Alunos sem fronteiras. Quando eles saem já não querem voltar

Tirar a licenciatura no estrangeiro é cada vez mais comum. Tarefa é facilitada pela intermediação de agentes de universidades como a OK Estudante, que se especializou no mercado do Reino Unido, onde há cerca de 2500 jovens portugueses a estudar através dos seus serviços. O DN assistiu à primeira visita à universidade de um grupo de 22 alunos que vão a frequentar em setembro. Poucos são os que querem regressar a Portugal. Brexit pode pôr fim a esta oportunidade

A entrada na universidade é um passo determinante na vida de qualquer jovem. Muitas vezes significa deixar a casa dos pais, mudar de cidade. No caso de Cristiana, Dinis, Francisco e Catarina esse passo é ainda maior, já que para eles sair de casa dos pais, significa mudar de país e encarar uma vida de estudante e trabalhador. Os quatro alunos escolheram a Universidade Anglia Ruskin, em Cambridge, para onde vão em setembro, através da Ok Estudante. O DN acompanhou 22 estudantes portugueses no dia em que ficaram a conhecer a instituição que vão frequentar.

A visita de dois dias foi o primeiro impacto, mas foi o suficiente para ter encantado Dinis Silva. "Foi espetacular e não tem a ver com as universidades de Portugal, tem tudo a nível de ponta", justifica o jovem de 17 anos, de Barcelos, que vai estudar Engenharia Informática. Seguir o sonho, em Portugal, seria mais difícil, defende o jovem, por considerar que o país ainda não está desenvolvido na área da programação, o caminho que quer seguir.

Catarina Santos nem precisou de ir a Cambridge para ficar convencida. "Sempre tive uma panca muito grande por Londres, um gosto enorme em conhecer e já tinha considerado vir trabalhar para cá, nunca pensei em estudar cá." A palestra da empresa agente de universidades acabou por mudar as ideias da jovem de Viseu. A estudante de 17 anos, quer "estudar Criminologia, que em Portugal não é nada explorado". Catarina começou por propor aos pais esta experiência, "na brincadeira, nunca na vida pensei que eles me deixariam vir para cá".

Catarina vai ser colega de Francisco Jesus. O estudante de Lisboa pensava que só iria fazer mestrado, mas assim que descobriu que podia fazer a licenciatura, decidiu arriscar. É um fã da cultura e da língua inglesa e espera que estudar cá lhe dê mais oportunidades que em Portugal. Vai tentar conciliar a lógica da criminologia com a "paixão pela música". Depois do curso, "o mais provável é ter de ficar cá, pelo menos ao início".

Cristiana Pinto estava dividida entre Animação e Ilustração, sem opções em Portugal que juntasse as duas áreas, percebeu que podia encontrar o curso à sua medida na Universidade de Anglia Ruskin, enquanto trabalhava numa ação de promoção da OK Estudante.

Os quatro escolheram área diferentes, mas todos consideram que não terão grandes hipóteses em Portugal. Por isso, nenhum deles está a pensar regressar depois da licenciatura. Também os colegas que já lá estão a estudar, pensam que o melhor é ficar a trabalhar por Terras de Sua Majestade ou então remigrar para outro país ou continente.

Nesta primeira visita, os estudantes aproveitaram para conhecer os espaços onde vão estudar, as residências que escolheram e trocar ideias com os portugueses que já lá estão, sobre coisas tão práticas como abrir conta bancária, arranjar emprego ou uma bicicleta.

Durante os dois dias que durou a viagem (16 a 17 de março), alguns foram logo confrontados com as baixas temperaturas de Inglaterra nesta altura do ano. Ao ponto de Dinis Silva, por exemplo, admitir que o único receio que tem é "a adaptação ao frio". De resto, o jovem de Barcelos assegura: "Sou uma pessoa que se adapta bastante facilmente", sublinha. Não receia ter de trabalhar para pagar o curso - como fazem a maioria dos portugueses que a Ok Estudante coloca nestas universidades - ou separar-se dos pais. O único receio de adaptação é mesmo... "o frio".

Dinis espera fazer os estudos em Cambridge e depois rumar aos EUA para mestrado ou trabalho. Aliás, ir para fora sempre foi uma das hipóteses em cima da mesa. Inglaterra acabou por ser uma agradável surpresa - quando a psicóloga veio à sua sala recolher interessados para assistir à palestra da Ok Estudante -, depois de ter percebido que na Dinamarca "não havia o curso em inglês" e que nos EUA "as propinas e o custo de vida são impossíveis".

E o trabalho em Cambridge não o assusta: "É preciso é a pessoa ter dedicação e querer trabalhar." É essa a experiência que os portugueses que já aqui estudam têm para contar. A maioria trabalha no comércio local ou até na universidade.

A tradição de trabalho entre os estudantes é tal, que até quem não precisa está desejoso de começar. "Está definitivamente na minha ideia trabalhar porque não quero que os meus pais me paguem tudo, quero começar mesmo aquela independência. Mas isso não está muito na ideia dos meus pais, eles querem que o primeiro ano seja para me habituar e depois no segundo ano já sou mais velha, já consegui organizar melhor a faculdade e isso tudo", conta Catarina Santos.

O que fazer para ir para fora

Fazer a licenciatura fora do país é uma opção cada vez mais comum para milhares de jovens. A Ok Estudante foi uma das primeiras empresas de mediadores que ajuda os jovens portugueses a estudar no Reino Unido. Já encaminharam mais de 3500 jovens e neste momento têm cerca de 2500 a frequentar licenciaturas ou mestrados em terras de sua majestade. Uma oportunidade que acabará quando o Brexit for uma realidade. Um risco que não correm os que entrarem antes no sistema: "Oficialmente o contrato do Student Finance cobre todos os anos do curso independentemente da data em que venha a ocorrer o Brexit. O único receio que deve existir é o de não aproveitar esta oportunidade este ano letivo, pois muito em breve deixará de existir", aponta Diogo Lobo Pimentel, diretor-geral da OK Estudante.

O que esta agência de universidades (eleita o melhor agente do mundo) promete é tratar de toda a burocracia e garantir que se entra no curso pretendido. Têm 40 parcerias estabelecidas, mas podem tratar da inscrição em qualquer uma das 140 universidades do top britânico. O papel da Ok Estudante e outras empresas é criar pontes com as universidades de facilitar a entrada de estrangeiros. Garantem que o exame de inglês é feito, todos os papéis entregues a tempo e que todos os requisitos são cumpridos. Um serviço que custa em média 486 euros.

A vantagem de recorrer à OK Estudante, aponta Diogo Lobo Pimentel, está "na orientação académica que o jovem irá receber, na certeza que escolhe o melhor curso e universidade para o seu perfil pessoal e académico". Depois, "a preparação que recebe, ainda em Portugal, vai contribuir na sua integração no novo país e nova cultura com que se irá deparar, sendo posteriormente integrado na maior comunidade de estudantes portugueses no Reino Unido, beneficiando do espírito de entreajuda que irá permitir que nunca se sinta só".

O fundador, André Rosendo, importou o conceito depois de ter crescido em Macau e estudado sozinho nos EUA e Inglaterra. Uma parte importante da mensagem é de que as propinas são 100% financiadas. Isto é, só se começa a pagar em prestações quando há rendimentos associados superiores a 21 mil libras por ano (24 mil euros). O que leva a maioria dos estudantes a trabalhar e ir pagando as propinas.

Um plano completamente conciliável, pelo facto de a carga horária britânica ser muito mais reduzida. Outro aliciante é a vertente mais prática do ensino, sublinhada por todos os alunos. Além da orientação, os alunos têm oportunidade de visitar as universidades no dia aberto. Como foi o caso da visita à Anglia Ruskin.

Estas empresas costumam apresentar os seus serviços nas escolas secundárias, a alunos que estejam no 11.º ano. Mas qualquer um pode recorrer a esta intermediação. Todo o processo demora em média três meses. Da experiência que têm: metade dos alunos decide manter-se no Reino Unido a trabalhar e outra metade regressa a Portugal. Do grupo de 22 alunos que esteve nesta visita, quase todos referem que esperam ficar por lá a trabalhar ou então emigrar para outro país. O regresso a Portugal não está nos planos.

A experiência dos veteranos

Sara Carvalho é "a estrelinha em ascensão" para os mentores da OK Estudante. Está há um ano na Anglia Ruskin e já se sente em casa. Faz banda com duas gregas - a quem já ensinou algumas palavras em português, até as mais alternativas - e no dia aberto aos novos estudantes pôde tocar no melhor piano do mundo. "Só poder tocar nele hoje já é uma conquista. É um piano de 80 mil libras [91 500 euros]".

Veio de Gouveia para Cambridge seguir o seu sonho: a música. Mas Sara tem a noção das dificuldades de uma carreira na música. Precavida quer fazer mestrado. "O meu principal objetivo é compor e dar concertos. Se isso não resultar, quero fazer um mestrado em music therapy [terapia musical], porque acho que é uma segurança que tenho, se a parte mais de performance não resultar. E também em teaching [ensino] para ter uma certa segurança." Até porque estar em Inglaterra não é garantia de nada - "continua a ser uma área instável."

À semelhança de muitos colegas portugueses, a jovem de 18 anos não pensa voltar a Portugal tão cedo. "Sinto que depois de ter dado este salto já não tenho tanto medo se um dia tiver que ir para outro país." O próximo destino: EUA, Nova Jérsia. Onde vai fazer o segundo semestre na Ramapo, em Nova Jérsia.

Sara encontrou em Cambridge um meio para concretizar o seu sonho. "Sentia que em Portugal não temos tantas oportunidades, os cursos não são tão completos." Quando conheceu a OK Estudante, percebeu que afinal o sonho "se calhar não era assim tão impossível". Ponderada, Sara ainda fez os exames nacionais e entrou numa universidade em Portugal, "para ter duas opções e poder escolher".

Na escola, ficou fascinada com as condições. Os estúdios, instrumentos e até a proximidade com os professores. Está contente com a possibilidade de fazer um bocadinho de tudo: "Tanto toco piano, como guitarra e canto. Depois também temos a versão de produção musical e composição."

É a compor e a dar concertos que se sente bem, mas quer estar preparada para o caso de não conseguir viver só disso. Para já, teve oportunidade de mostrar aos possíveis futuros alunos o que se aprende no seu curso, com uma performance conjunta com as amigas gregas.

O sonho de Sara está a ser financiado também pelo seu trabalho em part-time. Algo que, admite, "é difícil". Sem com isso ser impossível. "Os horários aqui são muito bem feitos. São mais flexíveis, temos mais tempo para tudo." Ainda que venha aí um novo desafio: depois de começar no Burguer King, a jovem da Serra da Estrela mudou de posto para a loja Decathlon, a trabalhar ao fim de semana. "Não tenho tempo livre, tenho que aproveitar cada bocadinho, cada manhã livre, não tenho tempo para dormir mais um bocadinho, mas é tentar fazer tudo e aproveitar o tempo ao máximo", aligeira.

Neuza D'Almeida também veio para a área das Artes, mas precisamente Fotografia. Ao contrário da maioria dos alunos, começou no ano zero (ano de preparação para o ensino superior). Está agora no primeiro ano do curso, segundo de vida em Cambridge. Um salto de gigante para a menina de Sousel. "Venho de um meio pequeno e aqui tudo é gigante." Gosta da forma como os alunos são respeitados, do ensino prático e da postura dos professores. Também trabalha - começou num bar e agora está na universidade - e quer fazer carreira na Austrália ou Nova Iorque.

A jornalista viajou a convite da OK Estudante

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