Cães nos restaurantes? Ainda falta "cultura" em Portugal para aceitar

Já é permitida entrada de animais de companhia nos restaurantes. Provedora dos animais diz que é preciso um período de adaptação

Joana Capucho
No restaurante Bolide, em Aveiro, os animais de companhia só são permitidos na esplanada© Maria João Gala / Global Imagens

"Se não tivesse um cão, se calhar não ia achar bem que os animais pudessem entrar nos restaurantes. Como tenho, acho bem". Tomás Lopes, de 66 anos, natural de Setúbal, escolheu Aveiro para "passar uns dias", fazendo-se acompanhar pela cadela. Na esplanada do restaurante Bolide, "Ema Lopes", presa à cadeira com uma trela, ladra a um cão que passa. "Não a podia deixar no carro. Ela porta-se bem", assegura Tomás. Dentro do restaurante, não são permitidos animais. "Não é higiénico e até pode ser incomodativo para os outros clientes. Não há mentalidade para aceitar isso", justifica Cristina Santos.

Desde ontem que a lei permite a entrada de animais de companhia em restaurantes, mas a associação do setor estima uma fraca adesão. Numa ronda feita pelo DN junto dos estabelecimentos de restauração da Praça do Peixe, em Aveiro, não foi encontrado nenhum que permita animais no interior, porque, segundo os proprietários, falta espaço e a maioria dos clientes poderia não aceitar. Para o partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN), que elaborou uma das propostas, o objetivo está cumprido, já que a ideia era "dar liberdade aos proprietários que quisessem aceitar animais".

Mesmo antes da entrada em vigor da nova lei, já existiam restaurantes que permitiam a entrada de animais, sobretudo em Lisboa e no Porto, e quase sempre só nas esplanadas. Rui Rodrigues, do Gran Turino, em Aveiro, admite que "talvez nos grandes centros urbanos as pessoas possam aceitar", mas "a população em geral não está preparada para isso". E considera, ainda, que "não será muito higiénico".

Maria Soares, proprietária de três restaurantes na cidade, conta ao DN que em nenhum dos seus espaços é autorizada a entrada de animais. E justifica: "Não há condições físicas para isso. O espaço é pequeno". Além disso, "não há essa cultura" no país. "As pessoas não estão preparadas". No entanto, frisa, os animais podem estar na esplanada, onde existem bebedouros.

Pouca adesão

Antes da entrada em vigor, a secretária-geral da AHRESP, Ana Jacinto, disse que "a pouca clareza da lei" e "a responsabilidade que pode gerar para os proprietários de estabelecimentos, nomeadamente em termos de higiene e segurança alimentar", devem levar a que "grande parte dos restaurantes" não adira à permissão.

Ao DN, Cristina Rodrigues, da comissão política nacional do PAN, diz que o partido está "satisfeito" e que "a ideia nunca foi ter uma adesão de 90 ou 100%". O objetivo, prossegue, "era dar liberdade às pessoas que o quisessem fazer". Isto porque "havia proprietários que queriam admitir a entrada e pessoas que se queriam fazer acompanhar" pelos animais.

A provedora dos animais de Lisboa, Maria Quaresma dos Reis, refere que há uma plataforma de uma marca portuguesa que diz que existem 194 bares e restaurantes e 296 hotéis e equiparados que aceitam animais. "Esta é uma lei nova que, como qualquer outra, carecerá de um período de impregnação na sociedade. O meu palpite é o de que se aplica aquela velha máxima "primeiro estranha-se, depois entranha-se". Nada disto é novidade em outros países europeus onde tudo decorre com grande normalidade", diz ao DN.

Aberto há dois anos, o Montana Lisboa Café, localizado no Cais do Sodré, aceita animais desde o início. "Porque não permitir se são parte integral da nossa família? Queremos ser um espaço inclusivo", diz a gerente, Diana Sousa. Contudo, conta, "os portugueses ainda costumam deixar os animais à porta, sendo depois convidados a entrar pelo staff, porque estão "habituados a que estes não possam fazer parte do dia a dia das pessoas".

De acordo com a nova legislação, o dono do estabelecimento pode determinar uma área reservada para clientes com animais ou permitir a sua presença em todo o espaço. Os animais terão de estar presos, "com trela curta", e "não podem circular livremente", estando vedada a sua presença na zona de serviços. Ao DN, a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) diz que "manterá as ações de fiscalização no setor de restauração e bebidas, tendo em consideração a nova legislação, bem como todas as outras matérias que se encontram na esfera da sua competência, não se considerando no momento oportuno, nem necessário, qualquer reforço ou intensificação da sua ação no terreno".