"[A geringonça] custou-me alguns dissabores com o anterior presidente"

Metade das pessoas com salário mínimo fazem parte de empresas da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal, com 104 associações, 190 mil empresas e quase milhão e meio de trabalhadores

A chamada geringonça fará um ano no próximo mês. Uma solução governativa que surpreendeu, nomeadamente muitos analistas. Um ano depois, as esquerdas já não assustam? Ou seja, para além disso, a paz social é uma vantagem e isso foi conseguido muito porque os partidos de esquerda estão coligados ou pelo menos apoiam esta solução do governo?

Nós aí temos uma posição muito clara e quando este governo tomou posse fomos provavelmente a única confederação que não assumiu uma posição crítica. Nós pensamos que uma confederação empresarial não tem de estar a definir modelos de governo - o que, aliás, até me custou alguns dissabores nas relações com o presidente da República anterior. Mas essas ficam para o meu livro de memórias - que eu nunca hei de escrever. Portanto, como eu disse na altura, a CCP nasceu no PREC e portanto habituámo-nos a negociar com todo o tipo de governos.

E o senhor já andou na esquerda quando era mais jovem...

Exatamente, também fiz esse circuito. Portanto, isso é uma coisa que não nos assusta. Vamos lá ver, este governo tem tido aspetos positivos e aspetos que nos preocupam. Nós sempre fomos favoráveis a algum incremento do consumo interno, porque das 400 mil empresas que existem só há 20 e tal mil que exportam e para manter o tecido empresarial a funcionar exige-se algum consumo interno. E há empresas que, mesmo para exportarem, têm de ter uma componente interna e, portanto, nesse aspeto, essa vertente da política de governo, independentemente de não entrarmos naquela discussão sobre se aumenta a pensão aqui ou se tira a sobretaxa dali, achamos que foi positiva e que acabou por dar alguma estabilidade social. Já na questão de como é que as empresas são tratadas e como é que se dinamiza o investimento, pensamos que há insuficiências bastante grandes. E aí temos uma posição crítica, aliás, como a que referimos em relação a este Orçamento do Estado.

Este Presidente da República tem sabido ter um papel equilibrador que tem sido positivo

Estamos mesmo a fechar esta entrevista. Pedia-lhe uma avaliação ao primeiro-ministro. Tem surpreendido... E já agora, porque estava a falar do anterior presidente, como é que olha para este Presidente da República? Que diferenças é que nota - e toda gente nota uma grande diferença -, mas do ponto de vista prático?

Este Presidente da República tem sabido ter um papel equilibrador e depois, enfim, de uma Presidência com algum distanciamento, tendo em conta o perfil da pessoa, eu penso que alguma proximidade e afetividade têm sido positivas. Para além de um sentido de equilíbrio político que também me parece que tem sido positivo. O primeiro-ministro é uma pessoa que tem capacidade política, penso que é inegável que a tem. No entanto, não sei... por vezes não sei se ele tem uma visão de longo prazo. Em relação a manter equilíbrios e conseguir alguns consensos que muita gente pensava que eram impossíveis, tem revelado uma grande capacidade, o que é positivo. Em termos de visão para o país a médio prazo penso que é muito cedo [para essa avaliação].

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