Alberto da Ponte: "Passos foi o melhor primeiro-ministro desde Sá Carneiro"

Apesar da gripe, piorada por uma ida à bola na véspera, Alberto da Ponte não faltou ao encontro marcado para o restaurante do Hotel D. Pedro.

Sportinguista convicto, não podia perder a oportunidade de assistir à vitória do seu clube frente ao Besiktas, que permitiu ao Sporting manter-se na Liga Europa. O empresário chegou de casaco grosso e cachecol, mas a varanda fechada estava suficientemente quente - tanto que foi preciso pedir para desligar o aquecimento - para aplacar o frio de um dia de dezembro com pouco sol. Ali pode-se fumar, o que agrada a ambos, e a sala envidraçada de ponta a ponta permite que entre luz suficiente para nos esquecermos de que é inverno.

Apesar de ter estado sempre profissionalmente ligado ao consumo (passou pela Lever e pela Jerónimo Martins, viveu na Malásia, em Bruxelas, em Madrid) e em particular às cervejas, na última década - no primeiro ano à frente da Central de Cervejas, a Sagres ultrapassou a Super Bock em vendas pela primeira vez -, não é por aí que começa a conversa. Enquanto escolhemos, fala-me da RTP, onde esteve cerca de dois anos como presidente. Não se arrepende de ter passado por lá, confessa até que gostou muito da experiência - "da forma como saí já é outra história, que hei de contar um dia". Não é preciso insistir muito para explicar como chegou - "naquela altura era preciso alguém que preparasse o canal público para a privatização, o meu nome surgiu, pela experiência na gestão de empresas, e fui escolhido" - e como saiu. "Havia um problema claro: nenhum dos canais privados queria a RTP privatizada, não queriam mais concorrência, sobretudo num momento em que o mercado publicitário estava emagrecido." E a pressão foi tanta que a privatização passou a concessão e a concessão acabou por ser posta de parte.

Quando Miguel Relvas "é afastado do governo e substituído por Miguel Poiares Maduro" - a que Alberto da Ponte chama "um erro de casting de Passos Coelho" -, o ex-presidente da dona da Sagres começa a não encaixar bem na cadeira de presidente da RTP. Ou pelo menos foi isso que o Conselho Geral Independente - "uma aberração que nasceu numa altura em que a BBC, por exemplo, acabava com uma figura semelhante, porque não fazia sentido existir, e que deixou de se ver depois da minha saída" - o fez sentir.

Pedidos feitos - linguini al aglio e olio para ele, ravioli de espinafres para mim, copos de vinho tinto a acompanhar -, continua a explicar o seu trabalho na RTP. Sublinha que conseguiu reduzir os custos em quase 100 milhões e garante que havia espírito de equipa. "Os trabalhadores estavam motivados. Porque mesmo quando se desistiu da passagem para privados eu tinha um projeto de crescimento para a estação - é isso que faz a diferença. A RTP mantinha-se pública mas passaria a ser gerida como uma empresa." Além do projeto, diz que foi bem aceite também por ter feito questão de nunca se meter nas questões editoriais. "Mesmo quando José Sócrates foi contratado para comentador não me meti, porque eu, enquanto presidente, tinha o dever de interferir apenas em questões estruturais ou financeiras - e nenhuma destas se punha, até porque ele fazia aquilo de graça; e não tinha registo criminal. Nem tem."

Quanto ao futebol - com o "negócio brutal" entre a NOS e o Benfica em pano de fundo -, não tem dúvidas de que o investimento fazia sentido. "O negócio do futebol foi o único que resistiu à crise e até cresceu."

A varanda já não parece um forno e com a entrada em cena das massas e do vinho faço-o voltar atrás, às diferenças entre os dois ministros que o tutelaram. Alberto da Ponte garante que o último era muito mais interventivo do que o primeiro. "Não era que se imiscuísse, nunca tentou influenciar as decisões, mas a verdade é que nunca recebi um telefonema de Miguel Relvas, enquanto Poiares Maduro questionava muitas vezes as opções, perguntava porque se tinha escolhido fazer as coisas de uma maneira e não de outra." Não vai mais além na crítica, mas para Relvas tem um elogio guardado: "Era o motor político do governo. E Poiares Maduro não foi capaz de o substituir nesse papel."

O empresário, que hoje divide o seu tempo entre as várias empresas a que dá consultoria - incluindo a dona da Sagres e a Sunlover (que detém com Pedro Baltazar) e "sempre numa lógica de conseguir acrescentar-lhes valor" - não tem ligações partidárias, embora não tenha qualquer problema em assumir que se identifica com o PSD.

Ao fim de quatro anos de legislatura e apesar de o ex-primeiro-ministro o ter deixado cair politicamente - "fiquei um bocadinho magoado com o homem Passos Coelho, mas não tenho nada a dizer do governante" -, mantém a opinião que tinha ainda antes de ocupar o único cargo público da sua vida. "Os números estão lá e mostram que se fez o bom caminho, apesar de isso ter implicado muitos sacrifícios. Não tenho a menor dúvida de que Pedro Passos Coelho foi o melhor primeiro-ministro desde Sá Carneiro." A comparação é justificada: ambos governaram em momentos particularmente difíceis, ambos são pessoas extraordinárias, garante Alberto da Ponte, que pertenceu à JSD em 1975 e conheceu Sá Carneiro nessa altura.

Quanto ao momento atual, diz que os empresários "ainda estão a sentir o pulso" à realidade. "Dos meus encontros com empresários, com gestores, com o tecido industrial, noto que o investimento abrandou com este impasse nos últimos dois meses. Está toda a gente à espera para ver como será este governo." Apesar de confiar que o país vai manter-se no caminho certo, o gestor não acredita que António Costa se mantenha até ao fim da legislatura. "Um ano e meio é quanto acho que vai durar este governo" e cairá provavelmente por uma retirada de apoio dos partidos da esquerda.

A chegada dos cafés, depois de dispensadas as sobremesas, leva-nos da política ao país e aos portugueses, povo em que encontra enormes qualidades e capacidade real para pôr Portugal no topo. E contribuir para esse projeto é o que move hoje Alberto da Ponte, que encontrou tempo e "disponibilidade mental" para alargar os seus conhecimentos e partilhar a sua experiência com outras pessoas e empresas. "Não é possível fazê-lo quando se tem uma rotina, quando se está a gerir uma empresa", diz, já com o fim do nosso encontro a depender apenas da chegada dos segundos cafés. "Não acredito que volte a ter um lugar numa empresa", afirma ainda, enquanto revela o mais invejável desafio que tem em mãos: juntar ao pastel de bacalhau com queijo da Serra um copo de vinho do Porto Taylor"s.

Il Gattopardo

1 couvert

1 linguini aglio e olio

1 ravioli de espinafres

2 copos de vinho tinto

4 cafés

Total: 73 euros