Carros de combate inauguraram nova era nos teatros de guerra há 100 anos

Britânicos enviaram 49 tanques de guerra para a Ofensiva do Somme, uma das mais mortíferas batalhas da I Grande Guerra.

Manuel Carlos Freire
O Mark I foi o primeiro carro de combate com emprego operacional no campo de batalha© Direitos reservados

Os carros de combate, que se transformaram num dos mais poderosos sistemas de armas ao serviço dos Exércitos de todo o mundo, foram empregues pela primeira vez em teatros de guerra há 100 anos, na batalha do Somme.

O Mark I, designado pelos britânicos como "tanque" (de água) para evitar a espionagem inimiga durante a sua construção, foi enviado para França a fim de garantir a proteção dos soldados que procuravam romper as linhas alemãs junto ao rio Somme - apesar dos enormes problemas técnicos que tornaram essa participação num fracasso militar.

O volume e intensidade do fogo das tropas alemãs provocou tantas vítimas entre a infantaria aliada que Londres recorreu à tecnologia - mesmo não testada - para enfrentar a organizada máquina de guerra germânica, com recurso a uma plataforma de combate que garantia proteção ao movimento dos soldados, tinha poder de fogo e garantia mobilidade no campo de batalha.

O número de carros de combate enviados para França era claramente insuficiente: 49 Mark I, sendo que apenas 32 entraram a 15 de setembro de 1916 na batalha de Flers-Courcelette, uma das muitas da Ofensiva do Somme - e só nove conseguiram chegar a uma terra de ninguém cheia de crateras, lama e arame farpado, tantos eram os problemas técnicos e mecânicos (altas temperaturas, gases tóxicos do combustível, falta de ventilação) que também provocavam grandes estragos entre a própria guarnição.

Mas a importância desse sistema de armas primitivo e pesadão foi de tal ordem que logo em 1917 surgiu a primeira versão construída com uma torre sobre o casco, mais pequena e meia leve: o Renault FT.

O ponto alto do emprego operacional dos carros de combate chegou com a II Guerra Mundial, quando os alemães compensaram a menor blindagem e poder de fogo dos seus Panzers, relativamente aos tanques de guerra franceses, com um diferente modelo organizacional.

Enquanto os carros de combate franceses apoiavam a infantaria e moviam-se à velocidade dos soldados, os alemães fizeram o oposto: criaram unidades blindadas em torno dos tanques, garantindo--lhes a elevada rapidez de movimentos que se tornou celebremente conhecida como Blitzkrieg (guerra-relâmpago). Acresce que, também ao contrário dos gauleses, os nazis concentravam as unidades de lagartas, aumentando significativamente a capacidade de fogo.

"A novidade na II guerra Mundial foi a forma de usar os carros de combate, que garantiu o sucesso aos alemães pela forma brilhante como concebem as unidades e as empregam... a plataforma em si não chega, é preciso uma lógica organizacional que a beneficie e uma doutrina de emprego que a favoreça", explicou um especialista ao DN, sob anonimato por ser militar no ativo e não estar autorizado a falar.

Exemplo disso são os israelitas, que ao contrário dos ocidentais têm uma doutrina de emprego dos carros de combate que lhes permite usá-los em áreas urbanas com segurança, adiantou a fonte.

Um salto tecnológico nos carros de combate ocorreu nos anos 1980, com a introdução dos equipamentos de visão noturna. Contudo, a grande mudança surgiu com o emprego das câmaras térmicas, cuja influência é equiparável à dos radares no combate aéreo. O uso de computadores e dos lasers para melhorar a pontaria e poder de fogo são outros pontos de evolução, mas haver duas câmaras térmicas independentes permitiram ao chefe do carro e ao apontador verem coisas diferentes e maior rapidez na aquisição dos alvos, assinalou a fonte.