Imagens na Net atraem mais 'aceleras'

As corridas nas estradas são filmadas e postas no YouTube. Para os polícias, isto é um apelo à participação

Recta de Sacavém, noite de 21 de Agosto de 2010. Dezenas de pessoas aglomeram-se à beira da estrada para assistir a diversas corridas ilegais envolvendo automóveis e motas. As "picarias" foram filmadas e colocadas no site de partilha de vídeos da Internet, o YouTube. Para mais tarde recordar.

Margem Sul, Maio de 2009. Desta vez, são as portagens da auto-estrada A2 que servem como ponto de partida para novas corridas. O filme, igualmente colocado online, começa por mostrar o conta-quilómetros de uma carrinha. "Quando quiseres", diz o jovem que está a filmar. "1,2,3 ... bora." O condutor arranca e rapidamente chega aos 180 km/h.

Terá sido na sequência de uma "brincadeira" perigosa como estas que um violento acidente na auto-estrada do Sul tirou a vida a Bruno Amaral, de 26 anos, na madrugada da última quinta-feira, de quem também existem alguns filmes na Net.

Alguns acidentes fazem mesmo sucesso no YouTube. Na zona de Monsanto, por exemplo, um automóvel acaba por bater num lancil depois de dar diversas voltas a uma rotunda. No mesmo local, o condutor de uma mota despista-se quando circulava apenas na roda de trás - os seis segundos de filmagem já foram vistos mais de 28 mil vezes.

18 de Outubro de 2010. Enquanto vários jovens se entretêm a fazer piões no meio da estrada, outros demonstram a velocidade das respectivas motas. Dezenas de pessoas assistem. Os automóveis são forçados a abrandar.

Os exemplos abundam. Mesmo em cidades do interior do país, como Évora, corridas de automóveis e de motas foram filmadas e colocadas na Internet. O local escolhido é o parque industrial, sobretudo a zona destinada a acolher empresas aeronáuticas que ainda se encontra desocupada.

"A difusão de imagens através da Internet veio tornar estas exibições mais apelativas", diz fonte policial. "Fenómenos destes sempre houve mas, dantes, eram quatro ou cinco indivíduos que se encontravam, a coisa sabia-se logo e íamos lá acabar com as corridas. Agora, combinam-se através de salas de chat e de fóruns e a coisa tanto pode ser num determinado local como a dezenas de quilómetros de distância."

Presidente da Associação Socio-profissional Independente da GNR (ASPIG) e militar com muitos anos de carreira na extinta Brigada de Trânsito (BT), José Alho diz que nem a legislação existente nem os meios ao dispor das forças de segurança são "eficazes" para "acabar" com as corridas ilegais. "Há oito anos, a BT tinha diversas patrulhas descaracterizadas, infiltradas no meio do trânsito. Hoje não só não há patrulhas à civil como tomara muitos comandos disporem de efectivos suficientes para o patrulhamento diário."

Também a legislação aplicável às infracções e crimes rodoviários se revela "demasiado branda", uma vez que "não existe punição adequada" mesmo quando os factos são provados em tribunal.

"No caso de corridas ilegais, como sucede com muito mais frequência no do álcool, estão em causa vidas humanas, mas raramente um juiz aplica uma pena de prisão efectiva. É preciso tratar-se de alguém que seja reincidente muitas e muitas vezes", refere José Alho. "Se não forem aplicadas penas de prisão efectivas, ou trabalho comunitário, é como se nada acontecesse."

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