A beleza cruel de uma terra de ninguém

Refinarias, lixeiras, material de guerra, hidroaviões transatlânticos, um matadouro e um rio morto, mau cheiro e uma pungente fotogenia. Incursão na nostalgia de um território maldito - o Parque das Nações, quando ainda nem a Expo 98 lhe chegara

Para quem passava de carro, vindo do norte ou a caminho dele, a zona que hoje é Parque das Nações era uma imagem de bolas e cilindros em metal luzidio e ferrugem, a chama perpétua da enorme torre da Petrogal e o cheiro a queimado de quem inspira de um escape. Era bonito assim visto da estrada, uma espécie de visão futurista, de um planeta de banda desenhada, particularmente arrebatadora na alvorada ou ao fim de tarde, quando o desenho geométrico das estruturas se fazia nítido contra o céu.

Da nostalgia dessa paisagem e da sua peculiar beleza dão testemunho as imagens do livro Memória da Intervenção, editado em 1995 pela Expo 98, e que faz o levantamento fotográfico da área de 50 hectares pré-exposição universal, com as suas refinarias, barracões, ferros-velhos, lixeiras e bairros degradados. Carros abandonados, amarfanhados em amontoados coloridos, esqueletos de velhas instalações fabris, montanhas de entulho, contentores e mais contentores, material de guerra abandonado - tanques, jeeps, canhões, cemitério de fazedores de cemitérios -, o berrante de barris encarnados e amarelos da Shell empilhados como peças da Playmobil.

É tal a fotogenia que António Mega Ferreira adverte no prefácio, assinado como administrador da Expo 98, para o engano: "O olhar dos fotógrafos tem destas coisas: pousado sobre um amontoado quase informe de estruturas, objetos, desperdício e desleixo, devolve-nos uma imagem nítida e clara desse caos de abandono, quase apetecendo dizer que ali reina uma ordem da qual nunca nos apercebêramos antes. (...) Há nisto um perigo que gostosamente se corre: o de que alguém se surpreenda com o que lá (não) está e, perante o óbvio efeito de sedução destas fotografias, se interrogue sobre a oportunidade de uma intervenção urbana que transformará radicalmente a paisagem que através delas se intui, para criar uma realidade nova. (...) O que se vê é uma divina ilusão, fruto de uma inteligência estética que põe nas coisas uma "cor" que lá não está, uma leveza que efetivamente não existe, uma transparência que institui uma poética mas que não tem correspondência com os referentes de que se alimenta." Antes, António Cardoso e Cunha, o comissário da exposição, fazia uma arqueologia anterior, a da transformação que dera origem àquela paisagem: "Há meio século [1935, portanto], aquela que viria a ser a zona de intervenção da Expo 98, então nos arrabaldes da cidade, conhecia um processo de transformação física. (...) Na doca dos Olivais, nascia o chamado Aeroporto Marítimo de Lisboa para os hidroaviões do Atlântico. Cabo Ruivo inaugurava a refinação de petróleo no país. O matadouro juntava-se ao depósito militar de Beirolas, os lixos da capital começariam mais tarde a ser depositados numa praia, junto à foz do Trancão. (...) A imagem de desleixo e desolação aumentava, marginalizando um espaço que, apesar da excecional localização, está definitivamente atirado para a periferia. (...) A extensa plataforma Cabo Ruivo-Beirolas era - é ainda - para a cidade uma espécie de terra de ninguém. Poucos são os que conhecem esta faixa de dimensão equivalente à que nos conduz do Terreiro do Paço a Alvalade. Só por dever de ofício se cruzavam aqueles caminhos inestéticos para nenhures."

VEJA AQUI "ESPECIAL 20 ANOS EXPO 98"

"Um cemitério de coisas"

Inestéticos? O arquiteto paisagista João Nunes tem uma visão e experiência diferentes. "Nos anos 1960, ia lá com o meu pai e víamos as carcaças dos hidroaviões e as fragatas. É um sítio que tinha uma energia muito forte e foi sempre acumulando uma espécie de romantismo, quase nostálgico, com os barcos abandonados na lama", dizia, em março, em entrevista ao jornal digital O Corvo. "Era uma espécie de cemitério das coisas, um sítio em constante acumulação de sedimentos, onde as fábricas e os barcos iam morrer e ali ficavam."

Tiraram-nos do nosso habitat, pessoas que conviviam bem, e misturaram-nos com outras trazidas de vários bairros e zonas. Acho que queriam era tirar-nos dali o mais rápido possível para não se ver aquela miséria toda

Abílio Leitão, autor, com Bruno Portela, das fotos de Memória da Intervenção, que fizeram ao longo de 1994, tempera a nostalgia: "Do ponto de vista pictórico as coisas degradadas e deca- dentes são muito mais interessantes. Mas para os lisboetas aquilo era um depósito de porcarias. E, claro, as fotos não têm cheiro. Havia ali um cheiro a combustível que era uma maravilha. Os solos estavam todos contaminados nas zonas das petrolíferas e dos depósitos. Quando os demoliram, o chão estava esverdeado, saía líquido do solo. E mais à frente havia o cheiro do Trancão, que era nauseabundo. E, por incrível que pareça, andavam ali pescadores. Chegámos a alugar um barco a um pescador para fazer fotos das margens. Havia até no meio daquilo tudo um pequeno estaleiro onde se construíam barcos de pesca."

Jorge Gonçalves, geógrafo, professor no Instituto Superior Técnico, vivia perto, nos Olivais. A mãe trabalhava no antigo Centro de Inspeção e Classificação de Ovos - onde eram examinados e classificados os ovos que iam para o mercado de Lisboa - no território que hoje é o Parque das Nações e que o filho conheceu bem, tendo-o muitas vezes cruzado para ir apanhar caranguejo no Tejo. "Era relativamente fácil ir para ali vindo dos Olivais, porque não havia aquelas auto-estradas todas." Cruzando o olhar de especialista com as memórias de infância, vê na zona "uma das traseiras logísticas e industriais de Lisboa". É um clássico, observa, que nas cidades as áreas operárias e industriais estejam sempre a Oriente, por causa dos ventos: "Assim não levam o cheiro e o fumo para a zona mais benzoca." E sublinha o facto simbólico de, num mapa da cidade de 1988, toda a zona de Santa Apolónia para Oriente ser omitida, como se não existisse - a tal "terra de ninguém" de que fala Cardoso e Cunha, mesmo se sempre houve ali gente a viver e a trabalhar e se se implantaram ali indústrias tão relevantes economicamente como as do petróleo. Para essa ostracização simbólica contribuía também, sublinha, o facto de a zona oriental ter grandes conjuntos de habitação social (Chelas, Olivais Norte e Sul) - e bairros de barracas.

"Tiraram-nos do nosso habitat"

José Fernandes, 53 anos, nasceu num deles. Os avós maternos, vindos de Espanha, estabeleceram-se na zona do Prior Velho. "Vieram depois da Guerra Civil Espanhola e foram para a parte de cima, perto do RALIS. A minha mãe depois de se casar com o meu pai fez a barraca dela na parte de baixo, perto da Vila João Marques. Na zona da antiga Quinta da Serra, onde vivia muita gente, muita gente, não tenho dimensão." Vila João Marques e Quinta da Serra: o Google Earth não reconhece os nomes que fazem a geografia sentimental deste comerciante dono de restaurantes, filho de uma cigana e de um não cigano, numa família de seis irmãos, que confessa ainda se comover quando vai ao lugar onde viveu. "Fui feliz ali. Havia um pouco mais de pobreza mas muita união e amizade. Claro que olhando para trás parece-me impossível viver naquelas condições - não tínhamos água canalizada, íamos buscar a umas torneiras e usávamos TV com bateria e aquelas bilhas para luz porque não tínhamos eletricidade."

Havia muitos ciganos, conta, mas também muitos não ciganos. E, a partir dos anos 80, chegaram muitos negros. "Nunca houve confusão, aceitávamos a cultura uns dos outros. Coisas que nunca tínhamos visto, andarem com as crianças às costas, partirem milho..." Da zona onde foi implantada a Expo 98, que diz ter conhecido toda, acha que era "uma lixeira". Mas uma lixeira que foi o seu parque de diversões, o seu território de aventuras. "Quando era pequeno ia com um grupo ao caranguejo, apanhávamos para comer. E havia o matadouro, o quartel [de Beirolas], e a zona dos barcos. Também me lembro de irmos a pé para a piscina dos Olivais. No regresso, umas senhoras ali na Encarnação davam-nos pão com doce de tomate, porque nadar dava-nos muita fome. Era uma vida de pobre mas feliz." A voz enrouquece. "Há três meses fui ao sítio onde era a nossa casa e chorei, confesso. Lembrei-me da minha mãe, vi aquilo tudo vazio, as pessoas que conheci e ainda vivem nas casas ali ao pé e me reconhecem... Pessoas que ficaram nas casas ou pátios que não foram abaixo. Ainda há meia dúzia de casas na zona de baixo, onde jogávamos à bola e à malha. Dá-me pena ver aquilo, dá-me uma solidão ver o sítio onde brincávamos. Ainda se estivesse tudo construído... Desabitaram aquilo completamente. Tenho pena de que tenham arrasado aquilo tudo e não tenham feito nada. Pensei que trouxesse mais benefício. Aquilo era uma zona pobre mas com vida, agora não tem nada. Podiam ter-nos realojado no mesmo sítio ao menos. Tiraram-nos do nosso habitat, gentes que conviviam bem umas com as outras e misturaram-nos com outras trazidas de vários bairros e zonas. Não souberam administrar a situação. Acho que queriam era tirar dali as pessoas o mais rápido possível para não se ver aquela miséria toda."

As fotos não têm cheiro. Havia ali um cheiro a combustível que era uma maravilha. Os solos estavam todos contaminados nas zonas das petrolíferas. Quando as demoliram, o chão estava esverdeado, saía líquido do solo

A sua família saiu em 1996-97, por via do PER (Plano Especial de Realojamento, lançado em 1993) para a Quinta da Fonte (Loures), enquanto outras foram para a zona de Odivelas e para Santo António dos Cavaleiros. José Fernandes chegou a abrir um restaurante e uma loja na Quinta da Fonte mas em 2007, um ano antes dos confrontos, descritos como "entre ciganos e negros", que fizeram parangonas nos jornais, saiu para outra casa camarária. Apesar das críticas dirigidas à operação de realojamento, porém, acha o que foi feito na zona da exposição universal "uma maravilha. Muito positivo. Às vezes vou lá a um restaurante, outras vezes ao casino com os amigos. Gosto de ir lá passear".

"Raspar" o discurso urbano

Naquela que é, segundo o INE, a zona com o metro quadrado mais caro de Lisboa e na qual metade dos apartamentos têm cinco assoalhadas ou mais; a mais jovem - 20% dos habitantes têm menos de 14 anos, contra os 13% do resto da cidade -; e das com mais gente com formação superior (40% dos 28 mil que ali vivem têm o ensino superior), a maioria terá muito pouca noção da história daquilo a que se deu o nome de "cidade imaginada".

O fotógrafo e designer de comunicação Paulo Carmo, que ali vive, já assistiu à surpresa dos vizinhos quando lhes diz que o grande monte perto do seu bloco de apartamentos, entre o rio Trancão e a ETAR de Beirolas, é lixo - ficou do aterro sanitário. Ou que as rampas junto ao Oceanário eram "para os hidroaviões subirem". Uma ignorância e apagamento que considera dever-se também a quem gere aquele território, e que lamenta: "Embora a Expo 98 seja momento e situação charneira de grande relevância para a cidade e o país que todos, sem dúvida, devemos elogiar, recordar e comemorar, poucos conseguem elaborar, no passado, para além do discurso da lixeira, poluição e sucata." Olhando para a cidade como um palimpsesto - a ideia do pergaminho onde se inscreviam, umas por cima das outras, diferentes narrativas -, Carmo, que no mestrado de Ciências da Comunicação que está a fazer na Universidade Nova escolheu o Parque das Nações e a sua memória como tema, considera que seria "interessante e valioso para os habitantes e trabalhadores no local e, quem sabe, visitantes, existir conciliação com o passado do território. O discurso urbano que estava gravado na superfície deste território foi "raspado" para ser possível escrever esta nova narrativa que hoje vivemos na cidade".

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