74% das vagas para médicos no Sul do país ficaram por preencher

Alentejo e Algarve são as regiões onde é mais difícil fixar clínicos. Também em Lisboa e Vale do Tejo há especialidades sem candidatos

Nos últimos dois anos foram abertas 1710 vagas para colocar médicos em hospitais e centros de saúde em especialidades e unidades consideradas carenciadas, de acordo com dados enviados ao DN pelas Administrações Regionais de Saúde (ARS) do Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve (o Norte não respondeu). Mas metade ficou por preencher. São o Alentejo e o Algarve que mais sofrem: das 437 vagas a concurso nas duas regiões, 324 ficaram vazias (74%). O diploma com novos incentivos, criado por este ministério, já foi promulgado pelo Presidente da República e as ARS esperam que ajude a fixar mais médicos.

O Alentejo é o mais penalizado. Em 2015 e 2016 abriram 230 vagas em centros de saúde e hospitais, maioria para anestesiologia, medicina geral e familiar, medicina interna e psiquiatria. Mas 180 ficaram por preencher. "Temos uma grande dificuldade em fixar profissionais, o que faz com que para completar os serviços tenhamos de recorrer a prestações", diz ao DN José Robalo, presidente da ARS do Alentejo, que lembra que estas vagas ainda não estão enquadradas com os novos incentivos do ministério, já promulgados pelo Presidente da República e que devem ser publicados esta semana em Diário da República. Os médicos que aderiam ao modelo anterior terão dois meses para pedirem a alteração para as novas regras.

José Robalo espera que tenham efeito positivo. "São sempre uma esperança, de que de alguma forma permitam a possibilidade de os médicos considerarem vir para região." Mesmos os jovens que fazem a formação na região acabam, na sua maioria, por ir embora. José Robalo admite que possam procurar zonas mais atrativas e com outras ofertas extra profissionais, como as culturais. É por isso que a ARS também tem trabalho com as autarquias e procurado envolver outros serviços públicos e privados para que em conjunto se possa planear uma estratégia que alarguem as ofertas de emprego para os familiares dos médicos.

No Algarve o cenário não é muito melhor. Das 207 vagas abertas, 144 ficaram desertas. É o agrupamento de centros de saúde do Barlavento o mais carenciado e nos hospitais as especialidades mais afetadas pela falta de médicos são anestesiologia, ginecologia, medicina interna e ortopedia. A aposta, explica João Moura dos Reis, presidente da ARS do Algarve, vai ser na formação. "Quando estão prontos para os concursos, os médicos já tem família constituída, já criaram raízes nos locais onde fizeram a formação. Temos apostado no aumento de vagas para formação de forma a segurar o máximo de pessoas que se formem cá. Em 2016 tivemos 145 internos e este ano 156", refere.

"O decreto-lei promulgado a semana passada traz mudanças muito significativas: fortalece os mecanismos de transferência da família, o gozo de 11 dias úteis consecutivos de férias e do ponto de vista pecuniário são 36 mil euros em vez de 21 mil. É provável que tenhamos algum benefício com este diploma", diz Moura dos Reis, reconhecendo que um dos problemas da região é a falta de emprego diferenciado.

No Centro houve 177 vagas desertas em 418 e em Lisboa e Vale do Tejo (LVT) foram 389 em 855. "Verificou-se existir grande dificuldade em colocar especialistas em todas as áreas, sendo que várias não tiveram sequer candidatos como anatomia patológica, cardiologia e otorrinolaringologia. Nas áreas de ginecologia-obstetrícia e medicina interna verifica-se um número significativo de vagas desertas, maioritariamente por desistência dos candidatos", explica a ARS de Lisboa e Vale do Tejo. Entre as unidades mais afetadas pelas vagas desertas estão os centros hospitalares do Oeste, Médio Tejo, Setúbal, Barreiro/Montijo e os agrupamentos de centros de saúde do Arco Ribeirinho, Arrábida, Sintra.

José Manuel Silva, bastonário dos Médicos, diz que os novos incentivos "são claramente superiores" aos que existiam. "O SNS não é concorrencial com o privado e com emigração. Não é só a questão financeira. É a sobrecarga de trabalho, as condições degradadas, a falta de renovação de equipamento e de atualização tecnológica. Tudo é pior no Alentejo e Algarve que são as regiões que recebem menos investimento. Um verdadeiro incentivo seria o pagamento das horas extra, que resolveria grande parte dos problemas."

Miguel Guimarães, presidente de secção Norte da Ordem e futuro bastonário, aponta outro problema: "Não adianta abrir vagas carenciadas quando a Administração Central do Sistema de Saúde permite que hospitais mais centrais possam contratar diretamente". Quando a incentivos, refere, podem ser equacionados mais como benefícios fiscais ou mais dias de férias. "Temos de pensar como cativar os médicos para ficar no país, no SNS e em zonas como Beja ou Algarve", lembrando que as carreiras médicas são importantes para fixar médicos, tal como o reforço de profissionais nos serviços que permite aumentar a formação.

Dados

Região / Vagas desertas

Centro / 418 177

LVT / 855 389

Alentejo / 230 180

Algarve / 207 144

Exclusivos