A Lisboa que acolhe e a Lisboa que esquece num dia de campanha

Medina bem recebido pelos ciganos na Feira do Relógio. João Ferreira foi à Alta do Lumiar, à cidade que não consta dos guias turísticos

"Boa tarde, posso deixar-lhes aqui um folheto da CDU?", pergunta João Ferreira a um grupo que joga às cartas na esplanada de um café na rua Tito de Morais, na Alta de Lisboa. "Só se o deixar cair", responde um homem novo, cabelo rapado, sem levantar os olhos da mesa. "Se me pagar uma "jola" aceito o papel", acrescenta outro, mais velho, tatuagem dos AC-DC no braço-direito. São os únicos que abrem a boca.

Ao longo do passeio, o eurodeputado e candidato à Câmara e Lisboa enfrenta várias respostas idênticas. Mais do que os sinais exteriores - pobreza, falta de limpeza nas ruas, a quase inexistência de jardins, comércio, transportes públicos - há um sentimento de desânimo que transparece. Mas não se deixa abater: "É por isso que aqui estamos. Há outras comitivas que passam e seguem o seu caminho. Nós chegamos e paramos".

Outro grupo que joga às cartas, adolescentes e adultos novos, com um charro a rodar de mão em mão. Os mesmos rostos fechados. Mas uma rapariga lá decide falar. "O que nos falta aqui? Falta-nos tudo. Coisas para os jovens, apoios para os idosos e para os deficientes. Os anos passam e aqui não muda nada". O candidato considera a conversa "um sinal positivo". Ainda há quem não se conforme.

Há mais exemplos. O homem, de boné de rap, que explica ter trabalhado durante cinco anos para a Câmara a recibo verde, até que deixaram de precisar dos seus serviços. A senhora de meia idade que se queixa de que a filha, o marido e três filhos vivem num quarto da sua casa, por aguardarem "há nove anos" um apartamento camarário.

"As pessoas queixam-se - e têm razão - de que a Gebalis [empresa municipal de habitação] tem um tempo de resposta muito longo", conta João Ferreira que, na rua, aponta para vários apartamentos vazios. "O que aqui vemos é a mais cabal demonstração de que o problema da habitação social não está resolvido", considera. "Mas há vários outros problemas nestes bairros que deveriam ter sido resolvidos por quem estava na câmara".

O sapato, como o candidato

"Sapatos de luxo, é qualidade! É o maior, o candidato certo!" As duas proclamações do vendedor, seguidas e no mesmo tom, animam a comitiva do PS que, ao fim de uma hora a descer a Avenida do Santo Condestável, em Marvila, e ainda com mais de meia Feira do Relógio para percorrer, já vai dando alguns sinais de cansaço.

Geralmente, nas arruadas, são os militantes que puxam pela multidão. Ali, entre especialistas na arte de captar atenções com frases curtas, é preciso puxar da garganta para que os gritos de "PS, PS" se notem acima das promessas de camisas da moda a 3,50 euros ou das sapatilhas "de marca" por quinze.

Mas Fernando Medina, ladeado pelo candidato à junta de Marvila José Videira, transparece confiança. De mangas arregaçadas, distribuindo beijinhos e apertos de mão, o presidente da Câmara de Lisboa, segue confortável e sorridente na cabeça do pelotão, que vai incentivando ocasionalmente: "Estiveram todos no Bairro Alto. Ninguém tem pedal", desafia.

Num espaço onde muitos dos feirantes são de etnia cigana, o autarca lisboeta é recebido com entusiasmo. "Este é racista?", ainda pergunta uma mulher nova, atrás de uma banca de roupa. "Não, esse é o Ventura", corrige um homem mais velho. "Este é cá dos nossos!".

Medina não se livra de ouvir muitas queixas de populares, do tampo de esgoto destapado à frente de uma escola à senhora que não consegue lugar num centro de apoio a idosos. Mas ouve-as com paciência, rematando as conversas com um invariável: "Vamos ver". "São problemas pessoais das pessoas", explica ao DN. "Alguns são mais simples, outros nem tanto. Todos merecem ser ouvidos. Mas não nos ouviu prometer nada. Vamos estudar as situações e resolver as que podem ser resolvidas".

No balanço do passeio, Medina aponta a feira como um reflexo de Lisboa, "uma cidade para todos, que acolhe todos, na sua diversidade étnica, cultura, religiosa, social". E deseja que as eleições no vizinho concelho de Loures "sejam muito claras" na demonstração de que discursos de sentido oposto não rendem votos. Promete ainda diálogo com a oposição na câmara. Mesmo com maioria absoluta.

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