Marcelo admite luta contra ameaças, mas sem pôr em causa liberdade e democracia

Presidente da República criticou orientações políticas de Donald Trump sobre os imigrantes. Da conferência sai proposta de criação de um "Passaporte de Segurança Global" para salvar vidas de refugiados.

O Presidente da República tornou-se ontem o mais recente dos líderes europeus a parecer criticar, de forma implícita, as orientações políticas do homólogo dos EUA, Donald Trump.

O Chefe do Estado intervinha na cerimónia de abertura da quinta edição das Conferências do Estoril, organizada pela câmara de Cascais e dedicada ao tema das Migrações - que propôs uma "resposta local" para mitigar esse "problema global": criar um "Passaporte de Segurança Global", para salvar as vidas e proteger a dignidade humana dos milhões de refugiados e deslocados.

"Quando vemos responsáveis políticos, protagonistas cimeiros da cena internacional, defenderem o hiperacionalismo, a xenofobia, a intolerância, a reação básica e populista perante os desafios deste tempo, temos de responder culturalmente e isso quer dizer de acordo com os princípios", declarou Marcelo Rebelo de Sousa.

"Culturalmente é dizer que é importante lutar por meios militares e de segurança contra ameaças vindas de fora, mas é muito mais não ceder à tentação de se ser securitário, de abolir a liberdade, de sacrificar a democracia, de pôr em causa princípios básicos da nossa vida comum", enfatizou o Presidente da República.

Marcelo abordou também o passado esclavagista de Portugal, mês e meio após a polémica criada pela sua visita à ilha senegalesa de Gorée, ao assumir que o país "praticou séculos a fio a escravatura" e "cultivou a descriminação étnico-racial".

"Portugal foi grande na História sempre que foi tolerante, sempre que foi universal, sempre que foi ecuménico, sempre que soube ser plataforma entre culturas, civilizações, oceanos e continentes", sublinhou o Chefe do Estado. Mas "foi pequeno quando foi intolerante, quando perseguiu na Inquisição, quando praticou séculos a fio a escravatura, quando cultivou a discriminação étnico-racial".

"Foi assim no passado e nós aceitamos esse passado sabendo exatamente o que teve de bom e teve de mal. Mas queremos construir e estamos construir um presente e um futuro diferentes", sublinhou Marcelo Rebelo de Sousa. Exemplos? "Quando lutamos na UE por políticas comuns de migração, quando somos dos três ou quatro países líderes na Europa em matéria de refugiados" e em proporção do número de habitantes ou, ainda, "quando insistimos na UE por uma mudança na política de cooperação".

O papel da língua portuguesa enquanto elemento unificador de espaços regionais foi o tema do painel que antecedeu a cerimónia de abertura, moderado pelo diretor do DN, Paulo Baldaia, e onde intervieram o antigo primeiro-ministro moçambicano Mário Machungo e o ex-diretor executivo da CPLP Hélder Vaz (Guiné-Bissau).

Mário Machungo foi particularmente enfático a dizer que a comunidade lusófona "tem de ter um pilar económico extremamente importante, assumido e implementado por todos", capaz de responder aos anseios das populações. "Sem isso nada feito", sumarizou Mário Machungo, após referir que "está a começar" a existir "um fluxo de moçambicanos atraídos por razões económicas para a China". Portugal pode contrabalançar esse movimento, atraindo lusófonos para Moçambique, se investir em áreas como o turismo, exemplificou.

Hélder Vaz, por outro lado, argumentou que a aprendizagem do mandarim "não dá a visão do mundo que os chineses têm" - ao contrário do português, que corresponde a "uma visão do mundo, de interpretar a realidade distinta" que nele existe.

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As culpas de Sánchez no crescimento do Vox

resultado eleitoral do Vox, um partido por muitos classificado como de extrema-direita, foi amplamente noticiado em Portugal: de repente, na Andaluzia, a mais socialista das comunidades autónomas, apareceu meio milhão de fascistas. É normal o destaque dado aos resultados dessas eleições, até pelo que têm de inédito. Pela primeira vez a esquerda perdeu a maioria e os socialistas não formarão governo. Nem quando surgiu o escândalo ERE, envolvendo socialistas em corrupção, isso sucedera.

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João Taborda da Gama

Nunca é só isso

Estou meses sem ir a Coimbra e numa semana fui duas vezes a Coimbra. Até parece uma anedota que havia, muito ordinária, que acabava numa carruagem de comboio com um senhor a dizer vamos todos para Coimbra, vamos todos para Coimbra, mas também não me lembro bem e não é o melhor sítio para a contar mesmo que me lembrasse. Dizia que fui duas vezes a Coimbra numa semana, e das duas encontrei pessoas conhecidas de que não estava à espera, no comboio, no café, na rua. Duas coisas que acontecem cada vez menos, as pessoas contarem anedotas umas às outras, muito menos ordinárias, que não se pode, e encontrarem-se por acaso, que não acontece. E não se encontram por acaso, porque mais dificilmente se desencontram. Para encontrar é preciso desencontrar, e quando o contacto é constante, quando a aparência de acompanhamento da vida do outro rodeia tudo o que fazemos, é difícil sentir o desencontro.

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Ruy Castro

Uma multidão de corruptos injusta e pessoalmente perseguidos

Nenhum agente público no Brasil, nem mesmo o presidente da República, pode ganhar acima de 33 mil reais por mês. Isso equivale a pouco mais de oito mil euros - o que, para as responsabilidades de certas funções, pode ser considerado um salário modesto. Mas você ficaria surpreso ao ver como, no Brasil, esse valor ganha uma extraordinária elasticidade e consegue adquirir coisas que, em outros países, custariam muito mais dinheiro. Com ele, nossos políticos compram, por exemplo, redes inteiras de estações de rádio e televisão, prédios de 20 ou mais andares em regiões de proteção ambiental e edificação proibida e extensões de terra maiores do que a área de certos países europeus. É um fenómeno. Mais surpreendente ainda foi o que descobrimos esta semana. O governador do estado do Rio - cuja capital é a infeliz cidade do Rio de Janeiro -, Luiz Fernando Pezão, fez apenas 11 saques em suas contas bancárias de 2007 a 2014. Alguns desses saques eram no valor de três euros, o que lhe permitiria comprar no máximo um saco de pipocas, e nenhum acima de oitocentos euros. Por mais que Pezão pareça um sujeito humilde e desapegado, como se pode viver com tão pouco? Talvez tivesse dinheiro em espécie acumulado em algum lugar - quem sabe um cofre em sua casa ou mesmo o seu próprio colchão -, do qual fosse retirando apenas o suficiente para seus alfinetes. Não por acaso, a Polícia Federal prendeu-o na semana passada, acusando-o de ter recebido o equivalente a dez milhões de euros de propina, naquele período em que ele era vice-governador do então titular Sérgio Cabral - que, por sua vez, está condenado por enquanto a 197 anos de prisão por corrupção, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Cabral é acusado também de ter cerca de 85 milhões de euros em depósitos fora do Brasil. Onde estarão os milhões de Pezão? E Michel Temer, dentro de 20 dias a contar de hoje, deixará de ser presidente do Brasil. No dia 1 de janeiro, uma terça-feira, passará a faixa presidencial a seu sucessor e perderá a imunidade que o impede de ser condenado por atividades ilícitas anteriores ao seu mandato. É quase certo que, já no dia seguinte, agentes da Polícia Federal baterão à sua porta em São Paulo, para levá-lo a explicar-se sobre as atividades ilícitas praticadas antes e durante o mandato. Explicações que ele terá dificuldade para dar, já que os investigadores parecem ter provas robustas de suas trampolinagens. E não se pense que tudo nessa turma se refere a milhões - uma inocente obra de reparos na casa de uma filha de Temer em São Paulo, "oferecida" por um empresário, indica um gesto de gratidão desse empresário por certa obra de vulto em que Temer, como presidente, o favoreceu. Nem toda a corrupção tem o dinheiro como fim. Ele pode ser também um meio - para se chegar ao mesmo fim. No caso do Brasil, foi o que prevaleceu nos últimos 15 anos: o desvio de dinheiro público para a manutenção do poder político, eternizando o desvio de dinheiro público. É uma equação diabólica, principalmente se maquiada de uma tintura ideológica - práticas de direita com um discurso de esquerda. E não se pense também que isso envolveu apenas os políticos. A Operação Lava-Jato, que está botando para fora os podres do país, condenou até agora 65 pessoas à prisão, das quais somente 13 políticos, num total de quase duzentas em fase de investigação ou já denunciadas. Entre estas, contam-se doleiros, operadores de câmbio, publicitários, lobistas, pecuaristas, irmãos, cunhados, ex-mulheres e "amigos" de políticos e carregadores de malas de dinheiro, além de funcionários, gerentes de serviço, executivos, tesoureiros, diretores, sócios-proprietários e presidentes de grandes empresas. Entre os presos ou investigados, estão também um ex-presidente da Câmara dos Deputados, um ex-presidente do Senado, vários ex-ministros de Estado (dos quais três ex-ministros da Fazenda), três ex-tesoureiros do Partido dos Trabalhadores, meia dúzia de altos funcionários da Petrobras, o ex-presidente do banco de desenvolvimento nacional, seis ex-governadores estaduais, os presidentes das quatro maiores empresas de construção civil do Brasil e quatro ex-presidentes da República. Um deles, Luiz Inácio Lula da Silva. Portanto, quando lhe falarem que o querido Lula está sofrendo uma perseguição pessoal e injusta, pense nos citados acima, tão injusta e pessoalmente perseguidos quanto ele.

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Marisa Matias

O Christian, a Rosa e a rua

Quero falar-vos do Christian Georgescu, uma daquelas pessoas que a vida nos dá o privilégio de conhecer. Falo-vos com nome e apelido porque a história dele é pública. Nasceu em Bucareste, na Roménia, tem 40 anos e encontrou casa no Porto. Trabalhou desde cedo até que um dia lhe faltou comida na mesa. A crise no início dos anos 2000 e a necessidade de dar de comer à filha fizeram que decidisse entrar num mundo paralelo. A juntar a isso, começou a consumir drogas e foi preso. Quando saiu percebeu que tinha de ir para longe para mudar e veio para o Porto.