A cidade quis agradecer a Soares. "É um homem formidável"

A Praça do Município foi o local onde a urna com os restos mortais de Mário Soares foi transferida para o armão da GNR, que a levou para o Mosteiro dos Jerónimos

Milhares de populares saíram à rua e estiveram no Mosteiro dos Jerónimos para prestar homenagem ao "pai da liberdade".

À varanda da janela da casa vizinha, a bater palmas e a chorar, a mulher escreveu "obrigado Mário Soares". É a síntese do dia de ontem, o agradecimento de um povo que hoje se repetirá nas ruas da cidade de Lisboa. À passagem do cortejo fúnebre do antigo presidente, milhares saíram à rua de aplausos nas mãos, alguns com bandeiras, socialistas e nacionais, outros com cravos, como aqueles que duas senhoras depuseram na urna quando a charrete onde seguia o corpo travou a marcha na Avenida 24 de Julho. Também Fernando Medina, presidente da Câmara de Lisboa, deixou um cravo junto da bandeira nacional que cobria a urna coberta de rosas - e emocionou-se.

Foi longa e demorada a marcha: junto à sua casa, o corpo de Mário Soares foi saudado por alunos e professores do Colégio Moderno, fundado pelo pai, administrado pela filha. E depois o percurso num cortejo motorizado (30 motas e um jipe) seguiu pelo centro de Lisboa até à Praça do Município, onde a urna deixou o carro funerário para ser levada no armão militar da GNR até aos Jerónimos. Na praça de onde foi proclamada a República, o socialista, republicano e laico foi homenageado por aplausos (uma constante ao longo do caminho).

Maria Emília Duque, 66 anos, não precisou de ir ao baú para trazer para a praça um saco a tiracolo da campanha das presidenciais de 1986. "Soares é fixe" e o seu sol replica-se num pequeno autocolante, ao lado de outro com a frase "Soares presidente". "É um homem formidável", disse ao DN, assim, com o tempo verbal no presente. E justificou a sua presença para a derradeira homenagem: "Ele tem uma aproximação tão grande às pessoas."

São essas pessoas que o vão acompanhar os seis quilómetros e meio que faltam de percurso a marcha do armão militar, com uma escolta de 84 cavalos da GNR, uma mancha dourada de capacetes que se prolonga no horizonte do dia de sol de inverno. O cortejo só acelerará a trote, já na Cordoaria Nacional, até aos jardins de Belém.

Nos Jerónimos

No jardim fronteiro ao Mosteiro dos Jerónimos, a chegada do cortejo fúnebre foi assinalada pelas palmas das muitas dezenas de populares que ali começaram a chegar por volta das 09:00, enquanto alguém gritava repetidas vezes "Soares é fixe".

Com as altas figuras do Estado e uma delegação do PS - onde estava o poeta Manuel Alegre - a assistirem à entrada da urna no Mosteiro, transportada em ombros por seis militares da GNR ao som da marcha fúnebre enquanto quase uma centena de elementos da Guarda lhe prestava honras militares, uma grande bandeira nacional encimada por um ramo de cravos sobressaía entre a assistência.

Entre a multidão, vindo da Póvoa de Santa Iria, Francisco Oliveira, militante socialista nº 75 230, emocionou-se ao dizer ao DN que ali estava para "prestar homenagem ao pai da liberdade", que em abril de 1974 " vi[u] chegar a Santa Apolónia" e ontem viu "partir com muita saudade".

O Chefe do Estado, Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, e a ministra da Presidência e da Modernização Administrativa, Maria Manuel Leitão Marques, em representação do primeiro-ministro, seguiram depois a urna até à Sala dos Azulejos, onde às 14:00 começaram a entrar os milhares de anónimos e muitas figuras públicas que quiseram, prestar uma última homenagem a Mário Soares e apresentar condolências à família.

A mãe do primeiro-ministro, Maria Antónia Palla, entrou pouco depois no Mosteiro - acompanhada pelo marido, coronel Pedroso Marques, e por Carlos Ventura Martins, antigo assessor de imprensa de Soares em Belém - e só quando um responsável do protocolo de Estado disse aos agentes da PSP para a deixarem passar pela zona lateral onde estava.

Já com o chefe da diplomacia, Augusto Santos Silva, nos Jerónimos, chegado diretamente da Índia, chegaram os antigos presidentes Jorge Sampaio e Ramalho Eanes, ex-governantes como Laborinho Lúcio, Bagão Félix, Guilherme d' Oliveira Martins, Rui Machete e Pedro Silva Pereira, líderes e ex-líderes partidários como Pedro Passos Coelho, Catarina Martins, Jerónimo de Sousa, Assunção Cristas, José Sócrates, António José Seguro, Carlos Carvalhas, José Ribeiro e Castro ou Francisco Louçã.

Com as coroas de flores a acumularem-se numa das alas do claustro do Mosteiro dos Jerónimos, também o Cardeal Patriarca foi prestar homenagem a Mário Soares, cuja urna esteve rodeada em permanência- a prestar-lhe honras militares - por seis alunos das academias da Marinha, Exército e Força Aérea.

Na Sala dos Azulejos estavam antigos membros das casas Civil e Militar do ex-presidente, entre os quais o sobrinho Alfredo Barroso e o embaixador Alfredo Duarte Costa. Figuras como o conselheiro de Estado comunista Domingos Abrantes, Vasco Vieira de Almeida, Sampaio da Nóvoa, Mário Tomé, Pinto da Costa, padre Vítor Melícias, maestro Vitorino de Almeida, general Garcia Leandro ou o humorista Ricardo Araújo Pereira também ali foram.

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