"A árvore da Vida". Um livro que é luto, e renovação

Pedopsiquiatra Pedro Strecht publica novo livro. Na sequência da tragédia dos incêndios de 2017, reflete sobre a perda e sobre a importância da reaproximação à natureza para ajudar a prevenir os fogos

a. e j., sete e quatro anos de idade. Mas também os pais, e os avós. Uma família inteira, entre as muitas que perderam a vida no trágico incêndio de 17 de junho que devastou toda a região de Pedrógão Grande, Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos, Graça... Na escola onde os dois irmãos andavam, em Lisboa, viveu-se a consternação e o choque da perda brutal - tal como no país, que poucos meses depois, em outubro, voltou a sofrer, perplexo, tragédia idêntica.

O pedopsiquiatra Pedro Strecht, que trabalhava na altura na escola de a. e j. acompanhou o luto da comunidade escolar e das suas famílias, e convidou as mais de 200 crianças a escrever um texto, a fazer um desenho. Houve duas pombas brancas largadas no céu, mais de 200 balões brancos flutuaram durante algum tempo no espaço da escola, amarrados às árvores. Depois Pedro Strecht precisou, ele próprio, de refletir sobre tudo aquilo. "De organizar ideias e sentimentos, de fazer o meu próprio luto", confessa ao DN. O resultado chega agora em livro: "A Árvore da Da Vida, ensaio sobre a importância da natureza, a prevenção de fogos e o harmónico desenvolvimento infanto-juvenil", que é lançado esta quinta-feira, 17 de maio, pelas 18.30, na livraria Sistema Solar, no Chiado.

Há algo "de reparador" no título, admite o autor. Mas a expressão árvore da vida apela sobretudo para a simbologia ancestral da árvore, "com as suas raízes e os ramos, do próprio ciclo da vida, que implica o nascimento, crescimento e morte, com toda a sua carga da renovação". O ser humano e a natureza não estão separados, "há uma continuidade", embora as sociedades humanas modernas andem muito afastadas dessa comunhão, como diz Pedro Strecht.
Isso vê-se nas cidades, onde "não existe muito o conceito" dos espaços verdes, dos parques e dos jardins, e onde "os meninos passam a maior parte do tempo em casa, na escola ou no carro, e pouco tempo estão ao ar livre".

Sabe-se hoje, no entanto, que "quanto mais conseguirmos modelar os nossos ritmos do dia-a-dia pelos da natureza tanto melhor é a saúde física e mental", tanto mais "se apaziguam e modelam os nossos ritmos emocionais". Na sua reflexão, Pedro Strecht compara o território desertificado que é o interior geográfico do país, mais vulnerável, portanto, e desse outro deserto emocional que alastra nas sociedades modernas, distanciadas de tantas coisas essenciais, como essa tão simples de estar próximo da natureza.

"Na discussão dos fogos e da sua prevenção, nunca ouvi falar com especial ênfase na questão da aproximação à natureza, em particular das crianças e adolescentes, que penso que é preciso relançar, porque prevenir fogos também passa por aí", diz. "Se estamos perto dela, passamos a olhar a natureza como algo que nos diz respeito, e vamos querer cuidar dela e torná-la parte integrante das nossas vidas, o que hoje não se vê muito".

Por isso, é preciso mudar, "romper com a engrenagem". E há coisas concretas que se podem fazer, como ter um "maior cuidado na planificação das cidades, mais equilíbrio entre o tempo para o trabalho e para o tempo livre, quer dos pais quer das crianças". Construir e acarinhar as relações e ter a consciência dessa necessidade e da importância isso tem. Como diz m., oito anos, no seu pequeno texto, depois de Pedrógão Grande, que Pedro Strecht cita em "A árvore da Vida". Assim: "sempre vos adorei e não vou deixar de vos adorar. Vou sentir sempre a vossa falta, mas vocês vão poder continuar a brincar comigo em todos os meus sonhos".

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