A filha do senhor Lin do restaurante já é doutora

Já não vão para a China estudar. Muitos nasceram cá e os pais investem na educação. Eles respondem com trabalho no negócio após as aulas. E também são empreendedores.

Lin Man chegou a Portugal com 8 anos, um ano depois do pai, Dihua Lin, e dois da mãe, Alian Xu, e da irmã mais velha. Já a família tinha restaurante em Lisboa, no Cais do Sodré. Veio da China mais uma irmã e a mais nova já aqui nasceu. Crianças que se habituaram a trabalhar com os pais no restaurante e a fazer os trabalhos de escola nos intervalos, iam a casa dormir. Lin acha normal e sublinha que os pais sempre quiseram que os filhos tivessem um curso superior. Ela tirou Direito, é coordenadora da carteira de clientes chineses na sociedade de advogados PLMJ (um dos sócios é Miguel Júdice).

"Estagiei na PLMJ depois do curso e, um ano depois, montei um escritório com um colega, essencialmente virado para a comunidade chinesa. Há três anos, convidaram-me da PLMJ para coordenar a China Desk, achei que estava na altura de subir na carreira, é outro nível, o dinheiro não é tudo. Voltei em janeiro de 2013." Conta Lin Man, 40 anos, que diz ser a única advogada chinesa inscrita na Ordem dos Advogados. Um valor acrescentado no currículo, já que os compatriotas são os principais clientes, muitos diretamente da China.

A advogada seguiu o percurso dos filhos dos imigrantes chineses da geração dos seus pais. Veio com um ano de instrução primária, para falar e escrever mandarim, tal como aconteceu com as irmãs, a mais nova foi depois à China aprender a escrita. Trabalhar e estudar era o dia-a-dia das meninas, incluindo fins de semana e férias. "Só a partir dos 16 anos é que comecei a ter férias, comecei a acompanhar a minha mãe nas viagens."

O restaurante do Cais do Sodré era pequeno e os pais mudaram o negócio para Alvalade, onde o Nova Ásia tem portas abertas há 25 anos. Agora gerido pela irmã do meio, a única dos quatro que não acabou o curso superior, Psicologia. A mais velha formou-se em Economia e vive em Hong Kong, de onde é natural o marido, a mais nova é licenciada em línguas e trabalha no Havai.

As irmãs frequentaram a universidade numa altura em que não era habitual entre os imigrantes chinesa. "Estudávamos e trabalhávamos. Íamos à escola, vínhamos para o restaurante, a casa só íamos dormir. Às vezes encontramos clientes antigos que nos dizem: "Lembro-me de vocês, pequeninas, no restaurante a fazer os trabalhos de casa." Muitos da minha geração acabavam por desistir por ser cansativo trabalhar e estudar, ou não quiseram estudar." Por isso, a família se distinguiu: "O meu pai é admirado na comunidade chinesa por nos ter dado uma boa educação, sempre a apoiar nos estudos."

Na altura, Lin não estranhava trabalhar, hoje questiona algumas práticas e quer dar às duas filhas aquilo que não teve em pequena. Isto sem perderem a cultura chinesa - a mais velha, de 12 anos, já esteve para aprender mandarim. E, neste ano, foi com a irmã, de 8, passar um mês na China com os avós paternos. Conheceu o marido em Wenzhou, cidade de onde é natural e que pertence à província de Zheijiang, de onde provém a maioria dos chineses imigrados.

Acredita que casar com um português não seria bem visto na altura, além de que não teve muitas oportunidades de conhecer os homens portugueses. "Só os meus amigos da universidade, mas não passava lá muito tempo. Assistia às aulas e vinha logo para o restaurante." Nada que a impeça de fazer um balanço positivo da educação dos pais e que lhe formou o carácter. Trabalhadora e empreendedora, características que a comunidade chinesa parece ter passado aos filhos, o que lhes traz vantagens comparativamente a outros licenciados.

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