Infecção grave obriga a retirar olho de doentes

Operação às cataratas resultou em cegueira de três doentes internados nos Capuchos.

Os três doentes que foram operadas às cataratas na clínica I-Qmed, em Lagoa, não vão recuperar a visão. Ao que o DN apurou, a infecção é de tal maneira grave que os médicos vão ter mesmo de retirar o olho lesado para estancar a contaminação.

"A equipa médica de Oftalmologia concluiu que estão esgotados todos os procedimentos com o objectivo de tentar preservar a função da visão, nomeadamente dos três doentes sujeitos a cirurgia de cataratas a um único olho. Confirma-se assim a perda definitiva da visão do olho lesado", refere o comunicado do conselho de administração do Centro Hospitalar de Lisboa Central.

Os três vão permanecer internados no Hospital dos Capuchos durante as próximas semanas. Dada a gravidade da situação, o procedimento seguinte será a retirada do olho infectado, apurou o DN, de forma a assegurar que o outro não será contaminado. Além disso, os doentes demonstraram vontade de serem operados às cataratas do olho saudável nos Capuchos, de forma a recuperar alguma visão. Questão que a equipa médica de oftalmologia está a avaliar.

A situação era muito grave e desde o início que o prognóstico foi muito reservado. Em pelo menos dois dos casos - o de Vadleine, de 35 anos, e o de um dos doentes que foi operado às cataratas - a endoftalmite (infecção) foi provocada pela mesma bactéria "extremamente agressiva". Nos restantes casos, ainda não se conhecem os resultados das análises.

Vadleine, a mulher de 35 anos e mãe de dois filhos menores, vai permanecer em tratamentos. Ainda durante esta semana deverão ser conhecidas mais informações sobre o seu estado clínico a possibilidade de recuperação de alguma visão.

Em todo o caso, os doentes podem avançar já com uma queixa criminal. "A acção criminal é melhor que a façam já para que se possa apurar a situação o mais rapidamente possível. A responsabilidade criminal é pessoal. Ou seja, de todos os que intervieram e sobre o que cada um fez na cirurgia. É preciso verificar se houve negligências, se as boas práticas foram ou não cumpridas. Quanto a uma acção cível, para pedido de indemnização, o melhor é saberem a extensão real das lesões", disse ao DN Eurico Reis, juiz desembargador e responsável pela comissão de acompanhamento dos doentes que cegaram no Hospital de Santa Maria.

Franciscus Versteeg, o médico holandês que operou os quatro doentes, já foi ouvido pela Inspecção-Geral de Actividades em Saúde no domingo, no Algarve. Segundo o que o DN apurou, a audição decorreu durante mais de seis horas e o médico respondeu a todas as perguntas. A equipa de peritos visitou ainda a clínica e recolheu outros elementos que integram a investigação.

Apesar de estar em Portugal, Versteeg não foi ao hospital dos Capuchos ver os doentes que operou. Ontem, antes de se saber que a cegueira era irreversível, a clínica publicou um comunicado onde dizia que "a cirurgia que deveria proporcionar boa visão, mas pode eventualmente terminar em fraca visão ou até mesmo cegueira, naturalmente provoca uma forte reacção física e psicológica".

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