionamento que voltaria a acontecer mesmo à chegada a Campolide. Neste caso, o condutor veio a correr, mas já não se livrou da multa. Outras paragens foram necessárias por causa dos estacionamentos em segunda fila, mas bastou soar a campainha do elétrico e os condutores apareceram de imediato.

Os estacionamentos em segunda fila são o pior pesadelo para o elétrico, que não tem como contornar os obstáculos. Por isso, Dário Ussamane apela aos condutores para deixarem os carros bem estacionados e não pararem em segunda fila.

Aos obstáculos não via sobrepõem-se os sorrisos e os cumprimentos que o elétrico vai colhendo de turistas e locais ao longo do percurso. E na praça onde vai começar a viagem há dois anos que tinha um fã à espera. Carlos Araújo é o proprietário do café Doce Belo Snack, em Campolide, e um admirador de elétricos, como mostra a decoração do espaço. Uma paixão que até nasceu de forma caricata: "Acho que foi de um acidente que tive com a minha mãe em miúdo, com um elétrico." É mais um dos moradores que não escondem o entusiasmo com a nova carreira do 24, cujo percurso deverá ser alargado até ao Cais do Sodré.

Além do regresso do 24, a autarquia, que agora gere a Carris, está a estudar as futuras prioridades no alargamento da rede de elétricos. "Temos um plano para a expansão da linha e até ao final do ano vamos apresentar as prioridades, que podem passar pelo Oriente e pela zona de Santa Apolónia", antecipa o vereador da mobilidade, Miguel Gaspar.

A Carris vai também comprar mais 30 elétricos, dos quais 20 serão normais e dez históricos.